<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877</id><updated>2012-02-17T06:29:34.459-08:00</updated><title type='text'>um dia chego lá</title><subtitle type='html'>Por: Vanessa Pereira</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>55</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-7391513376172500204</id><published>2010-10-11T09:07:00.000-07:00</published><updated>2010-10-11T09:14:48.087-07:00</updated><title type='text'>Nariz</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/TLM30fTMfkI/AAAAAAAAAKs/q8BPifgWnLc/s1600/file000284162710.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 266px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5526822542608465474" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/TLM30fTMfkI/AAAAAAAAAKs/q8BPifgWnLc/s400/file000284162710.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;  &lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: PT"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: PT"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: PT"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A chegada não foi fácil, assim como não foi pacífica a decisão da partida. Nos tempos que antecederam a dolorosa resolução, o meu pai desdobrava-se em exemplos bem sucedidos de amigos e colegas que desconhecíamos, que também tinham partido e agora estavam bem na vida, que nos enchiam de esperança e fundados receios, em animadas conversas pós-prandiais que indispunham a minha mãe. Da vontade e do temor de aventura de um e outro, surgiu a decisão pouco consensual e muito autoritária de fazer as malas e procurar noutro país uma vida diferente, que se augurava melhor.&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: PT"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Apesar de tudo, nada foi tão fácil e linear como o meu pai se deixou iludir, nem tão complicado como a minha mãe temia. Foi duro, trabalhoso e exigente. O trabalho, ou mesmo o seu excesso sem remuneração que lhe equivalesse em valor, não nos preocuparam. Servia-nos, simplesmente, o facto de haver trabalho e remuneração, independentemente da dureza do primeiro e da insuficiência da segunda. Nunca até aí, no entanto, tínhamos conseguido tanto. Presumo que a nossa história tenha inspirado outros que se nos seguiram na debandada porque poucos anos depois, ultrapassada a nossa fase da adaptação, já éramos alguns que até se misturavam, com esforço, entre tantos diferentes que nos rodeavam. Mas deixaramos para trás o que tínhamos sido até aí para sermos outros, embora ainda em muito desiguais daqueles que nos acolhiam. Olhavamo-nos e ainda nos reconheciamos, é certo, mas havia ali muita cedência. O lenço com que a minha mãe cobrira, desde sempre, o cabelo rebelde, amarrando-o sob a nuca, foi um dia cedido a um corte radical e moderno. Depois do trabalho o meu pai não se demorava a beber um copo com os colegas porque não os entendia e todo o dinheiro gasto era mal gasto em diversões supérfluas. Eu impus-me uma nova língua em que não me conseguia traduzir, mais para compreender do que para ser compreendida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: PT"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;No novo cá também surgiam amigos; uns aventureiros e ousados como nós, e os outros, os que cá sempre estiveram. Como lá na terra, entre estes últimos, havia quem gostasse de nós, quem nos tolerasse e até quem nos evitasse. Mas enquanto que lá nos criticavam pelas costas, entre a mercearia e o café, os daqui não se coibiam de nos olhar descaradamente como intrusos, como se, numa praia enorme e quase deserta, tivéssemos ousado pousar a nossa tenda demasiado perto da deles, ocupando-lhes espaço abusivamente e importunando-os com o ruído das nossas conversas bárbaras. Mas até com isso aprendi a viver, aliviando o peso dessa realidade nos dias em que me pesava mais o desprezo e desconsideração alheias. No início ainda tentei perceber, depois obriguei-me a deixar de o fazer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: PT"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Enquanto isso, na escola, o meu nariz aquilino e comprido valia-me uma série de comentários desagradáveis e apodos que abafava contra a almofada quando ninguém me via quebrar, praguejando contra os meus pais que me tinham passado a pesada e detestável herança. Fingia que nada disso me afectava, e procurava seguir impávida o meu percurso, mesmo quando me olhava no espelho e até concordava de mim para mim, que aquela coisa enorme e recurva no meio da cara era incontestável e até aceitavelmente alvo de zombaria.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: PT"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E começou por ser isso mesmo; um gozo, uma brincadeira inconsequente de jovens, para pouco depois se tornar numa característica oprimente. Estudos científicos desenvolvidos por cérebros altamente considerados e entretanto noticiados na imprensa nacional, sustentaram que os indivíduos de nariz grande ocupavam mais espaço do que os outros, respiravam mais ar que os demais, e, sobretudo, estavam em desequilibrada e injusta vantagem porque se chegavam sempre mais à frente do que os outros. Era uma realidade que o país estava cheio e havia gente a mais para o trabalho que agora escasseava quando há anos abundava. Daí até aos decisores políticos informarem diligentemente que todos os portadores de semelhante característica eram convidados a partir foi um passo, pelo que foi feita e divulgada uma recomendação nesse sentido, amplamente debatida em parlamento.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: PT"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Os resultados, porém, não foram os esperados e o espaço continuava demasiado ocupado, e excessivamente consumido por alguns narizes mais proeminentes. Os locais queixavam-se da raridade do ar respirável que lhes era roubado e das corridas injustas decididas em cima da meta por narizes mais distintos. Retirados, porém, os primeiros narizes mais submissos e crentes nas palavras e considerações entretanto produzidas, a hora de ponta teimou em prolongar-se ao invés de diminuir, assim como aconteceu com as filas em lojas, cinemas ou empresas de trabalho temporário.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: PT"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Como consequência, apurando ainda mais o discurso, os decisores determinaram que não poderia haver fumo sem fogo numa determinada história infantil, e daí a concluirem que os indivíduos de nariz grande eram mentirosos, foi o segundo passo. A ridícula ideia, mas tão conveniente a tanta gente, espalhou-se como fogo num armazém de palha. Assim passei de feia a mentirosa e, por último, a desprezível num curto período de tempo. Dias depois recebi a carta a avisar-me de que no dia seguinte, sem complacência nem possibilidade de replicar, teria de apanhar o avião que me levaria de regresso a um destino que, há anos atrás, fora o meu ponto de partida para um futuro melhor. E, curiosamente, acreditei nisso, de forma quase infantil, até ao fim, esperando sempre que alguém reconhecesse o terrível logro em que todos à minha volta se enredavam.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: PT"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A minha mãe chegou um mês depois, acusada de “meter o nariz em tudo”, para o que a natureza lhe tinha sido tão generosa. Saiu com o rótulo de intrometida. O meu pai seguiu-lhe os passos com uma semana de diferença porque era demasiado evidente quando “torcia o nariz” em certas e determinadas situações. Não lhe era permitido mostrar desagrado com aquela leviandade. Por último, o meu filho, que nunca tinha conhecido outro país senão aquele de onde agora nos expulsavam, chegava logo depois porque tão novo e já era excessivamente “senhor do seu nariz”. Ali, alegaram, não se tolerava a soberba e a arrogância.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="mso-ansi-language: PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:85%;"&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;Por: Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; tab-stops: 35.45pt 70.85pt 106.3pt 5.0cm 177.15pt 212.6pt 248.05pt 283.45pt 318.9pt 354.35pt 389.75pt 425.2pt 460.65pt" class="Body" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:85%;"&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;Publicado no 'Jornal de Sesimbra' de Setembro de 2010&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-7391513376172500204?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/7391513376172500204/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=7391513376172500204' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7391513376172500204'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7391513376172500204'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2010/10/nariz.html' title='Nariz'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/TLM30fTMfkI/AAAAAAAAAKs/q8BPifgWnLc/s72-c/file000284162710.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-4539460885941341283</id><published>2010-08-11T11:32:00.000-07:00</published><updated>2010-08-12T03:12:03.692-07:00</updated><title type='text'>O último desejo</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/TGLvRMNVBjI/AAAAAAAAAKc/cTe66Eewz9c/s1600/touristrfCN_2732.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 260px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/TGLvRMNVBjI/AAAAAAAAAKc/cTe66Eewz9c/s400/touristrfCN_2732.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5504224773214111282" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;A viagem tinha sido demorada e maçadora para os ossos e articulações já de si moídos e engelhados. Não foi só o tempo do percurso, nem a posição incómoda a que os bancos do autocarro obrigam, nem sequer a ansiedade em relação a este regresso há muito programado e sempre adiado. Foi, sobretudo, a aproximação progressiva em relação ao mar que banha a última paragem do percurso e que desde sempre lhe emperrou os movimentos, como se os músculos ficassem húmidos duma maresia pegajosa que custa a secar, tal como uma toalha de praia usada muitas vezes fica dura e ressequida e apenas uma lavagem com água doce poderia amaciar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Esticou as pernas com dificuldade assim que se viu em terra firme e sentiu, centímetro e centímetro, o processo doloroso do estiramento de todo o corpo, obrigando-o a expandir-se, embora  na sua idade o corpo tenha muito mais facilidade em tolher-se. O terminal dos autocarros havia mudado de sítio. Não o fizeram desembarcar mesmo no centro da vila, junto ao pequeno jardim, como esperava, mas antes num grande descampado de ar desconsolado que não aconchega os que chegam, e muito menos os que partem. Procurou em redor um caminho conhecido, uma memória do espaço perdida entre as pequenas e típicas casas que agora ladeavam os prédios em redor, algo que fizesse despertar na memória o que tinha conhecido, mas nada. Ainda se lembra do primeiro prédio que nasceu na vila. Chamaram-lhe o “arranha-céus” e assim ficou conhecido, durante várias décadas, aquele monstro imponente de betão que a partir de determinada altura marcava de forma indelével a paisagem duma vila que tanto se curvava perante o oceano que por ela entrava numa baía, que tudo ali sempre tinha sido baixo e curvo como que numa eterna vénea. Foi assim que o primeiro “arranha-céus” continuou a sê-lo de nome, mesmo depois de, anos mais tarde, aparecer o segundo, o terceiro e muitos outros que formavam o ponto-final desequilibrado, desarmonioso e até confrangedor daquela antiquíssima reverência ao oceano. Terá sido mais ou menos por essa altura que ele abandonou a vila, pensa, enquanto desfia o calendário amarrotado da memória. Sim, nessa época a terra já ameaçava tornar-se, na boca dos mais pessimistas, numa pálida imagem daquilo que sempre fora. Mas o “progresso”, como o vendiam outros mais optimistas e os políticos, entrava ali em força, em forma de betão, de estradas, de parques de estacionamento enormes, de restaurantes típicos transformados em cantinas, de rios de gente que chegavam com o sol da manhã e eram levadas pelo vento do final de tarde que açoitava os corpos estendidos na praia. Se antes a reverência era feita ao mar, agora passava a ser feita aos turistas. Traição por traição, antes ser traído pelos homens que pelo mar que nos guarda rancor.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Não era possível um engano, mas ainda assim, não fosse a idade tecê-las e por via das dúvidas, voltou a confirmar na fronte do autocarro o nome do destino e não tinha dúvidas de que aquela era a última paragem. Fora o próprio motorista que o tinha alertado quando o viu sentado a olhar descansadamente pela janela enquanto todos os outros passageiros já se tinham apeado e outra viagem, em sentido contrário, estava prestes a iniciar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Nunca na vida se tinha sentido perdido mas, pela primeira vez, uma sensação de desnorte lhe fez fraquejar as pernas. Afinal não há idade para experimentar novas sensações e é mentira que a velhice não nos faz esperar nada porque já se terá visto de tudo. Mas um homem não pode ficar parado, sobretudo um homem com alguma idade, e pôs-se a caminho. Para encontrar o mar bastava descer, descer sempre, até já não haver escapatória senão molhar as pontas dos pés.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Já não havia caminhos rectos em direcção à praia, só curvas e contracurvas que o obrigavam a subir ou a retroceder antes de conseguir voltar a encontrar o caminho descendente. Apurou o ouvido mas não alcançou qualquer som ou ruído que se parecesse com o desfazer das ondas, com um mergulho no mar, ou com as conversas à beira de água. Nada. O silêncio é ocupado pelo ruído ensurdecedor de passos, de sapatos a bater no chão e de rodas de automóveis a rolar no alcatrão. Cruzava-se com pessoas, gente anónima de rostos que se esquecem quando outro surge no passo seguinte, e de entre tantas, não reconhece em nenhuma as feições do antigamente. Nada lhe diz que já passou por ali. Não cheira a pequenos assadores de rua, nem ao pão fresco que sai das padarias, nem a fruta estendida à entrada das mercearias, nem ao refogado do almoço que sai pela janela aberta de par em par. Não se cruzou com o homem que leva pendurado no dedo indicador, um peixe prateado  comprido e em forma de espada cujo rabo, aqui e ali, roça no chão de calçada. Não viu na esquina o homem que vende bonecos e colares feitos de conchas, numa barraca azul atrás da qual se ouve um ruído metálico de um pequeno rádio a pilhas. Não viu a mulher que carrega uma alcofa de fruta e legumes que arrasta da praça até casa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Talvez seja dele, talvez seja do olhar cansado e embaciado que não lhe deixa reconhecer naquela, a realidade de outrora, nem sequer uma sua pálida sombra. Talvez seja até do seu olfacto ou da audição que vinham declaradamente perdendo talentos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Trazia na ideia reencontrar velhos amigos, passar um dia sentado a olhar a vida a desdobrar-se naquela terra e naquele mar, para poder morrer descansado e selar as pazes consigo próprio e com as suas memórias. Não quis deixar de se dar essa oportunidade antes de morrer porque há espaços e gentes que se colam a nós e integram-nos, fazem-nos, constroem-nos. Queria reencontrar-se ali, reencontrando um tempo, um espaço e as pessoas que o integram, que o fizeram e o construiram. Continuou, por isso, a caminhar, sempre no sentido descendente, que, sabe-o, só poderá conduzi-lo até ao muro da praia.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Eu vi passar esse homem, que arrastava as pernas atrás do corpo, porque lhe pesava demais. Não me pareceu que caminhasse sem destino. Era um caminhar doloroso, não sem rumo, mas desenquadrado e desalentado. Olhava para tudo como um turista, como qualquer turista a descobrir percursos. Entrei mesmo atrás dele no autocarro: “é um bilhete de regresso, por favor...”.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 11.0px Helvetica; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 10.0px 0.0px; font: 11.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 10.0px 0.0px; font: 11.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Publicado no Jornal de Sesimbra (Julho)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-4539460885941341283?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/4539460885941341283/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=4539460885941341283' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4539460885941341283'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4539460885941341283'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2010/08/o-ultimo-desejo.html' title='O último desejo'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/TGLvRMNVBjI/AAAAAAAAAKc/cTe66Eewz9c/s72-c/touristrfCN_2732.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-7252213697446560981</id><published>2010-05-17T09:07:00.000-07:00</published><updated>2010-05-17T09:14:54.083-07:00</updated><title type='text'>O pensamento de Mao... anestesia</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S_FqoMXYnkI/AAAAAAAAAKU/izZDh_SuouM/s1600/acupuncture20seattle20-20wedgwood20acupuncture20meridian20man.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 281px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5472272260978482754" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S_FqoMXYnkI/AAAAAAAAAKU/izZDh_SuouM/s400/acupuncture20seattle20-20wedgwood20acupuncture20meridian20man.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 10pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Calibri;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 10pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;«Respondendo ao apelo do nosso grande dirigente, o Presidente Mao, &lt;em&gt;“A medicina e a farmacologia tradicionais chinesas constituem um rico património, que é preciso investigar para elevá-lo a um nível superior”&lt;/em&gt;, os trabalhadores médicos e cientistas da China criaram a anestesia pela acupunctura – uma técnica genuinamente chinesa.»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 10pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;(...)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 10pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;«A anestesia pela acupunctura apresenta ainda algumas imperfeições. Por exemplo, em certas operações os pacientes sentem ainda dor ou mal-estar quando alguns órgãos são deslocados. Estudando mais assiduamente ainda o marxismo, o leninismo, o pensamento maotsetung e utilizando o materialismo dialéctico para guiar o seu trabalho médico e a pesquisa científica, os trabalhadores médicos e cientistas chineses prosseguem com audácia os seus esforços na prática e na criação para aperfeiçoarem a anestesia pela acupunctura.»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 10pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;(...)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 10pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;«Os “especialistas” burgueses afirmavam que as convulsões interditavam o emprego da anestesia pela acupunctura e que a taxa de mortalidade dos pacientes atacados por elas durante a operação era relativamente elevada. Ora, os nossos trabalhadores médicos, armados com o pensamento maotsetung e com um indomável espírito revolucionário, acabaram com esta “zona proibida” da neuro-cirurgia.»&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 10pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 10pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Excertos do livro 'A Anestesia pela Acupunctura', Edições de Pequim, Editorial Minerva (Extraído do planfleto Acupuncture Anaesthesia publicado pelas Edições em Línguas Estrangeiras, Pequim, 1972)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-7252213697446560981?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/7252213697446560981/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=7252213697446560981' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7252213697446560981'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7252213697446560981'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2010/05/o-pensamento-de-mao-anestesia.html' title='O pensamento de Mao... anestesia'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S_FqoMXYnkI/AAAAAAAAAKU/izZDh_SuouM/s72-c/acupuncture20seattle20-20wedgwood20acupuncture20meridian20man.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-6386466390786963113</id><published>2010-04-26T01:50:00.000-07:00</published><updated>2010-04-26T01:55:57.286-07:00</updated><title type='text'>A cortina</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S9VVBCWCRdI/AAAAAAAAAKM/gr7AH9JR0BQ/s1600/IMG_0149_m.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 267px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S9VVBCWCRdI/AAAAAAAAAKM/gr7AH9JR0BQ/s400/IMG_0149_m.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5464367199181489618" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;p style="text-align: left;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="font-family:Georgia, serif;font-size:130%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 16px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="font-family:Helvetica, serif;font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 12px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Começou por ser uma cortina a fechar-se em si. Primeiro um pouco, depois mais do que isso. Sempre mais e nunca o contrário, num movimento lento, compassado, matematicamente equilibrado, quase perfeito e harmonioso, que não podia ser, simplesmente, casual, mas antes ensaiado. Nos primeiros tempos acreditou que fosse, apenas e tão só, isso mesmo; um manto que ora o isolava a ele, ora lhe vedava o que o rodeava. A perspectiva era uma opção sua, mas era, inevitavelmente, uma perspectiva de encerramento. Era como se, de forma natural, dependesse do seu próprio corpo decidir, em determinados momentos, se devia olhar em redor ou antes para si próprio, a partir de dentro, escondido atrás daquela cortina que teimava em permanecer e continuar a cair. Quando esta explicação lhe ocorreu, deixou de se preocupar com aquele encobrimento que, a cada dia que passava, o obrigava a olhar mais para dentro de si e deixava pouco espaço para espreitar para fora. Tinha encontrado um sentido, que a ele lhe servia, e de pouco mais precisava. Simultaneamente, todos em seu redor reparavam no seu ensimesmamento, estranhavam a sua preocupação com questões estranhas e desapropriadas, sobre as quais pensava demais, e no alheamento em relação ao que o envolvia. Ficou “distraído”, porque era assim que o reconheciam e enquadravam. Depois tornou-se numa criança menos sociável que o normal, com uma imaginação tão fértil, capaz de criar um mundo seu, onde os outros cabiam, mas apenas por instantes, e de onde eram expulsos como se lá nunca tivessem estado. Mas foi só quando a cortina se fechou completamente sobre o prato de comida, sobre o caderno dos deveres e sobre a bola no recreio, que conseguiram diagnosticar-lhe a cegueira que tão cedo lhe tomou conta da vida. Para todos os que o rodeavam, tinha sido tomado por uma fatalidade; para ele, o seu corpo decidira, simplesmente, debruçar-se sobre si mesmo sem virar as costas ao resto e, para isso, precisava apenas de palavras, ou melhor, de conceitos e significados, e dispensava as cores, as formas, as texturas, ou as luzes. A escuridão era até bem mais adequada ao seu novo olhar. Enquanto isso, choravam-no porque perdia, irremediável e prematuramente, a capacidade de conhecer o mundo, países distantes, gentes diferentes e maldiziam a doença que, silenciosa e dissimuladamente o atingira a ele, mas que também afectava a vida dos outros que estavam por perto, que agora se desdobravam em cuidados para o protegerem, para lhe vigiarem os movimentos, para o ajudarem em todas as tarefas, básicas ou complexas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;O dia em que a cortina se fechou por completo, foi para ele como se a peça de teatro em que era um permanente espectador, tivesse terminado e aplaudiu de pé a oportunidade de assistir a tão distinta encenação. Os pais acreditavam que a ausência de visão, um processo agora completamente concluído, seria o fim, mas para ele, por oposição, isso representava o fim apenas do primeiro acto. As futuras encenações desenrolar-se-iam atrás de um manto negro, de onde apenas lhe chegavam as vozes, as respirações e os silêncios. Esses sons e ruídos entrecortados falavam-lhe de médicos, muitas vezes diferentes, mas com um prognóstico comum: não havia reversão para o seu estado. Na última vez - porque tinha ficado, a priori, determinado que seria a última vez; a derradeira tentativa - em que ouviu o mesmo, sentiu-se triste. A tristeza era, de resto, um sentimento que nunca, até àquele momento, tinha associado à cortina negra que já fazia parte de si. Porque, pela primeira vez, sentiu que todos tinham perdido a esperança por ele, que choravam e se entristeciam por ele. Sentiu-se parte de uma coisa, e não uma coisa por inteiro. Sentiu-se incompleto, imperfeito e, pior, irreversivelmente imperfeito. Foi nesse dia que decidiu o seu futuro: queria ser actor de teatro. Não para ser outros, quem sabe perfeitos, que não ele. Não para viver outras vidas que não a sua. Não para demonstrar que era capaz de ser como outros, aqueles a quem o corpo não impunha mantos negros. Mas para participar no momento do encerramento total da cortina, após cada encenação, altura em que se permite tudo... até ao reacender das luzes.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Por: Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Publicado no Jornal de Sesimbra de Fevereiro de 2010&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-6386466390786963113?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/6386466390786963113/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=6386466390786963113' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6386466390786963113'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6386466390786963113'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2010/04/cortina.html' title='A cortina'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S9VVBCWCRdI/AAAAAAAAAKM/gr7AH9JR0BQ/s72-c/IMG_0149_m.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-693902646860850369</id><published>2010-03-22T01:43:00.000-07:00</published><updated>2010-03-22T01:51:18.449-07:00</updated><title type='text'>A agenda</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S6cvF24Fg1I/AAAAAAAAAKE/GJwZad4OqJU/s1600-h/Agenda.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S6cvF24Fg1I/AAAAAAAAAKE/GJwZad4OqJU/s400/Agenda.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5451377651631883090" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Primeiro saiu a filha. Só conseguiu identificá-la porque entre as várias personagens escuras que a seguiam e ajudavam a compôr aquele cenário funebre, a dela era, sem dúvida, a mais sombria. Fora isso, existiriam depois as óbvias parecenças físicas que não a deixariam esconder a filiação. Cada vez mais se convencia de que há traços que o tempo e a individualidade não apagam nem disfarçam. Era ela, não teve dúvidas. Tinham falado no dia anterior pelo telefone. Há muito que o aparelho não tocava lá em casa e imaginava que apenas aqueles com quem se cruzou, algures, há um tempo indeterminado, conservariam ainda o seu número numa agenda telefónica, em papel, daquelas finas, que, tal como ele, guardavam na mala, numa pasta ou numa gaveta, de forma a nunca saberem onde encontrá-la à primeira. Guardava ainda também a sua. E, claro, muitas vezes já nem sabia bem onde, mas sabia, exactamente, onde a procurar quando precisava. Como as demais, a sua está organizada alfabeticamente, em grupos de três letras, sendo que para o primeiro grupo, o das letras A, B e C, tivera de roubar espaço ao grupo VWX onde se deixavam esquecer uns nomes solitários. Acabou, mais tarde, por evitar essa intromissão de nomes num espaço que não lhes estava reservado, e optou por acrescentar pedaços de papel soltos entre as páginas das letras iniciais mais concorridas. Não lhe era estranho, por isso, encontrar, de vez em quando, na mala, numa pasta, ou numa gaveta, uma Ana, um José ou um Manuel perdidos, que tinham escapado à organização daquele pequeno livro, sem força e sem espaço para albergar todas as pessoas e respectivo número que ele lá queria meter dentro. Essa possibilidade de fuga, no entanto, não era concedida aos nomes iniciados por X ou Z, porque para esses, havia sempre um espaço. E continua a haver. Há muito de injusto, pensou, no facto de apenas alguns terem essa possibilidade de sairem ou de permanecerem, sobretudo porque nisso não existe, aparentemente, aleatoridade nenhuma. A oportunidade é apenas ditada pela ordenação alfabética. Há gente que, simplesmente, não consegue ser arrumada em lado nenhum. E a julgar pela agenda, esses estarão escondidos entre uma maioria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; min-height: 14px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Quando recebeu o telefonema da mulher, concluiu que, por oposição, o seu nome é daqueles que permanecem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;“ - Desculpe incomodá-lo a esta hora. Sabe, o meu pai faleceu a noite passada. Julgo que saberá mas há vários anos que ele não saía de casa. Primeiro por opção e, mais recentemente, por motivos de saúde. Há muito que não falava com ninguém. Um determinado dia, concluiu que já estaria velho demais para produzir e decidiu tornar-se num mero consumidor. Leu tudo o que conseguiu até gastar essa faculdade. Mais tarde contratámos uma enfermeira que pouco mais fazia do que ler para ele as obras que tinham ficado para último, e relia-lhe outras. Até porque me parece que ele não precisava, de facto, de outros cuidados de saúde. Apenas isso o mantinha. Esta clausura enciclopédica fê-lo perder o contacto com muita gente, muito amigos e companheiros... como o senhor. Para o encontrar, tive de recorrer à agenda que ele guardava numa gaveta. Passei as últimas horas a contactar alguns destes números mas muitos já nem existem. Como sabe, algumas pessoas aderiram aos telemóveis e agora é impossível informá-las. Outros são as próprias pessoas que já morreram também. Mas enfim... É assim a vida. Mas gostava muito que pudesse estar presente no funeral amanhã. Sei que, o afastamento do meu pai e o corte abrupto e repentino das relações pessoais que alimentou em tempos, poderia ser até dissuador, mas para mim seria importante conhecê-lo e conhecer o meu pai através dos outros que lhe foram próximos... Compreendo que seja um pedido estranho, mas para mim é muito importante. Faço questão que venha.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Ele não poderia ter respondido doutra forma ao pedido. Tinha de vir. Se soubesse quem tentava contactá-lo do outro lado da linha, provavelmente não teria atendido a chamada. Mas também nunca saberá se, apesar disso, conseguiria resistir ao já quase ausente toque estridente e depois ao apelo. Sabia que tinha de se aproximar, que deveria apresentar-se e manifestar os seus pêsames. Sem pensar, mas com os movimentos de quem já está habituado a movimentar-se no meio da dor alheia, da perda e das partidas, entrou no cenário fúnebre que a envolvia. Apoiando-se nas suas já quebradiças memórias  e olhando mais de perto, não conseguiu associar-lhe as feições a alguém conhecido. Ela fixou-o, sem chorar, cumprimentou-o, e baixou o olhar como que extenuada.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;“ - António? António quê? António Silva... deixe-me ver... Não, não está no sítio dele. Mas pode ser daqueles que ficaram na página do Z... Ou não... Talvez no X... ou no Y... Bom, definitivamente deve ser daqueles que se me escaparam, nalgum momento, para a mala, ou para a pasta, ou numa gaveta. Ah! Então tenho a certeza de que o seu pai era daqueles que não se conformavam com a organização que lhe dei. Devia ser um bom homem... Mas amanhã estarei lá. Ele merece isso com certeza.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Publicado no 'Jornal de Sesimbra' de Fevereiro de 2010&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-693902646860850369?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/693902646860850369/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=693902646860850369' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/693902646860850369'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/693902646860850369'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2010/03/agenda.html' title='A agenda'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S6cvF24Fg1I/AAAAAAAAAKE/GJwZad4OqJU/s72-c/Agenda.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-1423710091334193671</id><published>2010-01-30T15:51:00.000-08:00</published><updated>2010-01-30T16:03:10.612-08:00</updated><title type='text'>É em terra que se prepara a vida no mar</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S2THQhk4TII/AAAAAAAAAJ8/X7Yn1mXCCcI/s1600-h/MR+15+-+Janeiro+2010+%7C+Baixa.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 346px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S2THQhk4TII/AAAAAAAAAJ8/X7Yn1mXCCcI/s400/MR+15+-+Janeiro+2010+%7C+Baixa.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5432686137220549762" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;a href="http://www.ruimiguelcunha.com"&gt;Fotos de Rui Miguel Cunh&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;a href="http://www.ruimiguelcunha.com"&gt;a&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 14.0px Helvetica"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Quem vai ao mar, avia-se em terra&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Há espaços que são capazes de preservar histórias, tradições e uma identidade, mesmo sem as manter no frio ou as envolver em sal para as conservar. Nas “lojas de companha”, espécie de armazéns onde se guardam e preparam os apetrechos de pesca, autênticos marcos identitários da antiga vila piscatória que ainda pulsa, cheira a isso tudo: ao sal do mar, à brisa fresca, mas também a redes e ao peixe. Cheira mais a passado do que a presente. E o que virá, pressente-se apenas, mas sem se pensar muito nisso. Qualquer pescador sabe que só se pode programar a pescaria de amanhã e não muito além disso. Da seguinte separa-o, afinal, um hiato enorme onde cabe o tempo que faz, as correntes que sopram, as marés que nascem, os percursos dos cardumes, os quartos da lua.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Se há uns anos, as “lojas de companha” representavam pequenos centros da actividade económica local, a sua relevância e presença no centro da localidade esmoreceu e extingue-se, a pouco e pouco, muito em consonância com o envelhecimento dos pescadores e a consequente perda de vigor da própria actividade que até aqui representava uma herança, que todos os homens e mulheres tinham, inevitavelmente, de cumprir. Os filhos de pescadores, que nasciam e viviam de peito feito ao mar, tinham-no como horizonte e futuro. As filhas de pescadores, haveriam, inevitavelmente, de casar com pescadores, vivendo cada dia na incerteza do pão na mesa, determinada pelos humores do tempo e do mar e, claro, do regresso dos seus homens. Mas há muito que não é assim.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;De facto, não foi ele quem escolheu o destino do filho, mas também não decidiu o seu próprio. Pensando bem nas coisas da vida, a sua é feita de muitas opções que não tomou, limitou-se antes a seguir o caminho que o barco em que seguia naturalmente tomou, no enfiamento do rasto deixado pelos que seguiam à sua frente. Naquele tempo, o pai vivia para o mar, tal como o pai dele e o pai do pai dele. Não seguir aquele percurso não era opção. Além disso, a pesca era como um respirar, que fazia toda aquela terra passar de um dia ao seguinte. Era um simples existir. E ele só podia fazer parte dessa existência, de que dependia, e que dependia de si e de outros como ele.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Com o seu filho já foi diferente. Passou-lhe as fartas sobrancelhas negras e o cabelo tingido, aqui e ali, de branco que teimam em atribuir às preocupações que a vida lhe dá, as orelhas compridas e largas, o nariz recurvo, os lábios finos e duros, e até o corpo esguio e o jeito de andar. Não lhe conseguiu passar a inevitabilidade do trabalho no mar, nem a necessidade daquele sal para temperar e apaladar a vida ou a obrigação de se manter fisicamente próximo do oceano. Não fossem as semelhanças físicas, e certamente muito lhe teria preocupado o facto de o filho preferir a carne ao peixe, os banhos de água doce em casa aos salgados na praia, e os passeios de ténis na areia aos descalço que lhe permitiam sentir a reconfortante aspereza da areia fria na sola desprotegida dos pés. O velho não esconde que aquelas diferenças o preocuparam na altura, mas a mulher pacificou-o, fazendo-o ver que também os filhos mudam, como se lhe modificaram as feições e se lhe enrugou o peito, como mudou a televisão e o boletim meteorológico que agora só anuncia se chove ou faz calor, o que pouco interessa aos pescadores mais interessados nas direcções e força do vento e na altura das vagas. Da mesma forma mudaram os barcos com novos aparelhos que aliviam os braços dos homens, mudou o futebol, as ruas e até o mar. Afinal de contas, tudo se modificou e apenas o velho permanece igual, como que cristalizado na sua relação com o ofício e com o mar.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Ao filho, a brisa que soprava do mar, também lhe trouxe o cheiro de paisagens distantes, gentes desconhecidas, mas, mais do que despertar-lhe a curiosidade, empurrara-o ainda mais para o interior, para um escritório, onde quatro paredes o protegem das nortadas frias, das chuvadas inclementes e do sol abrasador. O pai tinha as mãos grossas e possantes, enquanto as do filho eram finas e frágeis, como as dos demais colegas de escola. E era aqui que residia a diferença: à medida que cada um destes jovens decidia virar as costas ao mar, a pesca, lentamente, deixava de fazer passar um dia ao seguinte na vila piscatória.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Gaivotas em terra, tempestade no mar&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Local de trabalho, ponto de encontro, espaço de convívio, a “loja de companha” é, sobretudo, um conjunto de pessoas que encerra muitas histórias com sal dentro. Mas não são, por isso, quaisquer pessoas. São marítimos. É quando o mau tempo ou a previsão de tempestades no mar impede os barcos de o desbravarem que as “lojas” se enchem, da mesma forma que as gaivotas se refugiam em terra, como determina o ditado. Ali há sempre trabalho, há sempre conversa, há sempre discussões, há sempre novidades. E é também o mais próximo que estes homens conseguem estar do mar, quando não podem embarcar. Nem é preciso fechar os olhos ou puxar muito pela imaginação para sentir a presença e os cheiros do sal, da brisa, do peixe e das redes, numa mistura inigualável que já não lhes arde no nariz como a quem ali entra por acaso; os que não conseguem passar-lhes à porta sem espreitar, atraídos pelas vozes fortes e ásperas que chegam do interior, ou pela profusão de cores e coisas que os homens conseguem manter no espaço sempre exíguo onde se atarefam em torno dos apetrechos, entre baldes, boias, cordas, fios de nylon ou “pitas”, selhas e lonas. E ao fundo, há sempre um calendário pendurado. Até porque os dias e as horas na “loja” não passam ao sabor do andamento dos ponteiros do relógio, mas sim do alternar entre o dia e a noite e a maré cheia e a maré vaza. É um tempo diferente, marcado por vivências fortes, fruto da proximidade e entrega quotidiana aos desígnios duma natureza que se aprende mais a respeitar do que a dominar para dela tirar proventos. É um tempo que aproxima os homens e os torna “camaradas” uns dos outros, expressão que é mais do que uma forma de tratamento. Uma “companha”, ou tripulação duma embarcação, é composta por “camaradas” que, na realidade, são muito mais do que meros companheiros de viagem, embora também o sejam.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Quando o almoço estava pronto era à “loja” que a avó lhe pedia para ir chamar o avô numa corrida. Quando chegava a casa e ninguém lhe abria a porta, era à “loja” que ia apanhar a chave. Quando o avô não estava em casa, era porque estava na “loja”. Quando não estava nem em casa, nem na “loja”, era porque ia a caminho de um lado ou do outro.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Uns anos separam-nos agora dessa altura, em que a vida do avô, em terra, se resumia a uma reduzida dúzia de passos, embora no mar se demorasse largas horas em que percorria muitas milhas. Mas ainda hoje, apesar de vergado e submisso à impossibilidade de embarcar e de a idade lhe ter roubado o vigor de outros tempos, mantem-se, inevitavelmente, nas proximidades da “loja”, onde ainda participa em patuscadas, que visita quando pode e isso são muitas vezes, para onde se encaminha quase a horas marcadas como sempre fez, para falar de tudo, para saber da última pescaria, para falar da próxima, e, sobretudo, para falar da pesca. A organização do seu dia, ainda depende da previsão meteorológica e da tabela das marés. Quando, em determinadas ocasiões, a filha ou a neta o levam a passar uns tempos longe do mar e perto delas, não há dia em que não tenha de telefonar para um antigo “camarada”.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- É de sul? A “companha” foi ao mar?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Não partilha com quem o rodeia, a informação que lhe transmitem do outro lado. Sabe que isso pouco lhes importa. E mesmo que partilhasse, nenhum saberia, como ele sabe, utilizar para os fins necessários aquela preciosa informação.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Quando o sentam à mesa, ou diante da televisão, alcança-o uma necessidade de ocupar os braços que se tornaram flácidos e as mãos que se mantêm largas e rijas mas mais ossudas, e só aquieta o súbito e estranho apetite dando uma mão à “companha”. Noutros dias, basta sentar-se diante do mar, quedando-se a olhá-lo, a pensar não sabe bem em quê. Nessas alturas, é certo, não é acometido de quaisquer vontades. Limita-se a saborear o descanso que a vida agora lhe dá e que quase o faz duvidar do que ficou para trás. Não fossem as marcas que o seu corpo expõe, as carquilhas, os calos, as dores nos ossos, e seria capaz de questionar o seu próprio passado. Afinal, como poderia deixar no seu rastro um percurso ligado ao mar, se nem sequer sabia nadar. A sua relação com o mar, no entanto, era outra e havia sempre uma embarcação que os intermediava. Não obstante, havia ensinado a filha e a neta a nadar, segurando-as na barriga enquanto moviam, primeiro desajeitada e depois graciosamente, e pernas e braços, para se manterem à tona. Para elas, ele era o homem a quem o oceano não guardava segredos, pelo que mover-se no meio dele, não lhe podia ser estranho. E para todos os efeitos, nunca o foi, de facto, porque há coisas que não precisam de ser reveladas.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Afinal, é sobre estas e outras coisas como estas que dá consigo a pensar quando está sentado de frente para o mar, avistando a entrada do porto de abrigo por onde se movem as embarcações na partida e no regresso da faina. Essa paz só lhe é interrompida por um toque que primeiro estranhava e ao qual a pouco e pouco se habituou:&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Não, está nortada. Estão a “iscar” para saírem esta noite. O aviso é para as seis.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Há mar e mar, há ir e voltar&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;O “aviso” é a hora indicada pelo mestre para reunir a “companha” para a embarcação sair para o mar. Há uns anos, um “moço chamador” percorria as ruas da vila alertando os marítimos à hora indicada. Hoje os telemóveis asseguram essa função. Pouco depois, nas “lojas” recolhem-se os apetrechos necessários e acertam-se os últimos detalhes para mais uma faina. Se antes era destas partidas e regressos que a vila vivia como se de um respirar se tratasse, hoje, a pesca é um marco que revela uma identidade ainda muito presente mas que coexiste com outras actividades, conservada nas gentes mas também nos espaços, sobretudo nos que cheiram ao sal do mar, à brisa fresca, mas também a redes e ao peixe, como as “lojas de companha”. E o que virá, pressente-se apenas, mas sem se pensar muito nisso.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;NOTA: As histórias e personagens são ficcionadas.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;b&gt;Vanessa Pereira&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Publicado na revista &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;a href="http://www.ruimiguelcunha.com"&gt;Magazine Reportagem&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-1423710091334193671?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/1423710091334193671/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=1423710091334193671' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1423710091334193671'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1423710091334193671'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2010/01/e-em-terra-que-se-prepara-vida-no-mar.html' title='É em terra que se prepara a vida no mar'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/S2THQhk4TII/AAAAAAAAAJ8/X7Yn1mXCCcI/s72-c/MR+15+-+Janeiro+2010+%7C+Baixa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-7103809215985844305</id><published>2009-12-22T15:34:00.000-08:00</published><updated>2009-12-22T15:52:18.546-08:00</updated><title type='text'>O caminho descendente</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SzFbi6Pr4oI/AAAAAAAAAJ0/OoR4VGXy1Eg/s1600-h/K_rkjas.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 267px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SzFbi6Pr4oI/AAAAAAAAAJ0/OoR4VGXy1Eg/s400/K_rkjas.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5418212482012144258" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Naquele ano, a minha avó estava mais velha do que alguma vez pensei que lhe seria possível. Julgo que ela se terá apercebido dessa transformação mas nada fazia para contrariar aquilo que a ia esgotando, deixando-se antes levar pela força da gravidade que a sugava a olhos vistos. Percebi o primeiro sinal desse trajecto descendente quando deixou de usar o piso superior da casa, queixando-se de que lhe custava subir e descer escadas, que lhe confundia a visão estender roupa nas cordas das janelas superiores, que o ar em cima era demasiado fresco, que a água quente demorava mais tempo a chegar à torneira. E justificação atrás de desculpa, a pouco e pouco, acabou por abandonar os quartos e demais divisões superiores e concentrou os afazeres no piso térreo. O certo é que eu encontrava-a, a cada dia, mais próxima do solo. Quando falava comigo fixava-me os olhos nos joelhos segurando com esforço as pálpebras flácidas; quando caminhava, os ombros dobravam-se a apontar um ponto mais adiante no chão; os cabelos já não se seguravam num carrapito e caíam-lhe pela cara; os cantos da boca repuxavam-lhe a pele murcha em direcção ao queixo, e os pés pareciam crescer-lhe, espalmando-se contra o chão, magoando-lhe o andar. Tudo nela parecia querer estar mais perto da terra do que até ali e mesmo a voz lhe saía mais profunda e exalava um odor a raízes acabadas de colher quando me sentou ao colo para me dizer, com um tom quase solene, que me permitia expressar um desejo, na certeza, porém, de que ela o realizaria. Pedi, como fazia sempre, sem grande ponderação ou hesitação, a guloseima que sabia que encontraria na antiga lata de chás sobre o guarda-fato onde eram guardadas outras coisas importantes como contas para pagar, receitas de medicamentos, números de telefone soltos e outra correspondência antiga. Naquele ano, porém, a minha avó escondeu a guloseima numa gaveta da cómoda em baixo e, para que a descobrisse, teve de me indicar a temperatura consoante a proximidade a que as minhas mãos estavam da surpresa enquanto eu corria pela divisão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;- Frio, muito frio, morno, morníssimo, muito quente, a ferver.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Induzido pelas palavras dela, quase senti nas pontas dos dedos o puxador quente daquela gaveta quando a abri. Mas a satisfação do desejo que ela me concedia, no entanto, não conseguiu aplacar a inquietação que me contraiu, naquele instante, as comissuras dos lábios, por ter alterado o esconderijo que partilhávamos desde que me lembro dos primeiros natais lá em casa, quando o avô ainda era como o via nas fotografias dos álbuns. Para ela tudo aquilo lhe parecia normal e era com naturalidade que aceitava e se resignava ao passar dos dias, quando para mim, os dias demoravam-se e apenas ainda me marcava o dobrar dos anos. Apeteceu-me já não sair dali e ajudá-la a contar o tempo como eu.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Naquele ano, a minha avó estava também mais calada do que alguma vez pensei que lhe seria possível. A pouco e pouco, o sossego ocupou a casa e quando eu próprio emudecia de cansaço, percebia que não havia ruídos, apenas silêncios, umas vezes mais prolongados que outras. Aprendi, naqueles dias, a respeitar essa quietude e a falar apenas quando me parecia importante partilhar alguma coisa. Mas mesmo as conversas dela cheiravam a pretéritos: perdia-se a recordar histórias perfeitas que eu já tinha escutado, momentos imperfeitos há muito ultrapassados, conversas mais que perfeitas perdidas no calendário da memória.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Foi, precisamente, naquele ano, de um momento para o outro, que a minha avó se transformou, definitivamente, em silêncio e em ausência, chegando ao fim daquele caminho descendente que a vinha extraindo a nós. De uma presença já ténue, a minha avó tornou-se numa ausência demasiado ausente, como se o facto de não estar fosse mais presença. E isso, de alguma forma, pacificou-me e ainda hoje me pacifica.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Há dias em que me recordo muito dela, mas sobretudo dos dias antes daquele ano. Hoje, apareceu-me assim à memória. Talvez porque esta tarde, depois de conseguirem que o meu neto largasse a bicicleta e a consola, tive de o ajudar, guiando-o no jogo do quente-e-frio, para encontrar a tal guloseima que já não consegui guardar no esconderijo habitual.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; min-height: 14px; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;b&gt;Vanessa Pereira&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;(Publicado no 'Jornal de Sesimbra' de Dezembro)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-7103809215985844305?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/7103809215985844305/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=7103809215985844305' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7103809215985844305'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7103809215985844305'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/12/o-caminho-descendente.html' title='O caminho descendente'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SzFbi6Pr4oI/AAAAAAAAAJ0/OoR4VGXy1Eg/s72-c/K_rkjas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-5988392288392465734</id><published>2009-11-26T16:15:00.000-08:00</published><updated>2009-11-26T16:21:01.812-08:00</updated><title type='text'>Rubro jardim</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sw8bLqwvThI/AAAAAAAAAJo/npT5-Smssks/s1600/IMG_1876.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sw8bLqwvThI/AAAAAAAAAJo/npT5-Smssks/s400/IMG_1876.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5408571564766481938" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="text-align: left;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="font-family:Georgia, serif;font-size:130%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 16px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="font-family:Helvetica, serif;font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 12px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Vilar da Flor é uma terreola que amiúde é notícia nos jornais, como qualquer outra pequena terra por esse país, onde há gente, onde há festas, onde há histórias e onde também deverá haver abóboras gigantes. Mas Vilar da Flor é, sobretudo, referida quando alguém se lembra de que o seu solo tem a peculariedade de só brotar flores de uma determinada cor. O jornal onde a descobri não revelava a aparência ou tonalidade das ditas, mas essa omissão da informação, aguçou-me mais a curiosidade do que me desagradou o facto de o jornalista se demitir da sua função com o claro objectivo de causar suspense investindo-se do papel de mau agente de viagens.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Foi mais ou menos assim que surgiu a ideia, à qual se juntou a oportunidade. Acabei por visitar a curiosa e pacata terra há uns dias, para ocupar um determinado fim-de-semana que se anunciava solarengo e merecia um programa condizente, que incluísse um passeio algures longe dos espaços e percursos de todos os dias.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Foi numa dobra desbotada do mapa que a descobri. “da Flor” era já ilegível, mas permanecia uma sumida impressão do “Vilar” para atestar a sua existência, nem longe nem perto, mas a uma distância aceitável para a condução ser previsivelmente agradável. Vilar da Flor não fica na passagem para lado algum, fica apenas numa ponta onde só chega quem lá quer mesmo ir, como eu. E, percebi depois, como muitos outros naquele dia. A pouco mais de meio do caminho, percebi que afinal eu não era o único; muita gente seguia no mesmo sentido, que conduzia ao mesmo destino, e a condução rapidamente passou do previsivelmente agradável ao realmente maçador, sobretudo porque já tinha ultrapassado o limiar da possibilidade de desistência da visita ou de inversão de marcha.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;A chegada ao destino teria, por isso, sabido a um demorado suspiro de alívio, não fosse o caso de não ter conseguido, como esperava, deleitar desde logo o meu olhar em belos campos e jardins de onde brotavam flores de uma única cor, pelas quais já salivava. Subi e desci ruelas estreitas, empedradas e emparedadas por prédios e casas. Atrás de mim e à minha frente, pequenos grupos de pessoas faziam o mesmo, não sei se com o mesmo objectivo, mas, certamente, com a mesma decepção patente nos rostos e que lhes pesava nas pernas que se arrastavam, sem nada de realmente interessante que as fizesse chegar ao fim de cada artéria, porque todas pareciam iguais. Não havia indicações, nem setas informativas, nem ninguém com quem me cruzei na rua sabia informar onde encontrar um campo, um jardim, ou um mero canteiro que fosse. Julgo que lhes basta saber que vivem numa terra que tem algo de curioso e, por outro lado, já estão também tão habituados e conformados com a existência dessa característica e a consequente curiosidade alheia, que nem lhe dão qualquer valor, importância ou reconhecimento.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Quando estava prestes a desistir, e porque é sempre nestas alturas que as histórias desembrulham uma continuação, atravessou-se-me à frente um jardim. Sim, um jardim com dimensão suficiente para ser chamado como tal, recheado de flores de todos os tamanhos e feitios mas... todas rubras, num tom vivo e brilhante como a seda. Admirado aproximei-me mais e, apesar dos meus parcos conhecimentos florais, consegui reconhecer lírios, rosas, cravos, jarros, orquídeas, gerberas, margaridas, e identifiquei inúmeras outras formas a que não consegui associar um nome, todas vermelhas, compondo um monótono ramalhete de grandes dimensões. Sentei-me a olhar para o cenário rubro que de tão inequívoco e unívoco se tornava entediante, como um coro que canta em unissono o mesmo tema, sem contraltos, tenores, sopranos ou barítonos. Era como se, privado do olfacto, provasse comida sem sal.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Na verdade, no entanto, não havia grande ciência ou segredo sob o solo de onde brotavam as flores. A explicação, buscada depois em livros, surgiu-me em rodapé, como um mero enquadramento para perceber o porquê das coisas que realmente importam em Vila da Flor. Assim, alguém, um dia, teve, simplesmente, a infeliz ideia de plantar apenas flores rubras num jardim. A pouco e pouco, esse jardineiro percebeu que a natureza levava a melhor assumindo a tarefa de compôr ramalhetes e criar novos canteiros à revelia, onde surgiam novas plantas brancas, amarelas, laranja, mas também vermelhas, de várias tonalidades. Não conseguindo travar esse pulsar de vida e de colorido, o homem começou por regar as plantas com água previamente colorida. Mais tarde, e porque não conseguia que as pétalas agarrassem o tom certo que desejava, optou pelo pincel e pela tinta. Pouco depois percebeu que sem qualquer esforço ou artifício, todas as flores de Vilar da Flor, conformadas, se tornaram encarnadas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Publicado no 'Jornal de Sesimbra' de Novembro&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-5988392288392465734?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/5988392288392465734/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=5988392288392465734' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/5988392288392465734'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/5988392288392465734'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/11/rubro-jardim.html' title='Rubro jardim'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sw8bLqwvThI/AAAAAAAAAJo/npT5-Smssks/s72-c/IMG_1876.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-9114210000558876858</id><published>2009-11-11T09:42:00.000-08:00</published><updated>2009-11-11T09:54:26.861-08:00</updated><title type='text'>Vietname: História, Cultura e Misticismo</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Svr5G6a7LgI/AAAAAAAAAJg/76yzmuEAOHk/s1600-h/Capa+MR13.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 346px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Svr5G6a7LgI/AAAAAAAAAJg/76yzmuEAOHk/s400/Capa+MR13.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402904600141049346" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Até há poucos anos, pensava-se que apenas dois exemplares estavam preservados, em cativeiro, em dois parques da China, mas, apesar de dada como extinta, há registos, noticiados em 2008, de que a tartaruga &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;swinhoei&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;, afinal, ainda sobrevive num lago a oeste da capital do Vietname, Hanói. Preserva-se assim a descendência de um dos protagonistas principais duma conhecida lenda vietnamita, que remonta ao século XV, segundo a qual o imperador Le Loi resistiu ao invasor Ming da China, empunhando uma espada mágica. Segundo o conto, Le Loi, já vitorioso, passeou-se depois de barco por um lago perto de Hanói quando uma tartaruga gigante lhe exigiu que devolvesse a espada ao Rei-Dragão. Assim que o imperador cedeu ao pedido, o animal mergulhou nas águas daquele que se viria a chamar &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Hon Hoan Kiem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;, ou ‘Lago da Espada Retornada’, para aí a conservar até uma eventual nova invasão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;A descoberta da existência desta espécie rara de tartaruga de carapaça mole, que pode pesar até 136 quilos, ter quase um metro de largura e viver mais de cem anos, vem assim pacificar os vietnamitas que ao longo da sua história conheceram diversos capítulos de tentativas de invasão, domínio e intervenções militares.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Esta descoberta permite não só manter viva e presente uma lenda, como dá vida, literalmente, a um dos símbolos da independência do Vietname.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Durante centenas de anos, o território que é hoje o actual Vietname foi dominado pelas sucessivas dinastias do império chinês, tendo alcançado a independência em 938 quando estabeleceu a dinastia Ngô. O período dinástico terminou já no século XIX quando o país foi colonizado pela França, que, derrotada numa primeira fase da Segunda Guerra Mundial, acabou por permitir a ocupação do Vietname pelo Japão. A França tentou ainda restabelecer o domínio mas, após 8 anos de luta armada, saiu derrotada. Foi na Conferência de Genebra, cujo objectivo era, precisamente, restaurar a paz na antiga Indochina e Coreia, que o Vietname foi dividido em dois países: o Vietname do Norte e o Vietname do Sul.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Durante o período conhecido como ‘Guerra Fria’, marcado por disputas estratégicas e conflitos indirectos entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União Soviética, o comunista Vietname do Norte recebeu o apoio da China e da União Soviética, enquanto que o sul, anti-comunista, teve a seu lado os EUA.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 10px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Goodbye, my darling, Hello Vietnam  |  A hill to take, a battle to be won  |  Kiss me goodbye and write me while I'm gone  |  Goodbye, my sweetheart, Hello Vietnam.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 10px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;A ship is waiting for us at the dock  |  America has trouble to be stopped  |  We must stop Communism in that land  |  Or freedom will start sliping thru our hands.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 10px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Johnny Wright, ‘Hello Vietnam’&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Em Março de 1973, as tropas americanas seriam obrigadas a abandonar o território após a tomada da cidade de Saigão pelos &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;vietcongs&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;, expressão que significa “comunista vietnamita”, ou seja, os combatentes da Frente Nacional para a Libertação do Vietname, referidos pelos soldados americanos como &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;“victor charlie”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;, ou simplesmente &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;“vc”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;. E em Julho de 1976 surgia a República Socialista do Vietname.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Este confronto em solo vietnamita resultou numa guerra sangrenta que deixou marcas indeléveis nas suas gentes, aí como nos EUA, e no território.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 10px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;I had a buddy at the Khe Sahn  |  Fighting off the Viet Cong  |  They’re still there, he’s all gone  |  He had a little girl in Saigon  |  I got a picture of him in her arms&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 10px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Bruce Springsteen, ‘Born in the USA’&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;As consequências deste conflito foram gravíssimas: as instalações industriais, as vias de comunicação e grandes extensões de floresta foram destruídas, ao mesmo tempo que milhares de pessoas, mão-de-obra fundamental às actividades económicas (indústria, agricultura e pesca), foram encaminhadas para as operações militares. Para a história fica a frieza dos números que contabilizam as vítimas directas desta guerra: aproximadamente três a quatro milhões de vietnamitas, dos dois lados, além de outros dois milhões de homens oriundos do Cambodja e do Laos, arrastados para a guerra com a propagação do conflito, e cerca de 50 mil soldados americanos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;A enorme cobertura dos meios de comunicação social, dividiu a sociedade norte-americana gerando uma forte contestação, resultando mais tarde na retirada das tropas do país, em 1973.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 10px/normal Helvetica; min-height: 12px; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 10px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Oh God if you can hear my prayer now, please help my brothers over in Vietnam  |  The poor boys fightin’, killin’ and hidin’ all in holes  |  Maybe killin’ their own brother, they do not know  |  Mister President you always cry about peace  |  But you must clean up your house before you leave&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 10px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;JB Lenoir, ‘Vietnam Blues’&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 10px/normal Helvetica; min-height: 12px; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;As marcas da guerra são hoje, no entanto, atracções turísticas. E a sua presença é tão marcante que pulsa, como se de um museu vivo se tratasse.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Apesar do seu conturbado passado recente, o Vietname foi apresentado pelo “New York Times”, em Janeiro de 2003, como um país “pobre mas ordenado”, “o paraíso seguro dos turistas”. Dividido entre a tradição e a modernidade, o país revela cenários, estilos e formas de estar das mais fascinantes de toda a Ásia, balanceando entre o novo e o antigo, o lento e o frenético, o exótico e o comum.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Se, por um lado, de geração em geração, os vietnamitas preservaram a tradição de “recordar a fonte enquanto se bebe a água”, por outro, dois terços da população tem menos de 30 anos e revela-se ansiosa por se relacionar com o mundo exterior. Segundo o jornalista Peter Jon&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font: 8.0px Helvetica; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;sup&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;1&lt;/span&gt;&lt;/sup&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;“o país continua a ser nominalmente comunista e os seus líderes continuam a ser socialmente conservadores, mas os jovens vietnamitas estão entusiasticamente a absorver e a reformular a cultura global”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Presentemente, existem 54 etnias diferentes no Vietname, que têm na origem duas culturas ancestrais: a chinesa e a indiana. A diversidade conhece, no entanto, a unidade, na medida em que a população acabou por partilhar tarefas e unir-se contra os invasores estrangeiros, na defesa do território nacional, visando a independência e a auto-determinação. Não obstante, cada grupo étnico desenvolveu a sua língua e cultura próprias e é desta riqueza que se faz a cultura vietnamita.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;A preservação do passado surge ainda expressa no culto prestado aos antepassados. Os vietnamitas acreditam que a alma de um falecido, mesmo que desaparecido há muitas gerações, persiste junto dos seus descendentes na terra. Mortos e vivos mantêm uma comunhão espiritual, pelo que se crê que a forma como cada um se sente é partilhada pelos seus entes queridos falecidos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;A linha que separa vida e morte é ténue num país que se habituou a viver, também, entre as fronteiras terrestres com a China, o Laos e o Cambodja, por um lado, e o mar, por outro. Com um formato longo e estreito e uma costa de 3260 km, uma rede hidrográfica muito rica e o clima quente e chuvoso das monções, os cerca de 100 dias de chuva por ano e os 80 por cento de humidade, a água é uma constante na paisagem natural do país. O Vietname tem dois deltas importantes: o rio Vermelho, ao norte, que corta a capital, Hanói; e o rio Mekong, a sul, que corta a maior cidade do país, Ho Chi Minh (antiga Saigão). Este último é o 13.º rio mais longo do mundo, com 1535 km de comprimento, nascendo no planalto do Tibete, passando pela China, Mianmar, Tailândia, Laos e Cambodja, e o 10.º mais volumoso.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Na costa, as salinas são uma visão constante, enquanto o arroz é o principal produto. O Vietname é, actualmente, o segundo maior exportador de arroz do mundo. Só este ano, já vendeu a outros países 5 milhões de toneladas deste cereal. Mas nem sempre assim foi. Se, no ano passado, produziu 39 toneladas, há 20 anos, o Vietname tinha de importar arroz e massa para consumir.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Turisticamente, a proximidade em relação ao oceano tem bafejado o país. A baía mais conhecida do Vietname é a Halong Bai, recentemente nomeada Património Mundial pela UNESCO e motivo de orgulho para os vietnamitas. Os seus principais atractivos são a água calma e a paisagem pontuada por cerca de três mil ilhas de pedra calcária. A sua existência está também relacionada com um mito local, segundo o qual, há muito tempo, quando os antepassados lutavam contra os invasores estrangeiros do norte, os deuses enviaram uma família de dragões para ajudar os homens a defenderem a sua terra. Esta família de dragões desceu sobre aquilo que é hoje a baía de Halong, cuspindo jóias de jade que, quando atingiram a água, se transformaram em ilhas e ilhéus, pontuando o mar e formando uma fortaleza contra os invasores. Os habitantes conseguiram assim defender a terra que é hoje o Vietname e a família de dragões ficou tão encantada por esta região, pela tranquilidade das suas águas e pela hospitalidade das suas gentes, que decidiu permanecer por ali.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Dragões e deuses são figuras que povoam a história e os mitos vietnamitas, sendo também garantia de defesa da terra. Conta a lenda que os antepassados do povo vietnamita foram cem crianças, nascidas, precisamente, da união entre um rei, representando um dragão, e a sua noiva, representando uma deusa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Ontem, como hoje, o Vietname é capaz de encantar outros povos e outras culturas. Foi no século XVI, corria o ano de 1516, que os primeiros navegadores europeus, portugueses claro, chegaram a Faifo, actual Hanói, onde criaram um dos mais importantes portos do sudoeste da Ásia e rapidamente estabeleceram contactos comerciais e de missionação do país.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Fernão Mendes Pinto, empurrado pelo destino e pelo desejo de aventura, passou 21 anos da sua vida no Oriente. O livro ‘Peregrinação’, a que se dedicou quando regressou a Portugal, em 1557, depois de passar pela Índia, China, Tailândia, Myanmar, Tailândia, Vietname, entre muitos outros, foi uma das primeiras referências globais ao extremo- oriente, traduzido para castelhano, francês, alemão, flamengo e inglês. A tença que recompensaria os serviços prestados à coroa no Oriente só chegou em 1583, ano em que morreu. Mas a presença de portugueses na Ásia também suscitou lá muita curiosidade. Intrigado, “El-Rei dos Tártaros questionou-se sobre as razões que moviam os lusos e concluiu: conquistar esta gente terra tão alongada da sua pátria dá claramente a entender que deve de haver entre eles muita cobiça e pouca justiça...”. Provavelmente, porque os olhos e a avidez de conhecimento ambicionam o belo e porque seria, de facto, uma injustiça não poder conhecê-lo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Bibliografia:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; color:#000099;"&gt;&lt;span style="text-decoration: underline ; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;a href="http://ecosfera.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1326153"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;http://ecosfera.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1326153&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; color:#000099;"&gt;&lt;span style="text-decoration: underline ; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vietname"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Vietname&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; color:#000099;"&gt;&lt;span style="font: 8.0px Helvetica; letter-spacing: 0.0px color:#000000;"&gt;&lt;sup&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;1 &lt;/span&gt;&lt;/sup&gt;&lt;a href="http://www.rotas.xl.pt/"&gt;&lt;span style="font: 12.0px Helvetica; text-decoration: underline ; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;www.rotas.xl.pt/0405/500.shtml&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; color:#000099;"&gt;&lt;span style="text-decoration: underline ; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;a href="http://www.vietnamtourism.com/"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;www.vietnamtourism.com&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; color:#000099;"&gt;&lt;span style="text-decoration: underline ; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;a href="http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=fb681c85-cf55-4bbb-b3d7-7b96b7a8b642"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=fb681c85-cf55-4bbb-b3d7-7b96b7a8b642&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; color:#000099;"&gt;&lt;span style="text-decoration: underline ; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;a href="http://www.vietscape.com/travel/halong"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;www.vietscape.com/travel/halong&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; color:#000099;"&gt;&lt;span style="text-decoration: underline ; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;a href="http://visaoviagens.edimpresa.viatecla.pt/"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;http://visaoviagens.edimpresa.viatecla.pt&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;/&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 18.0px; font: 12.0px Helvetica; color:#000099;"&gt;&lt;span style="text-decoration: underline ; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;a href="http://www.rotas.xl.pt/0204/300.shtml"&gt;www.rotas.xl.pt/0204/300.shtml&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p  style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 18.0px; font: 12.0px Helvetica; color:#000099;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" text-decoration: underline;font-size:small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p  style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 18.0px; font: 12.0px Helvetica; color:#000099;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="color:#000000;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Publicado na revista &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.ruimiguelcunha.com/"&gt;Magazine Reportagem&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 18.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-9114210000558876858?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/9114210000558876858/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=9114210000558876858' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/9114210000558876858'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/9114210000558876858'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/11/vietname-historia-cultura-e-misticismo.html' title='Vietname: História, Cultura e Misticismo'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Svr5G6a7LgI/AAAAAAAAAJg/76yzmuEAOHk/s72-c/Capa+MR13.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-4389182000673229739</id><published>2009-10-23T04:50:00.000-07:00</published><updated>2009-10-23T11:00:37.593-07:00</updated><title type='text'>Quando o ganso selvagem saltita no chão como um pardal</title><content type='html'>&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 263px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SuGZCtFhwCI/AAAAAAAAAJY/VZiN7T1Q1EE/s400/o+rio+e+o+seu+segredo.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5395762100308131874" /&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;“Em 1964, tudo muda.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Regressamos das férias de Inverno. Passámo-las, desta vez, numa siderurgia, entre os operários, e essa estada reforçou o nosso sentimento de servir uma má causa com a música. Os debates sobre o nosso papel na sociedade recomeçaram em todo o seu fulgor. Sim, a música clássica ocidental está reservada a uma elite. Aliás, quem gosta dela verdadeiramente, entre os camponeses, os operários e os soldados? Uma ínfima minoria. Sim, temos de tocar música, canções populares, aquelas que o povo aprecia e compreende. Será assim que contribuiremos para servir o ideal revolucionário. As discussões são inflamadas. Tomamos a palavra uns atrás dos outros:&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- A música clássica é burguesa: não foi escrita para o povo!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Beethoven era um egoísta.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Bach escreveu durante toda a vida para a igreja. Acreditam na história de Maria, a mãe de Jesus Cristo? Não? Pois bem, apesar disso, escreveu obras sobre ela!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Chopin não passa de um sentimental.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- E Debussy, de um idealista.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;(...) Alguns meses mais tarde, estamos todos convencidos: é preciso tocar, daqui em diante, música autenticamente proletária, e ir tocar nos campos, nas fábricas e nos quartéis. Vou ainda mais longe que os outros: quero mudar de vida, deixar de tocar piano e tornar-me soldado - Ser uma verdadeira revolucionária!”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; min-height: 14px; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Zhu Xiao-Mei é uma chinesa de Xangai (migrada para Pequim com a família) que relata, no livro ‘O Rio e o Seu Segredo’, a sua vida, apesar do conselho do pai que considerava vão falar do passado. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;“Pensa nos gansos selvagens. Voam alto no céu e cobrem distâncias imensas, sem nunca porem um pé no chão, sem deixarem qualquer marca no solo. São eles que temos de tomar como exemplo, e não os pardais, que saltitam no chão. Os pardais nunca compreenderão o sonho dos gansos selvagens”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;, dizia-lhe.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Não obstante, Xiao-Mei deixa impressas as histórias duma vida repleta de mudanças e desencontros, onde não há despedidas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Durante a revolução cultural, o facto de ser oriunda duma família de artistas, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;“burguesa”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;, ou seja, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;“gente de más origens”, &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;leva-a a um campo de reeducação pelo trabalho nas fronteiras da Mongólia Interior, em Zhangjiako, para onde rumam inúmeros outros estudantes de artes. Estima-se que 17 milhões de chineses terão sido assim exilados. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Determinada em ser uma boa revolucionária, Xiao-Mei empenha-se nas sessões de denúncia e auto-crítica, e no estudo do livro vermelho de Mao. Há-de ser depois enviada para Xangai, onde nasceu, com o objectivo de averiguar sobre a possibilidade do seu pai ser um espião. Ela própria nunca teria a certeza. Anos mais tarde, já como pianista conceituada apesar do tardio início de carreira, Xiao-Mei  (depois de passar pelos EUA e ter optado pela França) &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;regressa a Pequim e acompanha, nessa altura, o pai até à sepultura de Lao Xue, seu amigo e presidente da universidade onde ele trabalhou durante muito tempo. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;“- Também eu quero repousar aqui, um dia”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;, pediu-lhe o pai. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt; “Lao Xue foi a única pessoa que confiou em mim durante a Revolução Cultural.”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Nessa viagem a Xangai, Xiao-Mei, contrariamente às instruções, arrisca-se a visitar a avó que vive sozinha após ter sido expulsa de Pequim onde viviam todos juntos. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;“Quando me preparo para partir, leio a decepção nos olhos dela. A minha avó, que dizia que conhecia imensa gente em Xangai, está muito só, manifestamente. Frequentar uma proscrita é um risco para os seus amigos.”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt; Apesar do pedido, Xiao-Mei não fica um pouco mais, nem regressa a casa da avó, com receio de que a encontrem. Nunca mais a voltará a ver.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Em 2001, a mãe visita-a em Paris, quando a doença de Alzheimer está já num estado avançado. Num passeio, Xiao-Mei passa pelo Théatre de la Ville onde toca. Instantes depois, a mãe pergunta-lhe, confusa: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;“mas o que faz Xiao-Mei na vida?”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;É uma história de desencontro e reencontro de e pela música, em que Xiao-Mei partilha com um piano o papel principal.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=2X5EQZHCiIk"&gt;&lt;b&gt;Variations Goldberg de Bach par Zhu Xiao-Mei - Ouvir aqui&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:Arial, sans-serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="white-space: pre;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-4389182000673229739?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/4389182000673229739/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=4389182000673229739' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4389182000673229739'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4389182000673229739'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/10/em-1964-tudo-muda.html' title='Quando o ganso selvagem saltita no chão como um pardal'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SuGZCtFhwCI/AAAAAAAAAJY/VZiN7T1Q1EE/s72-c/o+rio+e+o+seu+segredo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-5216573057862485692</id><published>2009-10-21T07:53:00.000-07:00</published><updated>2009-10-21T08:04:22.431-07:00</updated><title type='text'>Géneros</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/St8i2331t1I/AAAAAAAAAJQ/olMWVGyvPzc/s1600-h/Figure+in+Fog.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 254px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/St8i2331t1I/AAAAAAAAAJQ/olMWVGyvPzc/s400/Figure+in+Fog.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5395069204719581010" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;A minha mãe contava-me que, no dia em que nasci, o nevoeiro era tão espesso, que se passava pelas frinchas das portas e janelas do hospital, onde havia chegado dois dias antes queixando-se de aperto no estômago e de um peso na bexiga que era eu. O ar branco e pesado da rua, envolvia todos na abafada sala do parto e as dores da minha chegada confundiam-se na visão embaciada com que a minha mãe assistia a tudo aquilo. Foi, por isso, como se vivesse um sonho, que ouviu que só depois daquela névoa levantar poderiam distinguir-me o sexo, para que eu pudesse ter um nome. O nevoeiro esvaiu-se, mas as lembranças e as ideias na cabeça da minha mãe permaneceram para sempre nubladas, como se a bacidez daquele dia, que lhe entrou em golfadas pela boca quando gritava de dor e pelo nariz quando respirou fundo como lhe ordenavam, se tivesse instalado nela em permanência, ocupando o espaço que eu deixara vago depois de nascer.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; min-height: 14px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Apenas uns dias mais tarde, quando a senhora do registo a questionou sobre o meu sexo e nome, a minha mãe percebeu que não voltara a pensar no assunto. Discretamente, encostou-se comigo a um canto, puxou-me as fraldas húmidas para me examinar, mas, toldada pelo odor a urina fresca, só descobriu a minha pele clara e, uma vez mais, turva, que tornava indistinto o meu género. Sobre aquele sítio que devia definir-me, viu ela um quadrado perfeito embaciado, como se de uma cena censurada de um filme se tratasse. Apesar de naturalmente conhecedora das diferenças físicas do género, a minha imagem não se lhe tornava nítida nem por nada. Perante a impaciência e exasperação da funcionária que assistia à cena, a minha mãe decidiu que, numa família de mulheres, eu deveria ser homem. E assim foi: “sexo masculino, nome Francisco”.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Atrás desta decisão, surgiram as roupinhas azuis, os carrinhos por brinquedo e o corte de cabelo curto. Nas brincadeiras de rua, como na escola, juntei-me ao grupo das crianças que mais se assemelhavam a esta descrição, da mesma forma que fazia com os exercícios que a professora mandava para casa, em que tinha de circundar todos os objectos que se relacionavam, deixando de fora os que destoavam. Eu estava dentro do círculo a que pertencia e a minha mãe satisfeita com a sua opção. Aprendi, a pouco e pouco, a decorar algumas coordenadas que me guiavam dentro da circunferência, com a mesma naturalidade com que, quando ia à casa de banho, procurava na porta o boneco com duas perninhas e não cortadas por uma saia.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;A curiosidade levou-me a procurar descobrir-me. Escolhi um dia de sol radioso, para não correr o risco de o nevoeiro me entrar pelos olhos dentro ou por qualquer outro orifício apanhado desprevenido, e o balneário da escola, bem longe de casa, para a minha mãe não perceber, nem se preocupar com o que me intrigava. Mas o momento foi mais desconcertante que revelador. Quanto mais me debruçava sobre o meu próprio corpo, quanto mais me encaracolava e me espreitava, menos tudo se tornava evidente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Apenas em casa, onde a minha mãe era mãe e pai, e onde eu era apenas “bébé” ou “criança”, me era dada liberdade de ser tudo o que me apetecesse e a natureza permitisse. Comecei a juntar num pequeno caderno palavras como essas, sem género, ou melhor, que se aplicavam aos dois géneros, que descobria no dicionário, e pelas quais desenvolvi uma simpatia particular, procurando utilizá-las preponderantemente no meu dia a dia - como “aborígene”, “abominável”, “abjurante” -, ao mesmo tempo que comecei a abdicar dos artigos “a” e “o” e a omiti-los sempre que possível. Da mesma forma que, quando me perguntavam o que queria ser quando crescesse, respondia “acordeonista” ou “acrobata”, porque eram profissões sem género que não me obrigavam a definir-me nem a encaixar-me apenas num único círculo. Mas havia outra razão, não menos relevante. Segundo a minha mãe, o meu pai, que nunca conheci, era um acordeonista reconhecido, mais por amor que por suor, sem poiso certo ou orquestra fixa, incapaz de se deixar enredar pela constância que todos queriam impôr à existência fluída das coisas. Eu nasci dum encontro casual entre os dois. Conceberam-me num final de tarde. Quando o dia acaba e a noite começa, há sempre um instante em que sol e lua se encontram, num equilíbrio perfeito, antes mesmo de a noite entrar no dia ou o dia entrar na noite, e a minha natureza decorre, precisamente, da fugacidade e improbabilidade desse encontro.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; min-height: 14px; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;Vanessa Pereira&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;b&gt;Publicado no Jornal de Sesimbra (Outubro, 2009)&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-5216573057862485692?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/5216573057862485692/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=5216573057862485692' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/5216573057862485692'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/5216573057862485692'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/10/generos.html' title='Géneros'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/St8i2331t1I/AAAAAAAAAJQ/olMWVGyvPzc/s72-c/Figure+in+Fog.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-3488456740711858243</id><published>2009-09-14T08:26:00.000-07:00</published><updated>2009-09-14T08:29:53.797-07:00</updated><title type='text'>Lido e registado</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Em 1697 Gottfried Leibniz declarava: 'É melhor não nos preocuparmos tanto em levar coisas europeias aos chineses mas, acima de tudo, em trazer para a Europa as mais importantes ideias chinesas, dado que os chineses são hostis à guerra e, uma vez que estamos a deslizar para uma sociedade cada vez mais corrupta, pode ser oportuno pedir aos chineses que nos enviem missionários...'"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;PISU, Renata,&lt;i&gt; China, a Escalada do Dragão&lt;/i&gt;, Quidnovi&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-3488456740711858243?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/3488456740711858243/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=3488456740711858243' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3488456740711858243'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3488456740711858243'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/09/lido-e-registado.html' title='Lido e registado'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-6535860145577745761</id><published>2009-09-10T10:10:00.000-07:00</published><updated>2009-09-10T10:22:39.030-07:00</updated><title type='text'>Um mundo sem toque</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sqk1umkDVdI/AAAAAAAAAJI/iiqrygaYw3M/s1600-h/100_2500+hand+in+glove.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sqk1umkDVdI/AAAAAAAAAJI/iiqrygaYw3M/s400/100_2500+hand+in+glove.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5379890304612783570" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="text-align: left;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Nasceu num país onde ninguém se tocava. Mas essa ausência de contacto físico, que se reduzia ao indispensável para assegurar a reprodução e a continuidade da espécie, nunca tinha por ninguém sido percebida ou pesada. Como simplesmente não existia, nunca tinham falado ou escrito sobre a inexistência do toque. Por isso mesmo, ele, como todos os demais, nunca sentiu necessidade de se encostar a um ombro para adormecer, sentindo a sua orelha esmagada contra a articulação dura do outro. Da mesma forma, não sentiu necessidade de ser calorosamente cumprimentado por um amigo reencontrado dezenas de anos após a partilha duma carteira de escola e de muitas cumplicidades. Não sentiu vontade de ser abraçado enquanto chorava uma perda. Não foi esbofeteado quando insultou, nem deu um estalo a quem o desorientou com impropérios e mentiras. Naquele dia, quando pegou na mochila para partir, ninguém lhe agarrou no braço com força implorando-lhe que ficasse. Nem mesmo aquele que caminhava a seu lado durante longas horas, mas sem entrelaçar os dedos nos seus.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; min-height: 14px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Dias antes, após uma dessas caminhadas, trocaram abundantes palavras, cheias do sentido e da força que aquela forma distante de estar e de ser exigiam para conseguir manifestar sentimentos fortes. Depois partilharam a cama. Descobriram-se pelo cheiro, olharam-se de perto, escutaram-se, mas em momento algum se tocaram ou se saborearam. Quando se sentiram preparados, o outro abriu a gaveta onde guardava os preservativos e a noite fechou-se sobre eles, repetindo gestos que já tinham ensaiado noutros corpos, com outros cheiros, que diziam coisas iguais, quando não permaneciam calados. Repetiram a ginástica que reduzia ao máximo a proximidade e o contacto possível num acto sexual que se pretendia mais asséptico que íntimo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Aliás, “íntimo”, “invasivo”, “toque”, “tacto”, “âmago”, “entranhável”, “beijo”, “cumprimento” são palavras ausentes dos dicionários e prontuários deste país, onde as traduções de obras de outras línguas são impossíveis por conterem, inevitavelmente, conceitos e descreverem momentos e cenas incompreensíveis e inimagináveis para toda esta população.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Esta forma de estar é incentivada porque apenas assim, dizem os políticos e governantes, é possível todas as pessoas serem tratadas de igual forma, que é uma das bases da democracia. A namorada, como o chefe, o subordinado, o vizinho ou o conhecido são cumprimentados com um leve aceno de cabeça e um breve sorriso. O funcionário que melhor se comporta e o menos produtivo não são diferenciados porque não há palmadinhas nas costas. A única coisa que distingue os tratamentos são as palavras e os actos. Uma palavra de incentivo ou apreço e uma admoestação têm efeitos diferentes. Uma promoção e uma despromoção têm efeitos diferentes. Mas em nenhum dos casos são reforçados por impressões ou disfemismos físicos. E isso faz toda a diferença numa democracia sã. Da mesma forma, os políticos não abraçam senhoras em feiras de rua, nem seguram criancinhas nos braços enquanto lhes molham as bochechas, em plena campanha eleitoral. Não promovem comícios porque ninguém os pegaria ao colo nem nenhum apoiante quereria sentir-se demasiado próximo de outra pessoa entre a assistência ao ponto de lhe tocar com o cotovelo. Não prometem estádios aos eleitores porque ninguém sabe o que é futebol, ou rugby, ou mesmo sumo ou karaté, porque são desconhecidas modalidades que exijam ou impliquem o contacto. Os árbitros servem tão só para assegurar a correcta aplicação das regras do jogo e verificar se a bola está dentro ou fora de campo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Neste país, onde não escolheu nascer, mas onde tinha decidido viver, estudou letras porque o impressionavam por demais os livros, repletos de prosas e poemas, onde os autores expunham com paixão e arrebatamento sentimentos que lhe deixavam na boca o sabor doce do amado, deixavam-lhe a pele como a de uma galinha como se um sopro o percorresse com as pontas dos dedos, e era capaz de sentir como se fosse seu o calor da alegria, ou o frio do medo de outrém. Uma noite, inebriado por palavras aparentemente inocentes mas que juntas ganhavam uma forma tão forte que eram capazes de lhe tocar, efectivamente, e despertar nele vontades irreprimíveis, deitou-se na cama despido e tocou-se. Como nunca se tinha tocado antes, por todo o corpo, de todas as formas, e como nunca julgava poder ser tocado por si próprio. Quando fechou os olhos percebeu que era ele próprio que se tocava mas, no seu íntimo, imaginava que estava a ser tocado por outro, pele com pele, lábios com lábios, sexo com sexo. Deixou-se ficar assim, perdido entre a entrega ao sonho, vivido como um pesadelo ou uma embriaguez, de que se ressentiu no dia seguinte, quando acordou com a boca encortiçada e amargosa, os membros doridos como se tivesse sido sujeito a um esforço violento, a cabeça vazia, o estômago dorido e a cabeça a estalar. A lembrança daquele sentimento, funcionou, depois disso, como se tivesse desenvolvido dependência em relação a um medicamento. A sua ideia não se desviava da necessidade de voltar a experimentar todas aquelas sensações agradáveis e dava muitas vezes consigo, nas mais diversas ocasiões e circunstâncias, a matutar numa forma de colmatar aquelas vontades de toque de que desde então vinha sendo acometido.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Um dia, após um daqueles longos passeios em que nunca entrelaçava os seus dedos nos do outro, voltaram a partilhar a cama, como vinha acontecendo com cada vez maior frequência. Uma vez mais, descobriram-se pelo cheiro, olharam-se de perto, escutaram-se, mas em momento algum se tocaram ou se saborearam. Quando se sentiram preparados, o outro tirou o pacote de preservativos e seguiu-se a ginástica habitual que reduzia ao máximo a proximidade e o contacto naquele desencontro de corpos. Quando terminaram, o outro deixou-se levar pelo cansaço e pela sensação de satisfação e descontracção que lhe embalou o sono. Enquanto isso, ele aproximou-se tanto que a sua mão tocou naquela face que tanto havia olhado e já sabia de cor. Sentiu o calor que dela emanava e a respiração descansada. Roçou-lhe a mão pelo corpo nu e bem modelado, sem ser excessivamente pronunciado, sentindo bem todas as saliências e concavidades.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;No dia seguinte, ao contrário do que desejava mas como esperava de facto, encheu a mochila para partir e o outro não lhe agarrou no braço com força implorando-lhe que ficasse. Não tinha um destino definido, mas movia-o a certeza de querer pertencer a um mundo onde pudesse encostar-se a alguém que o sentisse, sim sentisse, incondicionalmente. Naquele dia, recorda-se, nem sequer olhou para trás, convicto que estava da sua decisão.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Durante muito tempo não voltou a ouvir sobre a sua pátria. O passado foi como que  apagado da sua lembrança, porque não havia nada que o tivesse tocado de forma a ficar gravado na memória. Até ao dia em que leu no jornal, numa breve de última página, que, no país onde nasceu, as mães começaram a dar à luz crianças sem um dos cinco sentidos, o tacto, resultado, como comentava um cientista, “da evolução daquela espécie”. A natureza sabe desfazer-se daquilo a que o homem não dá uso.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;Publicado no 'Jornal de Sesimbra' (Agosto de 2009)&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-6535860145577745761?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/6535860145577745761/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=6535860145577745761' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6535860145577745761'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6535860145577745761'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/09/um-mundo-sem-toque.html' title='Um mundo sem toque'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sqk1umkDVdI/AAAAAAAAAJI/iiqrygaYw3M/s72-c/100_2500+hand+in+glove.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-1720729021239077450</id><published>2009-08-25T07:05:00.000-07:00</published><updated>2009-09-14T08:30:49.062-07:00</updated><title type='text'>Chinesices?</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SpPv4Or0ZaI/AAAAAAAAAJA/ZjGid1_Od8E/s1600-h/48840043.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 270px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SpPv4Or0ZaI/AAAAAAAAAJA/ZjGid1_Od8E/s400/48840043.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373902529676731810" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="  ;font-family:Georgia, 'Times New Roman', Times, serif;font-size:14px;"&gt;&lt;h1 style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 8px; margin-left: 0px; padding-top: 0px; padding-right: 0px; padding-bottom: 0px; padding-left: 0px; color: rgb(0, 0, 0); position: relative; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Beijing loves IKEA - but not for shopping&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;&lt;h2 style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 18px; margin-left: 0px; padding-top: 0px; padding-right: 0px; padding-bottom: 0px; padding-left: 0px; font-weight: normal; color: rgb(0, 0, 0); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Customers hop into display beds and nap, pose for snapshots with the decor and enjoy the air conditioning and free soda refills. They just don't buy much.&lt;/span&gt;&lt;/h2&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Notícia &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.latimes.com/business/la-fi-china-ikea25-2009aug25,0,7736661.story?page=1"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;aqui&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-1720729021239077450?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/1720729021239077450/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=1720729021239077450' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1720729021239077450'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1720729021239077450'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/08/chinesices-ir-ao-ikea-para-bater-uma.html' title='Chinesices?'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SpPv4Or0ZaI/AAAAAAAAAJA/ZjGid1_Od8E/s72-c/48840043.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-1203793446102473603</id><published>2009-08-12T03:07:00.000-07:00</published><updated>2009-08-12T03:17:50.481-07:00</updated><title type='text'>O carregador de tristezas</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SoKWrsihupI/AAAAAAAAAI4/fKsp725tf5I/s1600-h/722292_19524961.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 393px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SoKWrsihupI/AAAAAAAAAI4/fKsp725tf5I/s400/722292_19524961.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369019383213570706" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;O&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt; meu pai queria que eu fosse médico para estudar a fundo a anatomia do ser humano e perceber qual a ordem e a arrumação natural das coisas do corpo. Apesar da sua avançada idade, e de frequentemente se deparar com algumas disfunções e desarranjos, não recorria a um médico de ânimo leve. Apoquentava-o a leve possibilidade de ter de se submeter a exames clínicos que, inevitavelmente, lhe descobriam desordens ou a sua propensão fisiológica para isso. Se eu estudasse medicina, ele poderia assim dispôr de um médico em casa. Não só para que todos os outros soubessem que ele teria um médico em casa, mas porque na prática essa presença lhe parecia suficiente para lhe manter arrumados o nariz no sítio do nariz ou o coração no sítio do coração, e assim por diante. No fundo, embaraçavam-no por demais a urgência com que variadas vezes tivera de expor diante de um desconhecido os desconcertos de que amiúde era acometido. Como daquela vez em que sob os braços lhe saía um líquido que não cheirava àquilo a que as pessoas atribuem aos sovacos, mas sim ao odor que emana duma extremidade corporal oposta. Foi, precisamente, com estes termos que ele apresentou ao médico o seu problema. Como se, falando por meias palavras, o “doutor” conseguisse perceber que dos sovacos lhe saía chulé. Correu durante vários dias, de farmácia em farmácia, de mercearia em mercearia, mas em lado algum encontrou um desodorizante de sovacos, concebido e clinicamente testado para eliminar ou atenuar o odor dos pés.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Mas foram diversos os desarranjos que importunaram o meu pai, tirando-lhe o sono de preocupação. Nem todos, felizmente, tão desagradáveis como este que nos entrava pelo nariz adentro. Como daquela vez em que deu consigo a ressonar acordado ou quando soltou uma gargalhada sonora e incontida no meio de um funeral.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Inquietava-o por demais esta propensão para a desarrumação do corpo, sobretudo quando imaginava que isso pudesse, de facto, pôr em causa a sua vida. Acordava, inúmeras vezes, perturbado por sonhos em que o nariz ao invés de respirar começava a deixar entrar sons, ruídos e palavras; ou em que o coração tacteava as artérias, vasos e órgãos em seu redor, em vez de bater.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Um dia, anos mais tarde, o meu pai sentou-me ao colo para me dizer que afinal tinha decidido que me queria estudioso de leis, para o ajudar a perceber a organização do mundo e a arrumação das pessoas no seu interior. Ele tinha nascido num mundo onde a vida era um círculo. Independentemente do seu percurso, as pessoas mantinham e cultivavam o seu sentido de existência, sabendo de antemão que tudo terminaria, inevitavelmente, onde tinha começado. Agora, porém, segundo ele, a maioria olhava para a vida como uma enorme linha recta, quase sempre ascendente, em que a morte raramente significava um novo ciclo, mas sim um fim em si, que não deve ser alcançado por qualquer meio. A vida era então uma caminhada unívoca, em que cada um tentava sobrepôr a sua voz à do outro. Ao invés de vários círculos que se sobrepunham, as diferentes existências surgiam-lhe agora como ténues linhas rectas, com início e fim bem demarcados, que raramente se encontravam ou cruzavam. Ele tinha para si, que deveria ser encontrada uma lógica de arrumação para todas essas rectas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;O meu pai tinha sido ensinado de que o lado da rua em que se caminha não é uma escolha arbitrária. “Devemos caminhar sempre de frente para os carros.” E ele caminhava sempre no lado da rua que lhe correspondia; pela esquerda. Segundo ele, este podia ser um bom ponto de partida para o rearranjo das coisas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Tinham-lhe também ensinado que a negociação não é uma linguagem. Mas depois a letra da lei passou a referir delatores, praticantes de crimes, seus ajudantes, coniventes e outros que por ali andavam tendo pouco ou nada a ver com aquilo, e ainda os que tinham muito, embora sem se perceber com que termo linguístico poderiam ser definidos, envolvendo-os numa negociação que raras vezes acabava com culpados ou inocentes. O mundo encheu-se de áreas cinzentas de cariz legal que o meu pai não conseguia deslindar ou perceber. Na sua vida sempre existiram apenas culpados, inocentes e juízes (nunca em causa própria) que se situavam modestamente numa zona incolor.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Para grande desgosto do meu pai, não segui medicina nem estudei as leis, o que o deixou desamparado no mundo, sem conseguir encontrar-se ou curar-se sem sair de casa, ou sem esforço próprio.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Contra todas as expectativas, optei por ser colector de tristezas. Na época ainda não havia um curso superior que me habilitasse academicamente para exercer essa profissão, ou que me permitisse realizar um estágio não remunerado nessa área. Creio que hoje continua a não haver, pois quer as pessoas em geral, quer o mercado de trabalho em particular, estão ainda pouco sensibilizados para essa necessidade.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Foi assim que um dia peguei na mochila e parti pelo mundo fora à procura de pessoas tristes. Segui de terra em terra, de porta em porta, a perguntar: “Tem por aí alguma tristeza que queira que eu carregue?”. Ouvia as pessoas, umas soluçantes, outras mais decididas e outras ainda aliviadas, recolhia das suas histórias aquilo que tinham de triste e juntava essas tristezas num saco que carregava às costas. Era meu único objectivo recolher todas as angústias do mundo e carregá-las. Curar todos os males do mundo é, em determinado momento, julgo, a ambição de todos os jovens. Não fui, por isso, diferente dos demais.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;A partir de determinada altura, no entanto, e à medida que a população se multiplicava, começou a ser humanamente impossível acolher a todos os que solicitavam os meus serviços. Mesmo as tristezas pequenas começaram a ser dificilmente suportadas pelas pessoas. Confrontado com essa fraqueza fisiológica da população em geral, arrependi-me, muitas vezes, de não ter seguido os desígnios do meu pai e estudado medicina. Nessa época, uma ruga no canto do olho, infeccionava tanto uma face como dez anos de vícios, e uma verdade exposta de forma demasiado crua era tomada por alienação mental. A idade não conduzia ao início de nada, antes começou a aproximar mais as pessoas do fim, levando-as a procurarem, de todas as formas, reverter os efeitos da passagem de um dia que viviam como se fossem três. Os discursos eram enviesados para esconder atrás de muitos sentidos falsos, o sentido verdadeiro e único de tudo, que ninguém queria efectivamente conhecer.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Quando embarquei nesta ambiciosa profissão, uma tristeza era um desencontro de amor, um desentendimento com um amigo, não ter força nas pernas para andar, nem nas palavras para dizer. Agora, uma tristeza é um atraso, um esquecimento, um duplo queixo, a impossibilidade de comprar um carro, uma frase inacabada, um dia de chuva, ou até de extremo calor. Como resposta a este aumento de tristezas, e à impossibilidade dos colectores de tristezas, como eu, darem resposta a todas as solicitações, o governo decidiu criar uns caixotes públicos onde cada um, por sua livre iniciativa, deixava as suas angústias, que eram depois tratadas, expurgadas de todos os males, em maquinarias concebidas especificamente para esse efeito, e reproveitadas. O esquecimento, o atraso, a antecipação, a impossibilidade, o excesso, a escassez, o calor ou a humidade de uns podia beneficiar outros, desde que utilizados na situação mais conveniente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Nessa altura arrependi-me de não ter estudado as leis como bem queria o meu pai. Poderia assim reorganizar as pessoas, as suas vontades, acções e liberdades, de forma a evitar este desperdício e a reciclagem de vidas em que tantos se perdiam.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Publicado no 'Jornal de Sesimbra' de Julho&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-1203793446102473603?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/1203793446102473603/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=1203793446102473603' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1203793446102473603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1203793446102473603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/08/o-carregador-de-tristezas.html' title='O carregador de tristezas'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SoKWrsihupI/AAAAAAAAAI4/fKsp725tf5I/s72-c/722292_19524961.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-987684831206508238</id><published>2009-08-05T13:36:00.001-07:00</published><updated>2009-08-05T13:37:20.014-07:00</updated><title type='text'>Descaracterização e desinformação</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Arial; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;O concelho de Sesimbra tem vindo a descaracterizar-se a olhos vistos. Não se trata dum processo lento, mas sim duma autêntica implosão e consequente destruição, que coincide com a explosão de inúmeras outras coisas como grandes empreendimentos turísticos, hipermercados e afins. Impinge-se o argumento do desenvolvimento, para cometer erros com consequências relevantes ao nível económico, social, cultural e urbanístico.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;E enquanto se tacteia um caminho, que pouco tem de estratégico ou de sustentável, perde-se a preservação da identidade, que se esbate e se apaga irremediavelmente, sem conseguir impôr-se a uma mentalidade baseada na ideia quadrada e betonizada de desenvolvimento e de turismo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Defender as actividades tradicionais, o património natural, preservar o característico ou manter e promover o tradicional não é ser fundamentalista, nem retrógado. É simplesmente, gostar e, acima de tudo, respeitar, a terra em que se vive. E é isso que os turistas procuram, como bem o comprovam muitos estudos e planos estratégicos de desenvolvimento.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Incompreensivelmente, os ataques à preservação da identidade surgem de todos os lados. A este processo não é alheia a comunicação social local a quem é reconhecido um papel fundamental nesse âmbito. Há quem diga que os jornais, rádios e agora televisões locais são o eco dos problemas que afectam as populações, assumindo o rosto do país real, e escapando ao centralismo da comunicação social nacional em Lisboa e no Porto. Não me parece que essas afirmações suscitem grandes reservas, da mesma forma que se concordará que a imprensa regional é também um factor de enraizamento, ligando as comunidades à sua terra de origem.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Espera-se dum jornal local, que se autodenomina como tal e se assume regionalista, que saiba, acima de tudo, ser um jornal; ou seja, que informe, que forme, que divulgue notícias com isenção, ouvindo todas as partes envolvidas, e que separe informação de opinião. Informação e isenção também não podem ser palavras vãs, certo? Este é um artigo de opinião. Não há dúvidas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Mas, como em tudo, há quem não saiba, não queira, ou seja incapaz ou incompetente para cumprir essa missão. Não é, normalmente, nestes casos, o jornal que perde.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Quem perde são os leitores, que têm entre mãos qualquer coisa com forma de jornal, cheiro a jornal, que até parece um jornal, mas que no conteúdo tem de tudo menos aquilo que deveria fazer dele um jornal. Não se espera que quem produz informação para um jornal não tenha opinião. Espera-se que contribua para que a população possa, com rigor, ser capaz de formar a sua própria opinião.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Quem perde é a própria terra porque a preservação da sua identidade perde um importante aliado.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Quem perde são as gentes do concelho porque ficam cerceadas na sua capacidade de fazer eco dos problemas que as afectam.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Quem perde é a população que deixa de ter um rosto para a sua realidade.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Quem perde somos todos nós que vemos castrado um importante factor de enraizamento que liga a comunidade à sua terra.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Fica o jornal. O que até há-de ser importante para alguém, presume-se. Mas, uma vez mais, e como em muito coisa neste concelho, esquecem-se as pessoas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Vale-nos o consolo de ainda haver outros jornais, mas daqueles que não só têm essa forma, esse cheiro e que até parecem jornais, mas que também têm conteúdo de jornal. Concomitantemente, continuarão a surgir as outras coisas. Quanto a mim, não os leio mais, não os assino e não os divulgo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Arial; min-height: 14px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Arial; "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Arial; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Arial; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Publicado no Jornal &lt;b&gt;'Nova Morada'&lt;/b&gt; de 31 de Julho de 2009&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-987684831206508238?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/987684831206508238/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=987684831206508238' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/987684831206508238'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/987684831206508238'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/08/descaracterizacao-e-desinformacao.html' title='Descaracterização e desinformação'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-7640339462017123145</id><published>2009-07-17T10:01:00.001-07:00</published><updated>2009-09-14T08:31:49.986-07:00</updated><title type='text'>Prevenção</title><content type='html'>Mesmo após o regresso e sem grandes perspectivas de lá voltar tão cedo, continuo a visitar o &lt;a href="http://www.ebeijing.gov.cn/"&gt;site oficial&lt;/a&gt; da cidade de Pequim, sempre actualizado e atento às necessidades dos turistas desprevenidos.&lt;div&gt;&lt;a href="http://www.ebeijing.gov.cn/feature_2/spirit_of_arrival_2009summer/Useful_Information/t1063346.htm"&gt;Aqui&lt;/a&gt;, é possível agora encontrar uma lista de 10 coisas que não devemos fazer no Verão, de forma a prevenir as doenças e a cuidar da saúde. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;1)&lt;/b&gt; Não sentar na madeira.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;("Não sentar na pedra no Inverno e na madeira no Verão", dizem.)&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pode causar reumatismo e artrite.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;2)&lt;/b&gt; Não comer demasiada comida fria&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O estômago e os intestinos são afectados, podendo causar dores de estômago e de barriga&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;3)&lt;/b&gt; Não dormir ao ar livre&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Quando dormimos,  o corpo está relaxado e a resistência diminui temporariamente.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pode causar dores de cabeça, de barriga, indigestão, diarreia.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;4)&lt;/b&gt; Não desprezar a sesta durante a tarde&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No Verão, o dia é longo, a noite curta e as temperaturas elevadas. O metabolismo é rápido e desgastante, pelo que é mais fácil sentir-se cansado. Por outro lado, como as noites são quentes, não se dorme bem, nem o suficiente. Uma ou duas horas de sesta à tarde são muito importantes para a saúde e permite o descanso a vários sistemas do corpo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;5)&lt;/b&gt; Evitar a exposição prolongada a ventiladores eléctricos/ventoinhas&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O equilíbrio do suor poderá ser destruído pela exposição exagerada às ventoínhas, causando dores de cabeça, tonturas, pernas doridas, desconforto&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;6)&lt;/b&gt; Não manter a temperatura do ar condicionado demasiado baixa&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A diferença de temperatura entre o interior e o exterior não deverá ser superior a 5 ou 8 graus.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pode gerar uma constipação.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;7)&lt;/b&gt; Evitar o "arrefecimento rápido" (duches de água fria)&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Uma vez que a pessoa esteve sujeita a temperaturas elevadas, com o "rápido arrefecimento" os poros contraem-se rapidamente, não permitindo a saída do calor que está no interior do corpo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pode causar febres elevadas, insuficiência de sangue, tonturas, ou choques mais sérios.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;8)&lt;/b&gt; Não beber demasiado depressa se se está com sede&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Afecta o coração, diminui a concentração de sangue, podendo mesmo causar palpitações, perturbações na respiração (respiração rápida) e transpiração anormal.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Deve-se beber pequenas quantidades de água e várias vezes ao dia.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;9)&lt;/b&gt; Não optar por refrigerantes em alternativa à água fervida&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Os sumos, colas e outros, contêm muito açúcar o que estimula de forma adversa o estômago, afectando a sua absorção e o apetite. O rim pode também ser afectado. Além disso, o açúcar engorda.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;10)&lt;/b&gt; Não usar óculos de sol demasiado escuros nem demasiado claros&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Os demasiado escuros diminuem a visão, os demasiado claros não protegem dos raios UV.&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="  line-height: 19px; font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:12px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-7640339462017123145?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/7640339462017123145/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=7640339462017123145' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7640339462017123145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7640339462017123145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/07/prevencao.html' title='Prevenção'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-6482317637564425519</id><published>2009-07-17T03:50:00.001-07:00</published><updated>2009-07-17T03:56:07.366-07:00</updated><title type='text'>Frases copiadas do livro para a agenda e da agenda para o blogue</title><content type='html'>&lt;i&gt;"Então Bioy Casarcs recordou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número de ho&lt;/i&gt;mens."&lt;div&gt;Jorge Luís Borges (Ficções)&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;i&gt;"Porque o chão não treme apenas frenético e mau nos dilúvios e terramotos, também treme docemente e suavemente, como é exemplo o momento em que a rapariga pela primeira vez estica os pés para dar o beijo no namorado."&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Gonçalo M. Tavares (O Senhor Breton e a entrevista)&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;i&gt;"Ao sorrir os olhos pareciam as ranhuras das caixas de esmolas e eu&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;i&gt;- Deixa-me enfiar uma moeda no teu sorriso."&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;António Lobo Antunes (Visão n.º 854)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-6482317637564425519?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/6482317637564425519/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=6482317637564425519' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6482317637564425519'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6482317637564425519'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/07/frases-copiadas-do-livro-para-agenda-e.html' title='Frases copiadas do livro para a agenda e da agenda para o blogue'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-5073589163341367619</id><published>2009-07-13T02:46:00.000-07:00</published><updated>2009-07-13T02:51:48.081-07:00</updated><title type='text'>Caligrafias</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SlsCge467xI/AAAAAAAAAIo/_Oamsz-JQVw/s1600-h/DSC03140.JPG" style="text-decoration: none;"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SlsCge467xI/AAAAAAAAAIo/_Oamsz-JQVw/s400/DSC03140.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5357878938758213394" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Palavras que secam, deixam de ser palavras e nem deixam marcas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Valem um instante.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-5073589163341367619?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/5073589163341367619/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=5073589163341367619' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/5073589163341367619'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/5073589163341367619'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/07/caligrafias.html' title='Caligrafias'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SlsCge467xI/AAAAAAAAAIo/_Oamsz-JQVw/s72-c/DSC03140.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-3079110797852524356</id><published>2009-07-13T02:38:00.000-07:00</published><updated>2009-07-13T02:49:31.096-07:00</updated><title type='text'>Sim, é verdade, o grande e imbatível Hulk (ou alguém parecido) tem afinal uma coisinha assim.</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SlsBuuImXpI/AAAAAAAAAIg/cMTITUHEv1c/s1600-h/DSC03157.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SlsBuuImXpI/AAAAAAAAAIg/cMTITUHEv1c/s400/DSC03157.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5357878083857047186" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;798 Art District (Beijing, China)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-3079110797852524356?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/3079110797852524356/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=3079110797852524356' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3079110797852524356'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3079110797852524356'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/07/sim-e-verdade-o-grande-e-imbativel-hulk.html' title='Sim, é verdade, o grande e imbatível Hulk (ou alguém parecido) tem afinal uma coisinha assim.'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SlsBuuImXpI/AAAAAAAAAIg/cMTITUHEv1c/s72-c/DSC03157.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-5127255805389619959</id><published>2009-07-02T04:51:00.001-07:00</published><updated>2009-07-02T06:23:40.834-07:00</updated><title type='text'>Summer Palace</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Primeiro pensa-se que é preciso ter muito azar para dar de caras com um dia (típico) de intensa névoa numa visita ao &lt;i&gt;Summer Palace&lt;/i&gt;. Segundo um chinês simpático, no entanto, isto até é uma coisa boa: "Só assim poderemos sempre imaginar o que está para lá do nevoeiro".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SkyfsRp9GzI/AAAAAAAAAIQ/14qBk_i5k6E/s1600-h/DSC03011.JPG" style="text-decoration: none;"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SkyfsRp9GzI/AAAAAAAAAIQ/14qBk_i5k6E/s400/DSC03011.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5353829640039111474" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SkyfdpUZpTI/AAAAAAAAAII/1VC7UIIuW54/s1600-h/DSC03003.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SkyfdpUZpTI/AAAAAAAAAII/1VC7UIIuW54/s400/DSC03003.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5353829388693120306" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-5127255805389619959?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/5127255805389619959/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=5127255805389619959' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/5127255805389619959'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/5127255805389619959'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/07/summer-palace.html' title='Summer Palace'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SkyfsRp9GzI/AAAAAAAAAIQ/14qBk_i5k6E/s72-c/DSC03011.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-4979926458660024489</id><published>2009-06-28T10:34:00.000-07:00</published><updated>2009-06-29T00:46:20.065-07:00</updated><title type='text'>Somewhere between Jinshanling and Simatai...</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Skep1FdwPCI/AAAAAAAAAIA/bYAk8-IGaVI/s1600-h/DSC03081.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Skep1FdwPCI/AAAAAAAAAIA/bYAk8-IGaVI/s400/DSC03081.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5352433411618257954" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-4979926458660024489?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/4979926458660024489/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=4979926458660024489' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4979926458660024489'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4979926458660024489'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/06/somewhere-between-jinshanling-e-simatai.html' title='Somewhere between Jinshanling and Simatai...'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Skep1FdwPCI/AAAAAAAAAIA/bYAk8-IGaVI/s72-c/DSC03081.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-3783119209885456379</id><published>2009-06-24T07:21:00.000-07:00</published><updated>2009-06-24T07:30:47.724-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SkI4fY9SAPI/AAAAAAAAAH4/NY3BIQfFY-Q/s1600-h/tulum_269.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 200px; height: 150px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SkI4fY9SAPI/AAAAAAAAAH4/NY3BIQfFY-Q/s200/tulum_269.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5350901419196154098" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Helvetica; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;“António!”, gritava a minha avó do cimo do muro fronteiro à praia, prolongando a última vogal que lhe saía num lamento cantado e desafinado, chamando-me para o almoço. Eu levantava o braço confirmando que já a escutara, percebendo, num repente, o vazio que me apertava o estômago, sem tirar os olhos da bola que rolava na areia remexida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;A minha avó tinha esta capacidade de interromper o jogo de futebol sempre no melhor momento. Acontecia quando estava a perder mas com boas hipóteses de recuperação, quando estava a ganhar e com possibilidades de consolidar a vitória, ou quando as duas equipas estavam empatadas e prestes a virar o resultado a seu favor. Mas nenhuma destas ou outras boas razões que eu pudesse invocar para permanecer no campo improvisado mais uns minutos, a demovia. “Nem mais um bocadinho, nem sequer meio bocadinho, vamos embora”, sentenciava. Só quando virava costas à bola e a seguia contrariado, galgando a areia abanando os braços pesados que me puxavam para ficar, é que se dava por satisfeita.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;“Continuas o jogo depois, agora é hora de almoço.” Era escusado opor-me, estava dito e as coisas ditas por ela eram assim mesmo. Nunca me pareceu, no entanto, que essa justificação fosse suficiente. Achava estranha a mania de me imporem hora para tudo, a hora de dormir, a hora de almoço, a hora de banho, a hora de lavar os dentes, a hora de ir embora.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;“Voltas à tarde?”, perguntava-me um senhor tão velho quanto a minha avó, ou ainda mais, que passava os dias sentado no muro da praia a olhar o mar. “Sim”, respondia eu enquanto sacudia dos pés a areia em excesso. “Não te esqueças depois de fechar a porta. Podes deixar a chave no sítio habitual para eu abrir a praia amanhã logo pela manhã”, aconselhava-me. Eu assentia, investido da autoridade que me dava o facto de ter sob a minha responsabilidade a importante tarefa de encerrar o areal. Chamava-mos-lhe o “dono da praia” e respeitávamos a sua eterna vigília, a que se dedicava de olhos semi-cerrados sob a boina e cheio de tranquilidade na voz que lhe saía rouca, da mesma forma que também a mim, depois de muito tempo em silêncio, as palavras me saem uns tons abaixo do que me habituei a reconhecer. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;A hora do almoço logo se transformava na incontornável “hora da sopa” que a minha avó se esmerava em encher de ramas verdes que se me enrolavam na boca sem vontade de descer. Nessas alturas, eu impunha a “hora da negociação”, comia o caldo e deixava o grão, ou comia o grão e deixava o caldo, mas cedo descobri o meu fraco poder de persuasão. Nisso, acho que não saí à minha avó, que começou depois a passar tudo com a varinha mágica. Ainda assim, na maioria das vezes, a coisa só descia quando ela me dava a sopa à boca, atribuindo uma colher para cada um dos que estava à mesa, e depois para os meus pais, e ainda para tios e primos. “Esta tem um grão inteiro”, queixava-me. “Mas esta é para a prima Irene e ela gosta de sopa com grão inteiro”, e lá engolia com esforço, e sem espaço para ripostar, o líquido espesso, grumoroso e verde. Enquanto que naquela altura as cenouras faziam os olhos bonitos, os doces apodreciam os dentes, o queijo fazia esquecer e o peixe tornava-nos mais inteligentes, hoje, a comida só nos torna mais obesos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Depois do almoço, cumpria as três longas horas de digestão antes de regressar à praia. Nunca percebi o estranho caminho que percorre a comida dentro do nosso corpo e o que a demora tanto. Nesse entretanto, procurava a sombra da rua, sentado num poial onde me entretia com tudo e com nada, enquanto o ponteiro do relógio continuava indiferente o seu percurso, numa vagareza desafiadora. Nessa altura o tempo demorava-se mais. As “férias grandes” eram realmente enormes, ao ponto de me fartar delas, embora o regresso à escola, que representava um novo recomeço e a imposição de novas regras como a “hora de fazer os trabalhos de casa”, fosse recebido com um enorme frio na barriga. “Para seres grande e forte tens de estudar”, alegava a minha avó, repetindo o mesmo argumento com que me empurrava os espinafres goela abaixo, ou me mandava dormir, porque era de noite que se crescia.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;O “ser grande” era um longo processo, que todos esperavam que cumprisse com resignação, para o qual, diziam, muito contribuiria o estudo e a ingestão de legumes e peixe, não obstante eu há muito ter concluído que os meus pais me haviam encomendado numa noite de lua em quarto minguante.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Apesar do meu esforço, continuava a ser o aluno mais baixo da turma, o que se tornava demasiado evidente quando pousava junto dos meus colegas nas fotografias de grupo, a que nos sujeitavam uma vez por ano, hoje recordações antiquadas que me confrontam com o fraco gosto exposto na forma como nos vestiam e penteavam. A professora ficava no centro e nós alinhados em seu redor; os mais altos posicionados atrás ou agachados na frente, quais jogadores de futebol antes da partida, para não taparem os outros mais baixos, como eu. Para ajudar, e porque havia outro rapaz na turma com o mesmo nome próprio, cedo me adicionaram um diminutivo, ao qual me reduzi. Apenas em casa me chamavam pelo nome sem “inho” ou pelos dois primeiros nomes, cuja conjugação ainda hoje me soa mal, para anunciar uma repreensão, que, segundo a minha avó, entrava em mim como as palavras escritas na areia durante a maré vaza.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;Por outro lado, a maré cheia permitia grandes mergulhos em que, de pernas juntas e braços ao longo do corpo, nadava em apneia, imaginando-me uma personagem duma qualquer série de televisão. No final do dia, quando regressava a casa, a minha avó demorava-se a pentear-me, e eu sabia que me inspeccionava as orelhas, para se certificar de que não tinha ainda desenvolvido guelras, tal era o tempo que já conseguia permanecer debaixo de água, quando muitos outros ainda mergulhavam comprimindo as narinas com a mão. A minha avó também se parecia cada vez mais com os peixes, certamente devido à sua proximidade em relação ao mar. A pele enrugada e escamada, curtida pelo sol e pelas maresias, e os olhos azuis aguados, tornavam-na parecida com os peixes. Apesar da idade, conservara, como em sal, uma beleza simples e uma força que a mantinha firme, apesar dos embates das ondas da vida. Era capaz de ficar horas muda mas quando falava, parecia soltar uma corrente quente de palavras que vinha bem de dentro, e deixava-lhe uma espuma branca nas comissuras da boca. Não era por acaso que o seu cheiro se confundia com o do mar&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;e me embalava numa cadência certa para me adormecer, mergulhando-me contra si com uma tranquilidade como se ali tivesse o meu porto de abrigo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;“Posso avó?”, perguntei-lhe um dia, a propósito de qualquer coisa que não estava ao meu alcance fazer, tendo recebido como resposta uma das suas incontornáveis e redondas negativas. “Mas eu já sou grande”, ripostei. “Não tenhas pressa de crescer”, respondeu-me com a rispidez do grasnar duma gaivota que vê a cria a afastar-se deixando desamparado o seu colo. Naquele momento senti-me balanceado entre a opção por aquilo que me fazia crescer e o conforto de demorar o que tivesse de ser para chegar a um determinado ponto para onde inevitavelmente todos caminhamos. Não me recordo quando deixei de pensar nisso mas sei que por aqueles dias, uma forte ventania abateu-se sobre a praia, açoitando os corpos com a fineza da areia que se entranhava pelos ouvidos, pelas narinas e nos umbigos. Apesar do sol abrasador, era impossível permanecer no areal, e a fraca ondulação transformou-se em vagas que embatiam com violência contra a baía. Foi também por essa altura que deixei de ver o “dono da praia”. Talvez se tenha ido embora para vigiar outros areais. Talvez tenha recebido outra proposta mais tentadora que lhe ocupasse mais os pensamentos do que ficar apenas sentado a olhar o mar. Talvez se tenha, simplesmente, cansado. O que é certo é que deixou a porta aberta e não deixou a chave no sítio combinado.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Helvetica"&gt;Publicado na&lt;a href="http://www.ruimiguelcunha.com/"&gt; 'Magazine Reportagem' &lt;/a&gt;de Junho de 2009&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-3783119209885456379?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/3783119209885456379/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=3783119209885456379' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3783119209885456379'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3783119209885456379'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/06/antonio-gritava-minha-avo-do-cimo-do.html' title=''/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SkI4fY9SAPI/AAAAAAAAAH4/NY3BIQfFY-Q/s72-c/tulum_269.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-6541347253401506545</id><published>2009-06-10T09:38:00.000-07:00</published><updated>2009-06-10T09:47:42.429-07:00</updated><title type='text'>The Wall</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Si_jmafc5VI/AAAAAAAAAHw/X7-Uj6mc_Ic/s1600-h/China-Great-Wall5.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Si_jmafc5VI/AAAAAAAAAHw/X7-Uj6mc_Ic/s320/China-Great-Wall5.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5345741531797841234" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;Johnson talked with an uncommon animation of travelling into distant countries; that the mind was enlarged by it, and that an acquisition of dignity of character was derived from it. He expressed a particular enthusiasm with respect to visiting the Wall of China. I catched it for the moment, and said I really believed I should go and see the Wall of China had I not children, of whom it was my duty to take care. "Sir, said he, by doing so, you would do what would be of importance in raising your children to eminence. There would be a lustre reflected upon them from your spirit and curiosity. They would be at all times regarded as the children of a man who had gone to view the Wall of China. I am serious Sir".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Boswell: &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Life of Johnson&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;. Oxford University Press, 1970, p.929)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-6541347253401506545?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/6541347253401506545/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=6541347253401506545' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6541347253401506545'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6541347253401506545'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/06/wall.html' title='The Wall'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Si_jmafc5VI/AAAAAAAAAHw/X7-Uj6mc_Ic/s72-c/China-Great-Wall5.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-1986384730680945767</id><published>2009-06-10T02:16:00.000-07:00</published><updated>2009-06-10T02:19:03.781-07:00</updated><title type='text'>Uma Sesimbra para viver</title><content type='html'>&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;O presidente da Câmara Municipal de Sesimbra, Augusto Pólvora, anuncia nos 10.000 exemplares que põe na rua mensalmente do ‘Sesimbra Município’, que “é bom viver em Sesimbra”, sustentando a afirmação nos resultados de um estudo “independente”, como faz questão de sublinhar. Por seu lado, nos restantes 10.000 exemplares da outra publicação do executivo camarário, a agenda cultural ‘Sesimbr’Acontece’, a vereadora do Turismo e Cultura, Felícia Costa, fala das “pequenas enseadas saídas de histórias de piratas” que pontuam a costa do concelho. Ao ler estas duas definições do concelho, a segunda mais rebuscada que a primeira, há que reconhecê-lo, só posso concluir que há tantos concelhos nesta terra quantos as publicações da câmara quiserem mostrar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Nestas “fotografias” não aparecem, no entanto, os apartamentos turísticos de volumetria excessiva que atulham a vila de Sesimbra em betão, seguindo os exemplos do que de pior se tem feito na costa sul de Portugal e de Espanha, prosseguindo um modelo esgotado, insustentável, ultrapassado e parolo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Não aparece uma vila de Sesimbra cada vez mais despejada da sua gente e cheia de casas novas e vazias, destinadas a turistas endinheirados.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Não aparecem as árvores abatidas junto à Venda Nova, alterando a paisagem agora dominada por enormes pavilhões de grandes e médias superfícies comerciais que garroteiam parte do concelho.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Não aparecem as, cada vez mais, descaracterizadas pelo betão (sempre o betão e a construção) aldeias do Castelo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Não aparece a desorganizada Quinta do Conde onde chegam pessoas todos os dias, mas que têm de sair da freguesia para estudar, para ir ao cinema, para terem acesso à saúde.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;No afã parolo de mostrar que Sesimbra é qualquer-coisa melhor que todos os outros concelhos e o primeiro nalguma coisa, alguém se esqueceu de pensar estrategicamente numa Sesimbra primeiro para quem cá vive. Só uma terra que está bem consigo própria e com os seus, pode receber bem os outros. Porque por muito que se tente e se repita 20.000 vezes, que este concelho é “bom para viver”, isso não se transforma em realidade. As casas e apartamentos multiplicam-se no concelho, o que&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px color: #ff0000"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;engorda de taxas os cofres da autarquia, mas não há quem os compre por muito “bons” que nos anunciemos, apesar dos preços descerem a pique.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Quatro dias antes de Sesimbra comemorar o 25 de Abril com um concerto de qualidade sofrível e sem o fogo de artifício que seria digno duma terra que tem enseadas saídas de “histórias de piratas” e onde “é bom viver”, o jornal ‘Diário Económico’ divulgava que, em 2008, “as cidades periféricas da Grande Lisboa e Grande Porto registaram quebras muito significativas nos preços das casas”. Na Área Metropolitana de Lisboa, os preços caíram em média, segundo o jornal, 6 por cento. No entanto, há decréscimos acima desse valor. Ninguém se espantará que Sesimbra surja no top 3 desta lista com -8,2 por cento, empatada com a cidade de Oeiras. Só Setúbal sai pior na fotografia, com -8,8 por cento. Afinal, quem achará que é mesmo “bom viver em Sesimbra”?...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px Arial"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: bold;"&gt;Artigo de opinião publicado no jornal 'Nova Morada' (Junho de 2009)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-1986384730680945767?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/1986384730680945767/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=1986384730680945767' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1986384730680945767'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1986384730680945767'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/06/uma-sesimbra-para-viver.html' title='Uma Sesimbra para viver'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-214751194723110355</id><published>2009-06-09T16:57:00.000-07:00</published><updated>2009-06-09T17:18:40.467-07:00</updated><title type='text'>Escol(h)as</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Si76FQPXYCI/AAAAAAAAAHo/jBzsd1Pry5M/s1600-h/sombras+chinesas3.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Si76FQPXYCI/AAAAAAAAAHo/jBzsd1Pry5M/s320/sombras+chinesas3.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5345484775901061154" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Em fase de leituras de preparação para o que aí vem, descobri isto:&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;"(...)Depois de terem derrubado todos os 'pai-lu', começaram a arrasar quarteirões inteiros, para dar satisfação à grande paixão do urbanismo socialista, a implantação de grandes avenidas e esplanadas tão necessárias aos desfiles e às manifestações de massas mobilizando algumas centenas de milhares de figurantes, que são tão indispensáveis ao bom funcionamento das Repúblicas Populares como os espectáculos de circo no Império Romano.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Durante os períodos de descanso da grande ópera política, em todas as metrópoles socialistas, de Moscovo a Pequim, o medíocre volume de tráfego automóvel, contrastando com a dimensão das suas artérias, vem conferir a estas um carácter fantasmagórico, lembrando, de uma certa maneira, os falsos aeroportos que os Papuas da Nova Guiné, adeptos do 'cargo-cult', abrem no meio da floresta na esperança de decidir os seus deuses a enviar-lhes aviões carregados de riquezas. Por vezes é-se tentado a perguntar se a abertura dessas estradas, frequentadas só por alguns ciclistas e carroças de burros, não correspondem também a uma espécie de ritual mágico, como se a simples presença desses quilómetros de asfalto pudessem ser suficientes para suscitar, um dia, a aparição repentina dessas legiões triunfantes, estridentes e fedorentas de automóveis que fazem, simultaneamente, o pesadelo da sociedade de consumo e o sonho da sociedade socialista. (...)"&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: normal; "&gt;(Descrição de Pequim pós-Mao.)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;LEYS, Simon, &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;Sombras Chinesas&lt;/span&gt;, Livraria Bertrand, p. 81-82&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-214751194723110355?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/214751194723110355/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=214751194723110355' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/214751194723110355'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/214751194723110355'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/06/escolhas.html' title='Escol(h)as'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Si76FQPXYCI/AAAAAAAAAHo/jBzsd1Pry5M/s72-c/sombras+chinesas3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-3322052218035267611</id><published>2009-06-04T02:02:00.000-07:00</published><updated>2009-06-04T02:11:59.401-07:00</updated><title type='text'>A Lígia deu-me um livro para descobrir lentamente e aos pedacinhos</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SiePuwxIbYI/AAAAAAAAAHg/gjLe8K9sEEo/s1600-h/9724413187.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 110px; height: 169px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SiePuwxIbYI/AAAAAAAAAHg/gjLe8K9sEEo/s400/9724413187.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5343397516426112386" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;"Devia escrever urgentemente, naquela manhã, uma carta 'importante' - da qual dependia o sucesso de certo empreendimento; mas, em vez disso, escrevi uma carta de amor - que não enviei. Abandono alegremente tarefas mornas, escrúpulos razoáveis, condutas reactivas, impostas pelo mundo em benefício de uma tarefa inútil, originada num Dever incontestável: o Dever de amor."&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;BARTHES, Roland, &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Fragmentos de um Discurso Amoroso&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;, Edições 70&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-3322052218035267611?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/3322052218035267611/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=3322052218035267611' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3322052218035267611'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3322052218035267611'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/06/ligia-deu-me-um-livro-para-descobrir.html' title='A Lígia deu-me um livro para descobrir lentamente e aos pedacinhos'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SiePuwxIbYI/AAAAAAAAAHg/gjLe8K9sEEo/s72-c/9724413187.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-4140401339527495024</id><published>2009-05-28T02:06:00.000-07:00</published><updated>2009-05-28T02:10:11.670-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sh5UtXeyhmI/AAAAAAAAAHY/2HFBmTTB0C4/s1600-h/MR-10_MAIO-2009.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 345px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sh5UtXeyhmI/AAAAAAAAAHY/2HFBmTTB0C4/s400/MR-10_MAIO-2009.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5340799346481989218" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="text-align: center;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Arial; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-small;"&gt;Foto: Rui Miguel Cunha&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Lenda e realidade confundem-se quando se tenta recuperar a história de um culto cuja origem se dissipa no tempo e se dissimula sob a poeira que outros acontecimentos levantaram. Dizem que naquele dia, como em muitos anteriores e nos outros que lhe seguiram, Sesimbra, pequena vila piscatória, acordou virada para o mar que lhe retorna o abraço. Uma onda, como muitas que vieram antes dela e as outras que se lhe seguiram, varreu ternamente as areias claras da baía, deixando um rasto de espuma branca comprovando a persistência desse vem e vai, através do qual o mar parece sempre querer chegar um pouco mais adiante, espraiando-se o mais possível até ser novamente sugado pela imensidão azul que deixa atrás de si. De forma quase displicente, neste seu exercício contínuo, como um respirar, o mar entrega à população de Sesimbra uma imagem de Jesus Cristo crucificado que terá sido confiada ao oceano, para evitar profanações aquando da revolta protestante em Inglaterra, que a devolveu muitas milhas marítimas a sul aos pescadores da vila que a receberam, de braços abertos, como recebiam tudo o que mar lhes dava, acolhendo-a com honras de padroeiro. Foi na “pedra alta”, como é designada, que a imagem aportou, que naquele tempo, como hoje, a maré abraçava e envolvia. Ainda há quem descubra na rocha, as marcas deixadas pela figura&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px ;color:#0000ff;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;quando embalada pelas ondas, ali se agarrou, como a um porto seguro, apesar de lhe faltar um braço. Dias depois, uma velhinha aquecia-se com lenha que havia recolhido, quando percebeu que um dos toros, lambido pelas chamas, não se deixava macerar pelo fogo. Era afinal o membro que faltava à imagem que concentrava atenções populares e eclesiásticas,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px ;color:#0000ff;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;e que logo lhe foi restituído, como devia. A todos a imagem inspirou respeito. Sobre este momento passaram dias, como os muitos que lhe antecederam e os que vieram depois, e ainda hoje, a população de Sesimbra presta culto ao “Senhor das Chagas” numa festa que é de todos, transformada em feriado municipal, mas sentida por cada um de forma particular.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;A teus pés,&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Senhor das Chagas&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Eis Sesimbra novamente&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Numa súplica fervente,&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Implorando o favor!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Os barcos ficam em terra e os homens do mar trocam os rumos habituais que os conduzem aos pesqueiros, pelo percurso mais sinuoso, mas certo, seguro e firme, da procissão que presta homenagem ao Jesus crucificado que redimiu o mundo. Os pescadores carregam-no em ombros, vergados, mas com penitente determinação. Quando os sinos rebatem anunciando a saída da procissão, os homens do mar, tementes ao seu padroeiro, unem-se, de ar circunspecto que induz o respeito que guardam ao seu protector, para venerar a imagem. As boinas que em dias de trabalho os protegem do sol, ficam hoje em casa, deixando a descoberto cabeças brancas que contrastam com a face morena, calejada e endurecida pelo sol e pela aspereza da maresia, a que estão expostos durante a vida e a faina. Envergando uma capa vermelha, homens e mulheres da Irmandade do Senhor Jesus das Chagas (cuja insígnia inclui uma âncora e um leme), de todas as idades, mas com uma identidade comum, alinham-se rodeando a imagem, para onde convergem olhares, orações e preces, cumprindo um percurso tradicional que se enrola sem se fechar, como a casca de um caracol, cujas “espiras são dextróginas”¹. “Ao contrário da linha recta, a espiral é considerada como o mais longo caminho para ir de um a outro ponto; as procissões percorrem o mais largo caminho entre dois lugares sagrados”¹. Quem segue à frente tende a olhar para trás, de quando em quando, como que para se certificar de que a imagem ali permanece perante olhares humildes e reverenciadores, cuidando e olhando por todos. Quem segue atrás, caminha olhando para o alto, contemplando o “Senhor” que oscila sob os passos dos que o carregam, simultaneamente magnificiente na sua compreensão e benevolência mas conduzido pelas forças dos homens que tantas vezes fraquejam.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Subindo e descendo as sinuosas ruas da vila que se engalanam para venerar a imagem, centenas de pessoas partilham um momento de comunhão, em que a partida e o local onde se pretende chegar deixam de ter relevância porque todos se concentram no caminho. Não se anda para atingir um determinado local, objectivo ou meta, mas sim desfrutando o caminho que reaviva memórias, redime, expia pecados e aviva a fé.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Abençoa nossos lares,&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Nossa praia, nossas ruas&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Nossas almas que são tuas&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;E que te adoram, Senhor!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;A procissão atrai a população que forra as ruas, estendendo-se pelos passeios, e arrasta consigo outros, que seguem depois os passos do “Senhor”. Esses que não integram o cortejo religioso mas pretendem participar activamente naquela marcha solene, embalada pela partitura da banda filarmónica e pela fanfarra dos bombeiros voluntários, seguem atrás cumprindo promessas, descalços e calçados, de velas na mão, ou mesmo sem qualquer outra intenção, simplesmente porque esta é a sua forma particular de prestar culto. Da mesma forma, outros oferecem esmolas ou ajudas, há também quem vista as suas crianças de anjos e outros ainda atapetam a rua de alecrim ou cobrem previamente a cruz de Jesus crucificado com flores coloridas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Os perfumes do arbusto aromático pisado e das pétalas de rosa que caem das varandas e janelas cobertas por colchas bordadas, misturados com o intenso aroma que emana do incensário, enchem o ar, envolvendo tudo e todos. Quando a procissão passa frente ao mar, na marginal, o “Senhor das Chagas” vira-se para o oceano, parecendo querer abraçá-lo como que agradecendo o facto de este o ter conduzido até esta terra de gente que o adora, e abençoando os barcos que o esperam frente à baía, com a proa apontada para terra, desde que os sinos e os foguetes anunciaram o início do cortejo. As embarcações alinhadas, apitam à sua passagem quebrando o silêncio e a circunspecção, num instante de desembaraçado e ruidoso reconhecimento e agradecimento.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;O “Senhor das Chagas” é parte integrante da vida dos sesimbrenses que procuram, ano após ano, enriquecer a festa ornando a igreja e queimando fogo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Nesta prece divina,&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Que o nosso amor encerra,&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Abençoai Sesimbra&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Abençoai nossa terra!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;As festividades em honra do “Senhor das Chagas” são já parte da vida dos sesimbrenses. E quando a imagem retorna à capela da Misericórdia embalada pelas vozes afinadas, e algumas embargadas pelo sentimento, que dele se despedem - &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;“... Abençoa nossos lares, nossa praia, nossas ruas, nossas almas que são tuas E que te adoram, Senhor” &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;- abate-se um silêncio triste sobre a vila que lentamente parece despertar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Ao fundo já se ouvem os desafios lançados pelos altifalantes dos carrosséis e barraquinhas de divertimentos que atraem adultos e crianças, em família, para o arraial, Avenida da Liberdade acima. O dia da procissão, 4 de Maio, é o ponto alto, mas as festividades em honra do Senhor das Chagas ganharam, desde cedo, uma envolvência mais abrangente, para além do cunho marcadamente religioso. É certo que o número de divertimentos disponíveis na feira tem vindo a diminuir. É certo que as tendas que vendiam brinquedos tradicionais e objectos úteis há muito foram ultrapassadas. É certo que já poucos compram rifas, porque também são já raros os que as vendem&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px ;color:#0000ff;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; em troca de bonecos de pelúcia sorteados. Mas o arraial continua a ser um espaço de encontro, onde não faltam as pipocas, o algodão doce, as farturas, as pinhoadas ou o gergelim. É certo que o tempo passa e o mundo muda, assim como as tradições. Mas falar de um povo continua a ser recordar os seus cultos. E, na essência, apesar de tudo, “homem e anzol não sofreram mudanças” ¹. E passarão dias, como os que se seguiram até hoje, e os muitos que ainda nascerão e a população de Sesimbra prestará, em união, o culto ao “Senhor das Chagas”.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 9.0px Arial"&gt;&lt;span style="font: 11.0px Arial; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;¹&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; - MONTEIRO, Rafael, &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;A Festa das Chagas, os Painéis de Nuno Gonçalves e Outros Temas&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;, Colecção Livros de Sesimbra, Câmara Municipal de Sesimbra, Maio de 2002&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-4140401339527495024?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/4140401339527495024/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=4140401339527495024' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4140401339527495024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4140401339527495024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/05/foto-rui-miguel-cunha-lenda-e-realidade.html' title=''/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sh5UtXeyhmI/AAAAAAAAAHY/2HFBmTTB0C4/s72-c/MR-10_MAIO-2009.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-4771840527055484687</id><published>2009-05-12T14:26:00.000-07:00</published><updated>2009-05-13T03:09:06.573-07:00</updated><title type='text'>Sentença</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SgnqlXoaK7I/AAAAAAAAAGs/WFHWU-yWwHQ/s1600-h/home_couch.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 267px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SgnqlXoaK7I/AAAAAAAAAGs/WFHWU-yWwHQ/s400/home_couch.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5335053161316625330" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Pelos ouvidos entra-lhe um som agudo e sibilante que coincide com o exacto momento em que a dor forte do impacto lhe atinge a lateral da perna, um pouco abaixo da anca, e um calor, quase reconfortante, se espalha pelo corpo, quando uma golpada de sangue lhe sobe à cara, deixando-lhe o cérebro a latejar, de forma quase visível, nas têmporas. Sente os braços e as pernas amolecerem, cedendo ao castigo, a um ritmo um pouco mais acelerado do que desejava, ou do que as chicotadas do couro o deveriam dobrar. Está de bruços, no chão, no tapete da sala de estar, depois de a fivela do cinto lhe ter apanhado uma fragilidade entre a barriga da perna e o rabo que o prostou. Assim subjugado e humilhado, sente a saliva a subir-lhe à boca e se o vai-e-vem do cinto não tivesse cessado, sem mais nem porquê, teria vomitado ali mesmo, no centro da sala, em frente ao sofá onde o pai agora está sentado e onde ele havia estado poucas horas antes estendido, mas longe deste desfecho. Encosta a cara à carpete peluda e sente um fio de baba escorrer-lhe pelo canto da boca. Mas é só o que sai. Nem uma lágrima, nem um lamento, nem um queixume, nem uma súplica, nem uma palavra. Assim, tão de perto, percebe que há ali sujidade tão entranhada pelos anos e pelo uso, que o aspirador e o esforço da dona Maria não conseguem sugar. Migalhas, cabelos, pêlos e agora o seu fio transparente de saliva espessa. Quando reúne forças para levantar a cabeça, ainda vê os pés do pai a virar-lhe costas e sair porta fora. A mesma por onde ele próprio tinha entrado havia minutos, depois de ter andado quilómetros para não pensar mais nas horas dessa tarde em que se encontrara, ali mesmo, com a filha da empregada, e de, no regresso, ao fazer rodar a chave na fechadura, sentir um arrepio premonitório algures na barriga, quando ouviu, do outro lado, o silêncio taciturno duma normalidade estranha. Mantém ainda os sentidos alerta na expectativa de mais uma dolorosa chicotada que já não ocorreria. Deixa-se ficar, a descansar, enquanto as dores, até aí, fortes e ritmadas, entre o momento em que o braço acusador e penitenciador se levantava e se abatia sobre ele numa sacudidela, se tornam agora fixas e permanentes à medida que o corpo arrefece.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Volta a cerrar com força os olhos. Mas não verte nada. Se deixasse sair alguma coisa, pensa, uma lágrima, um lamento, um queixume, uma súplica, uma palavra, talvez aliviasse o peso da dor e da culpa. O seu corpo, no entanto, recusa-lhe o consolo e cumpre, com resignação, a penitência. Sente-se dormente e, por instantes, o presente e a recordação dessa mesma tarde misturam-se desordenando-lhe os pensamentos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Ele tinha-a conduzido até ao sofá da sala, pela mão suada e fria de antecipação. Ali se tinham estendido os dois, encontrando-se duma forma que os expunha um ao outro mais do que o facto de serem, há muito, filhos, ela da dedicada dona Maria, e ele do senhor António e da dona Beatriz. Tinham demorado, por comum acordo nunca verbalizado, esse encontro. Embora por razões diferentes. Ela porque sim, porque faz parte, porque assim lhe tinham ensinado. Ele porque tinha mesmo de ser.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Estavam tensos, estendidos no sofá, o mesmo onde o pai se deitava a ler o livro descansativo no final do dia, onde a mãe passava a dormir as dormentes tardes de domingo, e que a dona Maria arrastava antes de passar o aspirador.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Ela acercou-se mais. Talvez demais. E a proximidade tornou-a perturbadoramente real, tanto que ele duvidou de tudo o que se tinha passado até ali para ficar preso naquele instante. A partir dali tudo sucedeu como numa cadeia de coisas que acontecem porque sim, porque faz parte e porque tem mesmo de ser.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Deitou a mão ao bolso, como, de facto, tinha mesmo de ser. Toda a gente sabe que sim. E ele sabia-o melhor do que ninguém. Mas ela não o deixou, porque não, porque não fazia parte.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;- Porque não?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;- Não temos de ser nós a decidir.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;- Preferes que decidam isso por ti e por mim?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;E a cadeira de coisas continuou a desenrolar-se, sem atropelos, sem pressas, sem mais perguntas ou considerações. Por instantes, aquele deixou de ser o sofá que os pais esgrimiam. A mãe para assistir a telenovelas e o pai para conferir os melhores golos e lances da jornada. E que todas as semanas tinham de centrar com a televisão porque a dona Maria arrastava-o para limpar a alcatifa e nunca o deixava no sítio que eles achavam ser o devido. Nessa tarde, foi um sofá partilhado, sem sentimento de pertença, que deixou de ter a importância que habitualmente lhe era conferida. Estavam no sofá, como podiam estar noutro local. Isso pouco importava.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Mas as coisas que realmente importavam lá em casa, tinham ocorrido ali.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Foi ali que a dona Maria confidenciou à sua mãe sobre as seringas e demais provas que tinha encontrado no seu quarto, dentro dum pacote.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Foi ali que a mãe chorou ao pai, de voz embargada pelo ranho, pelos soluços e pela desilusão, a queixa da dona Maria sobre essa caixa que encontrou debaixo da sua cama, e que escondia de forma cada vez mais displicente, à medida que o seu conteúdo ganhava maior importância na sua vida.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Foi sentado naquele sofá que o pai lhe impôs uma opção de recuperação.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Estavam ali sentados quando, meses depois, voltou a entrar em casa renovado, depois de uma desgastante luta contra si próprio e uma dependência repugnante que lhe virou tudo do avesso.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Foi ali reunidos que abriram a carta que selava o resultado dos exames que lhe ditaram o diagnóstico e a doença fatal, que até aí parecia distante e apenas capaz de hostilizar gente famosa e promíscua.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;No sofá decidiram, em família, manter segredo sobre tudo isso, mesmo em relação à dona Maria, que era dedicada mas pouco esclarecida.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;E, finalmente, ali o esperaram esta noite, depois da tarde que tinha passado com a rapariga que lhe deixou tudo baço e enevoado. O bolo que tinha na garganta avolumou-se tanto que quase não lhe permitia respirar e atordoado, agarrou-se ao sofá tentando erguer-se.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;- Porque não?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;- Não temos de ser nós a decidir?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;- Preferes que decidam isso por ti e por mim?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;- Não percebes. Não somos nós quem decide. Nada do que possas fazer mudará o que tem de ser.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;- Não?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Desequilibrou-se e o sofá revirou sobre ele.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 10.0px Helvetica"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: bold;"&gt;Texto publicado no Jornal de Sesimbra (Abril 2009)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-4771840527055484687?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/4771840527055484687/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=4771840527055484687' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4771840527055484687'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4771840527055484687'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/05/sentenca.html' title='Sentença'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SgnqlXoaK7I/AAAAAAAAAGs/WFHWU-yWwHQ/s72-c/home_couch.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-7779794015966549492</id><published>2009-05-10T08:30:00.000-07:00</published><updated>2009-05-10T08:38:36.628-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sgb0wDMNLnI/AAAAAAAAAGk/jtu7HWH14VQ/s1600-h/mundo.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 211px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sgb0wDMNLnI/AAAAAAAAAGk/jtu7HWH14VQ/s400/mundo.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5334219914994331250" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); font-style: normal; text-decoration: underline;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Lembro-me de ter lido também nas Selecções a história de um indivíduo que um dia, ao voltar do trabalho, sofre no meio da rua um ataque de amnésia e esquece quem é. O homem não leva consigo a documentação, motivo pelo qual vai pedir ajuda a uma esquadra onde, depois de um breve interrogatório que não proporciona nenhum resultado, o conduzem a um lugar cheio de gente com o mesmo problema. É uma espécia de bairro onde as pessoas deambulam sem saber quem são. Fora disso, levam uma vida normal com intercâmbios económicos e sentimentais que reproduzem o mundo do qual provêm. Num dado momento o protagonista da história recupera a memória, mas não o diz a ninguém, pois descobriu que aqueles que a recuperam têm alta e são levados para o mundo anterior (e exterior), que era mais duro que o actual. A partir da situação em que está, cedo descobre que há mais pessoas a fingir que continuam amnésicas para não terem de assumir as fadigas da sua vida passada. Identifiquei-me muito com aquela personagem, pois também para mim teria sido um privilégio esquecer-me de quem era. Mais uma vez, ao passar perto de uma esquadra, estive quase a entrar e dizer que perdera a memória, mas faltou-me a coragem."&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: normal;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: bold;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Juan José Millás&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-7779794015966549492?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/7779794015966549492/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=7779794015966549492' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7779794015966549492'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7779794015966549492'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/05/lembro-me-de-ter-lido-tambem-nas.html' title=''/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sgb0wDMNLnI/AAAAAAAAAGk/jtu7HWH14VQ/s72-c/mundo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-6181800752470216829</id><published>2009-04-22T14:52:00.000-07:00</published><updated>2009-04-22T15:00:40.960-07:00</updated><title type='text'>Cabo Verde</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Se-SWzZqAWI/AAAAAAAAAGU/PY2Rq8LHWxw/s1600-h/MR+09+-+Abril+2009+%7C+001.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 346px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Se-SWzZqAWI/AAAAAAAAAGU/PY2Rq8LHWxw/s400/MR+09+-+Abril+2009+%7C+001.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5327637804655182178" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p style="text-align: center;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Arial; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=""&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: bold;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;Foto: Rui Miguel Cunha&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;As calças de ganga e a camiseta de alças de cor garrida balançam no corpo esguio, com a mesma cadência do caminhar desajeitado, quase bamboleado, talvez ao compasso da música que trauteia de si para si. Tem a cabeça cheia de sons, que se entrelaçam e lhe embalam, não só o andar, ou a voz, mas a vida. Sempre de guitarra debaixo do braço, oferece música a quem passa com um sorriso aberto e uma sinceridade desarmante. Dizem que se chama Manuel, que canta em rima a quem passa a história dos habitantes da ilha, musicando a vida dos que estão e dos que se foram, preservando heranças, como se desta forma conservasse, como o sal, memórias, histórias passadas e presentes, experiências de vida. Nem a propósito, é a ilha do Sal, Cabo Verde, que o vê crescer. Não sabe dizer-nos a idade, porque a sua própria história perdeu-se e misturou-se com as vivências alheias que ganhou quando as transformou em canção. As pessoas vão mas a sua história fica presa na ilha porque Manuel agarra-a, enrodilhando-a em notas musicais, tempos e compassos.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;E são muitos os que, desde a década de 60 do século passado, abandonaram as ilhas descobertas em Maio de 1460 pelo navegador português Diogo Gomes. Actualmente, há mais caboverdeanos a residir no estrangeiro do que no próprio país e o seu grau de dispersão torna este fenómeno de emigração ainda mais interessante encontrando-se espalhados por cerca de 25 países, como os Estados Unidos, Portugal, Angola, Holanda, Senegal ou a França. Não terá sido por isso, por acaso que, quando os portugueses ali desembarcaram, as ilhas eram desabitadas, tendo sido depois colonizadas por escravos da costa de África e europeus livres. Sem vestígios de presença humana anterior, os primeiros habitantes foram assim colocados numa terra em branco, sem passado e apenas com futuro. Mas a estratégica posição destas ilhas atlânticas, na confluência de rotas marítimas entre três continentes – Europa, África e América (Brasil) – conferiu-lhes um papel de relevo na expansão portuguesa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Esta combinação de factos e a mestiçagem entre africanos e europeus resultou num povo de características únicas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Manuel senta-se no cais, debruçado sobre a guitarra, e a sua música cola-se-nos aos ouvidos e mistura-se com as conversas dos pescadores regressados da faina que por ali tratam o peixe, sentados no tabuado do pontão. De olhar fixo no mar apetecivelmente azul e tão límpido que se consegue perceber todos os desníveis da areia no fundo, o jovem canta a história de um homem &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;badiu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; (do sul do arquipélago) da parte do pai, e &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;sampadjud&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; (do norte do arquipélago) da parte da mãe, natural da ilha do Sal. Os pais discutiam muito, talvez demais diz a canção, sobre qual dos dois falava o crioulo mais bonito para ser ensinado ao filho. O rapaz que corria o risco de nunca conseguir articular uma palavra enquanto os pais não resolvessem o diferendo, aprendeu sozinho a falar a língua dos peixes, feita apenas de consensos, e acabou, sem que os outros percebessem o porquê, por se tornar no pescador mais bem sucedido da ilha. Já homem aprendeu os dois dialectos de Cabo Verde, mas nunca conseguiu desempatar a briga entre os progenitores porque, na sua opinião, &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;badiu&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; e &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;sampadjud&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; são igualmente belos.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Manuel troca a história musicada por um peixe acabadinho de pescar. A fartura que o mar oferece é tanta que basta um arame torcido e um isco para atrair o peixe.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;O mar das ilhas é rico, o que sustenta a variedade da cozinha caboverdeana, que inclui um pouco daquilo que o mar oferece como atum, peixe-serra, espadarte, garoupa, moreia, perceves, búzios, polvo, lagosta, e ainda os tradicionais caldo de peixe, bafas de marisco e a referenciada &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;catchupa&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, que tem o estatuto de prato nacional, confeccionado com várias carnes, enchidos, milho, feijão ou favas, batata e couve, enriquecido, por vezes, com ovos fritos ou peixe.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;A aridez do Sal, no entanto, contrasta com a diversidade de cores e sabores que os homens recolhem do mar. Na ilha mais plana do arquipélago, com uma superfície de 215 km2, as salinas, de reconhecida qualidade e com uma produção assinalável, constituíram uma importante actividade económica que durou até 1985, embora registe, desde então, um declínio. As salinas de pedra de lume, no interior da cratera de um vulcão extinto, onde é possível tomar um banho, em água vinte vezes mais salgada que o mar, constitui hoje uma atracção turística. Em redor, a paisagem monótona, de uma secura lunar, permite, no entanto, confortar o olhar em praias de areia branca e num convidativo mar azul. O Monte Grande é ponto mais alto desta ilha de origem vulcânica elevando-se a uns meros 406 metros acima do nível do mar. Na ilha do Fogo, por outro lado, o relevo é bastante acidentado, atingindo os 2829 metros. Cada uma das dez ilhas de Cabo Verde possui a sua especificidade e são essas contradições que constituem a essência de um país tão heterogéneo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Parece pouco provável mas na ilha do Sal existiu em tempos esquecidos um oásis de tamareiras, coqueiros e tamarindeiros, canta Manuel para entreter os turistas. Dizem os antigos que os apetitosos frutos daquelas árvores davam alegria e harmonia a quem os provasse. Por essa razão, aquele pedaço de terra que destoava do resto da ilha era preservado com todos os cuidados e a fruta recolhida parcimoniosamente distribuída pelos habitantes. A pouco e pouco, e sem que alguém pudesse fazer algo para o contrariar, o oásis foi mirrando, como que engolido pela secura da terra, em resultado dos ventos agrestes que, por vezes, fustigam a ilha e da aspereza da brisa marítima. A ilha do Sal está colocada no mar a favor do vento, demasiado exposta aos ares quentes do Sahara, que parece querer levá-la à sua frente. Mas ainda hoje, a alegria e a serenidade perante a vida transmitida pelas frutas ficou nas pessoas. A aridez da paisagem contrasta com a simpatia das suas gentes, afectuosas e hospitaleiras.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;A cantilena do rapaz suscita um brinde entre turistas e autóctones com a típica aguardente de cana-de-açúcar, de forte teor alcoólico, fabricada ainda artesanalmente na ilha de Santo Antão, mas generalizada por todo o arquipélago.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Simplicidade e humildade são formas de estar, exteriorizadas em cores, sabores e aromas definidores de uma cultura que se revela de enorme criatividade.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Um aroma daquel pais Cabo Verde terra querida Qu’nos tu quere na coraçon”, canta Cesária Évora, a mais internacional das cantoras da música caboverdeana. As mornas que interpreta nascem de um encontro entre o fado e ritmos africanos e transmitem o amor, a saudade, a alegria e a melancolia de um povo habituado a olhar para fora; para o mar. E agora também para os turistas que chegam aos magotes, atraídos por um clima moderado, onde a temperatura anual média é 25ºC e a água do mar ronda os 21ºC e os 25ºC.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Mas também, cada vez mais, os caboverdeanos são chamados a olhar para dentro. Desde a independência do país, em 1975, que têm sido desenvolvido importantes esforços na protecção das espécies endémicas e na reflorestação de encostas de forma a preservar os solos expostos à erosão. As tartarugas gigantes são também uma espécie protegida que desova na ilha do Maio.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Manuel pousa cuidadosamente a sua guitarra no chão e corre para um campo improvisado juntando-se a um grupo de rapazes que joga futebol, entre risadas e trocas de incentivos. Quando reparam na presença de um turista que os fotografa, os rapazes param e põem-se a jeito para a câmara. Em troca é-lhes oferecido um saco de caramelos que distribuem amigavelmente entre todos e com a mesma rapidez com que compõem a pose, desmancham-na e retomam a partida. De quando em quando, Manuel olha a guitarra, comprovando que está onde a deixou. Dele e da sua música depende, afinal, a preservação de histórias, das que passaram e das que hão-de vir. Como diz o hino do país &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“a esperança é do tamanho do mar que nos abraça”.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 11.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 8.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;Nota: As personagens deste trabalho, bem como as suas histórias, são ficcionadas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 11.0px Arial; min-height: 12.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 8.0px Arial"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;Fontes:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 8.0px Arial"&gt;&lt;span style="text-decoration: underline ; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;a href="http://www.portugalcaboverde.com/"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;www.portugalcaboverde.com&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt; – Site da Câmara de Comércio, Indústria e Turismo Portugal Cabo Verde&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 8.0px Arial"&gt;&lt;span style="text-decoration: underline ; letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;a href="http://www.governo.cv/"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;www.governo.cv&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt; – Site oficial do Governo de Cabo Verde&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-6181800752470216829?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/6181800752470216829/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=6181800752470216829' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6181800752470216829'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6181800752470216829'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/04/cabo-verde.html' title='Cabo Verde'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Se-SWzZqAWI/AAAAAAAAAGU/PY2Rq8LHWxw/s72-c/MR+09+-+Abril+2009+%7C+001.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-3488501007985164417</id><published>2009-04-11T02:17:00.000-07:00</published><updated>2009-04-11T02:19:32.880-07:00</updated><title type='text'>Ao lado</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span"   style="color: rgb(51, 51, 51);   font-family:'trebuchet ms';font-size:13px;"&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Passa por aquela rua todos os dias, com uma pontualidade exasperante que roça a obsessão. Se a senhora franzina, de queixo rugoso pendurado e cabelo branco e ralo apanhado num novelo mal amanhado junto ao toutiço, se aproximasse um pouco mais do beiral quando rega a begónia branca que lhe enfeita o varandim, e ainda tivesse a visão de que se orgulhava há uns anos, poderia vê-lo a passar sempre à mesma hora.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Da mesma forma que também seria visto, mais acima, pela empregada com feições que denunciam a sua origem latino-americana, se ela espreitasse da varanda a rua em baixo, antes de sacudir os pêlos do cão que ali passa os dias a ladrar a quem passa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;E seria ainda visto por aquela cabeça encoberta de alguém que espreita imperceptivelmente pela janela, atrás dum cortinado, o filho deficiente visual que sai pela manhã e atravessa a rua, na passadeira, com passos ensaiados e ensinados, de bengala na mão e óculos escuros, com a certeza no passo, que o pai que o vigia não tem no peito, apertado de hesitações e de medos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Se alguém se desse ao trabalho de, duas vezes, lhe filmar o andar quando atravessa a rua e sobrepusesse depois as imagens, verificaria que o seu caminhar é compassado e o passo de ontem acertado com o de hoje. A sua presença é tão regrada que se confunde com a paisagem. Tudo em seu redor está demasiado habituado a encontrá-lo exactamente à mesma hora, no mesmo local, que já ninguém se atravessa no seu caminho e assim também não estorva transeuntes apressados nas ruas movimentadas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;As roupas de cores neutras apagam-no, confundindo-o com a luz baça dos dias, da mesma forma que a sua aparência não denota nele nada fora do normal; o cabelo cinza condiz com a idade e as rugas já se lhe acumulam nos cantos dos olhos e vincam-lhe a face desde as abas do nariz até aos cantos da boca. A sua voz não é sumida para não ser obrigado a repetir uma frase ou um pedido, nem é demasiado clara ou forte para que ninguém mais o oiça além daquele a quem se dirige. O seu olhar não pára em ninguém para não ser encarado, nem confrontar com o seu olhar. Sente-se cómodo na sua vida pacífica, monótona, tranquila e, por isso mesmo, segura, que lhe garante que o amanhã não será pior que o hoje. É certo que também não será melhor, mas o mesmo, pelo menos, é garantido.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;A sua vida é tão vazia quanto a sua existência e passagem pelos outros. Mantém com satisfeita resignação o emprego na repartição. Pode não ser motivador, nem exigente, mas não dá grandes preocupações e o ordenado é garantido e certinho no final do mês. Não vai ao médico porque é em consultas que surgem as doenças. Não joga porque testar a sorte é sujeitar-se a azares. Não se faz ao mar porque é lá que se naufraga. Não se submete a estudos e exames porque são feitos para chumbar. Não viaja porque não suporta a possibilidade de se ficar pelo caminho ou de ter de enfrentar a ausência de um rumo ou o desconhecimento de uma rua. Não tem amigos para não ter de os desiludir. E não vota porque desacredita que os políticos mudem alguma coisa. Mais vale deixar tudo como está. Não crer em si é não crer em ninguém.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;A sua felicidade é feita desta simplicidade sem altercações, sem crenças, sem missão, mas regrada, sintonizada com o dia antes e o dia depois, e de boa reputação que não dá azo a falatórios nem atrai atenções, até porque faz demasiada mossa andar nas bocas dos outros; aquece as orelhas. Uma vida com muitos abalos pode degenerar em indisposição duradoura. Por isso, qualquer alteração é por si, imediata e obsessivamente, enfrentada no sentido de a normalizar, como se a sua vida corresse habitualmente como em fio numa linha plana, que quando sobressaltada, se alvoroça, empertigando-se como um gato assanhado, desenhando depois um contínuo de montes e vales, mais ou menos acentuados consoante o impacto e que perdem evidência à medida que tudo retoma o seu curso normal.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Felizmente poucas vezes isso ocorre. Porque programa meticulosamente a sua vida.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Hoje, o despertador tocou como sempre acontece. O homem levanta-se e dirige-se ao duche com o coração pacificado. Nada faz prever que o dia seja diferente de muitos outros que o antecederam.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Uma senhora franzina, de queixo rugoso pendurado, e cabelo branco bem penteado e solto, aproxima-se do beiral para regar uma begónia, mas também orquídeas e tulipas que lhe enfeitam o varandim. Olha a rua em baixo enquanto ajeita os óculos que ainda não se lhe afeiçoaram à cara e inspira o ar fresco e revigorante da manhã. Mais adiante, uma empregada da limpeza escuta empertigada a repreensão de um transeunte que passa sob a varanda onde sacode um tapete com pêlos de um cão que passa ali os dias a ladrar a quem passa. E agora ladra também, chamando a atenção de uma cadela de olhar manso e pêlo amarelo que encaminha para a passadeira um jovem invisual de óculos escuros, que se despede com um reforçado abraço do pai que segue em sentido contrário.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Como nos dias anteriores ninguém reparou no homem que passava ali todos os dias, com uma pontualidade exasperante. Até porque, naquele dia, ele não passou. Quando a sua vizinha deu o alerta, a água ligada de manhã já aparecia sob a porta da rua do seu apartamento. Não havia ninguém a quem dar a notícia da sua morte.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;O fim de uma vida que passou ao lado.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 11px/normal Arial; min-height: 12px; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 11px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Publicado no Jornal de Sesimbra&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-3488501007985164417?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/3488501007985164417/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=3488501007985164417' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3488501007985164417'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3488501007985164417'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/04/ao-lado.html' title='Ao lado'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-1554346109331939566</id><published>2009-03-19T05:07:00.001-07:00</published><updated>2009-03-19T05:17:55.269-07:00</updated><title type='text'>O cosmos em mim</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/ScI1mcJFDpI/AAAAAAAAAGM/95nlxKH3H7E/s1600-h/3_Foto_Paulo_Carvalho_600.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5314869444756180626" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 263px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/ScI1mcJFDpI/AAAAAAAAAGM/95nlxKH3H7E/s400/3_Foto_Paulo_Carvalho_600.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Foto: &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.yoga-samkhya.org/"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;http://www.yoga-samkhya.org/&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;"Tudo começa em nós"&lt;/strong&gt;, afirma Paulo Carvalho, professor do Yoga que se dedica, desde 2000, à prática e estudo desta filosofia. Neste momento, de resto, o Yoga é a sua vida; o que respira, o que o inspira e o que move. &lt;strong&gt;"Posso dizer que faço, unicamente, o que gosto, é algo saudável e, além do mais, estou a fazer bem às pessoas"&lt;/strong&gt;, afirma. Ensinando o Yoga, contribui para que as pessoas aprendam a conviver com o melhor de si, se irritem menos e criem menos conflitos. Esta atitude pode gerar uma &lt;strong&gt;"reacção em cadeia"&lt;/strong&gt; que, no limite, conduzirá à paz mundial. Ou seja, tudo depende de si. &lt;strong&gt;"Cada um de nós tem um grande papel a desempenhar"&lt;/strong&gt;, competindo a cada pessoa deixar o mundo pelo menos tão bom como o encontrou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O centro de Yoga (&lt;em&gt;áshrama&lt;/em&gt;) que Paulo Carvalho dirige, em Sesimbra, congrega hoje, cerca de 50 praticantes, mas por aquela sala espelhada, de chão azul e um tranquilizante aroma a incenso já passaram centenas de pessoas. &lt;strong&gt;“Para se evoluir no Yoga é preciso disciplina, investimento e trabalho intenso sobre nós mesmos”&lt;/strong&gt;, explica. &lt;strong&gt;“E isso requer uma vida inteira”&lt;/strong&gt;, concretiza. O Yoga é para a vida inteira. Os alunos que percebem isso, ficam. A visão e o modo de vida ocidental parece ser demasiado contraditório com esta filosofia de vida, mas os rápidos resultados conquistam praticantes. &lt;strong&gt;“Os resultados aparecem logo. E o processo de aprendizagem é como a subida a uma montanha. Queremos sempre ir um bocadinho mais alto, tendo a certeza que, no Yoga, cada passo é um passo consolidado”&lt;/strong&gt;, afirma. Ao fim de 6 meses, os praticantes ficam &lt;strong&gt;“fascinados com a flexibilidade que ganham, dormem melhor e adoecem menos”&lt;/strong&gt;. E a evolução é permanente e ilimitada. &lt;strong&gt;“O Yoga não tem limites, ou seja, podemos evoluir até ao infinito. Há sempre mais um pequeno passo pela frente, mais uma coisa para aprimorar”&lt;/strong&gt;, até à suprema consciência.&lt;br /&gt;Tudo o que se aprende no Yoga não fica circunscrito ao &lt;em&gt;áshrama&lt;/em&gt; podendo, e devendo, ser aplicado no quotidiano. &lt;strong&gt;“Somos profundamente não teóricos. O Yoga ensina-nos, por exemplo, a respirar e a alimentar-nos melhor e aplicamos isso no dia-a-dia”&lt;/strong&gt;, especifica Paulo Carvalho. No entanto, e porque a linhagem o Yoga que ensina é &lt;strong&gt;“não repressora”&lt;/strong&gt;, o praticante é livre de comer e fazer o que quiser. A mudança, no entanto, acaba por ser uma consequência e não um requisito. &lt;strong&gt;“À medida que se pratica o Yoga e querendo extrair dele resultados mais profundos, o praticante desenvolve uma maior sensibilidade”&lt;/strong&gt; e muda por ele próprio. Paulo dá o seu próprio exemplo: &lt;strong&gt;“desde que não como carne, sinto muito mais flexibilidade. E se respirar correctamente, tenho muito mais energia, e isso traz-me resultados concretos e mais sólidos”&lt;/strong&gt;. A purificação do corpo é uma condição para atingir patamares elevados no Yoga.&lt;br /&gt;O Yoga que Paulo Carvalho pratica, ensina e que aprende com o grande mestre Jorge Veiga e Castro, na Associação Lusa do Yoga, é o Yoga &lt;em&gt;sámkhya&lt;/em&gt; – o Yoga total, primordial, que remonta há 6000 anos, quando foi desenvolvido na Índia. &lt;strong&gt;“Ao longo da sua história, o Yoga tem vindo a desmembrar-se e, portanto, a perder potência”&lt;/strong&gt;, explica Paulo Carvalho. Como resultado, têm surgido diversas escolas que ensinam apenas uma parte desse grande todo que deveria ser o Yoga.&lt;br /&gt;O Yoga &lt;em&gt;sámkhya&lt;/em&gt;, por seu lado, inclui todas as 12 disciplinas técnicas que integram, entre outras, &lt;strong&gt;“posições psico-biofísicas, exercícios respiratórios, de relaxamento e de meditação”&lt;/strong&gt;, tudo ensinado ao mesmo tempo. &lt;strong&gt;“Todas as técnicas devem ser ministradas numa só aula porque cada uma vai actuar num campo específico da nossa componente humana”&lt;/strong&gt;, justifica.&lt;br /&gt;Foi esse o Yoga que Paulo Carvalho descobriu em Sesimbra &lt;strong&gt;“por acaso”&lt;/strong&gt;. &lt;strong&gt;“Fiquei fascinado e tive logo a certeza que era isso que queria fazer o resto da vida”&lt;/strong&gt;, confessa. Pouco depois, a sua dedicação foi reconhecida por esse primeiro professor, que acabou por conduzi-lo para o seu próprio mestre, Jorge Veiga e Castro, que, por sua vez, tinha já também uma ligação a Sesimbra, onde começou a ensinar Yoga há 35 anos.&lt;br /&gt;De mero praticante, Paulo Carvalho passou a formando e, neste momento, frequenta o curso superior do Yoga, com duração total de 14 anos, sendo que, neste momento, apenas quatro o separam do título de Mestre. Entretanto é também professor de instrutores que, por sua vez, dão aulas a praticantes. &lt;strong&gt;“Funciona segundo o modelo cósmico, com o sol, os planetas, os satélites naturais; o mestre é o centro de tudo e o elemento mais importante”&lt;/strong&gt; explica.&lt;br /&gt;A proposta do Yoga é desenvolver o ser humano como um todo e em harmonia com tudo o que o rodeia: &lt;strong&gt;“como somos um ser complexo e completo, o Yoga que praticamos deve também ser complexo e completo”&lt;/strong&gt;, diz Paulo Carvalho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vanessa Pereira&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;a href="http://yogasesimbra.blogspot.com/"&gt;Conheça aqui o centro de yoga de Sesimbra&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Versão integral do trabalho sobre Yoga incluído na edição de Março da Magazine Reportagem, dedicada à saúde e bem-estar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-1554346109331939566?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/1554346109331939566/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=1554346109331939566' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1554346109331939566'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1554346109331939566'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/03/o-cosmos-em-mim.html' title='O cosmos em mim'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/ScI1mcJFDpI/AAAAAAAAAGM/95nlxKH3H7E/s72-c/3_Foto_Paulo_Carvalho_600.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-3121180450249349298</id><published>2009-03-19T04:13:00.001-07:00</published><updated>2009-03-19T04:19:47.571-07:00</updated><title type='text'>O Jorge emprestou-me este livro... extraordinário</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/ScIpRzoEU_I/AAAAAAAAAGE/js5xP8fYd4o/s1600-h/16649.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5314855896143385586" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 100px; CURSOR: hand; HEIGHT: 150px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/ScIpRzoEU_I/AAAAAAAAAGE/js5xP8fYd4o/s400/16649.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;«U omãi que dava pulus era 1 omãi qe dava pulus grãdes. El pulô tantu qe saiu pêlo tôpu.»&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;A Noite e o Riso&lt;/em&gt;, Nuno Bragança&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-3121180450249349298?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/3121180450249349298/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=3121180450249349298' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3121180450249349298'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3121180450249349298'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/03/o-jorge-emprestou-me-este-livro.html' title='O Jorge emprestou-me este livro... extraordinário'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/ScIpRzoEU_I/AAAAAAAAAGE/js5xP8fYd4o/s72-c/16649.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-1454644307303301712</id><published>2009-03-12T05:01:00.000-07:00</published><updated>2009-03-12T05:06:24.924-07:00</updated><title type='text'>Uma história normal</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sbj6sk9tiUI/AAAAAAAAAF8/1BGws_gK71I/s1600-h/1073073_them_two.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5312271404227201346" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 100px; CURSOR: hand; HEIGHT: 57px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sbj6sk9tiUI/AAAAAAAAAF8/1BGws_gK71I/s400/1073073_them_two.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Foi uma série de acontecimentos que criou o nosso casual encontro. É certo e sabido que todos os encontros desta vida, das que foram e das que serão, resultam duma série particular de acontecimentos que se encadeiam de tal forma que conduzem a um único desfecho. Mas o nosso, certamente porque foi nosso, e estava cheio de improbabilidades, foi mesmo puramente casual.&lt;br /&gt;Não foi por causa da chuva que massacrou aquele dia caindo de potes cinzentos lá do alto, pois até podia ter feito um céu luminoso e primaveril.&lt;br /&gt;Também não foi por estar junto ao balcão de bar da colectividade que me servia de encosto improvisado enquanto assistia de perto à agitação do baile de máscaras e enrolava nos dedos uma garrafa de água, porque bem poderia estar lá no meio da confusão, onde, assistidos por umas cervejas, todos eram menos eles próprios e mais uma outra personagem que inventaram para se encobrir naquela noite.&lt;br /&gt;Nesse dia, a maré estava cheia com as ondas a rebentarem fortemente contra o muro da praia mas até poderia estar na hora da baixa-mar que nos obriga a entrar vários metros dentro do oceano até que a água atinja a cintura.&lt;br /&gt;A noite estava escura como breu e fria, mas o sol até poderia romper a meia-noite.&lt;br /&gt;Afinal há muitos acasos como o nosso que nascem no carnaval. Mas também não foi o entrudo, pois bem poderia ter sido na quaresma.&lt;br /&gt;Nem sequer foi o facto de eu estar predisposta para não desarmar aquele teu olhar incómodo, porque naquele momento sentia-me disposta a tudo e preparada para nada.&lt;br /&gt;Olhando agora para trás, para esse momento, sei que o mundo até poderia estar virado do avesso porque tudo aconteceria exactamente da mesma forma e com uma normalidade perturbante para quem, como eu, não estava habituada a estes arrebatamentos. Histórias destas só cabiam, até aí, dentro da película de filmes melosamente românticos, que nunca me conquistaram e ainda hoje raramente me emocionam, com trituradores de pipocas como banda sonora.&lt;br /&gt;Não foi o tempo, nem o espaço, nem nada do que se pudesse passar em redor que proporcionou o nosso encontro.&lt;br /&gt;Bastou existirmos, como qualquer outra pessoa ou qualquer outra daquelas máscaras besuntadas e suadas, de palhaços garridos, pierrots contentes, matrafonas machonas enredadas em saias minúsculas que deixavam ver as curtas ceroulas, homens barrigudos femininos de fartos bigodes pintados sobre finos buços, bailarinas peludas e freiras despudoradas. Uma fauna impossível de encontrar e misturar em plena farra noutra altura do ano.&lt;br /&gt;O carnaval proporciona muitas histórias e a nossa não é, por isso, diferente de muitas. É certo que algumas dessas morrem quando caem as máscaras e se limpam as pinturas, outras definham lentamente até à estocada final e outras ainda permanecem intactas, sobrevivendo a todos os embates. A nossa história é deste último tipo. E, além disso, é nossa. É tão normal e consistentemente nossa, que recordo com precisão, e era capaz de reproduzir com minúcia, tudo o que se passou nos dias que se seguiram àquela noite. Num dos cafés que depois aconteceram, em que trocámos palavras e silêncios que são tão pesados e constrangedores no início de qualquer história, abrimos banalmente um jornal e escolhemos um filme pelo menor número de estrelas que os críticos lhe atribuíam. Começámos aí a descobrir as vincadas e abissais diferenças que nos separavam. Eu prefiro filmes que me façam pensar e tu aqueles que te façam esquecer. Mas nesse dia, o tema ou o título da película escolhida, sempre imbecilmente mal traduzido para português, não foram importantes porque o abraço que trocámos no escuro encheu-nos de felicidade e duma enorme vontade de sair, de andar, de gritar, de partilhar com todos aquilo que nos unia. Julgo que é assim que estas coisas começam. Nada de novo neste nosso lado do mundo. Éramos nós deste lado e todos os outros do outro. Aquilo que delimitava um e outro mundo era, no entanto, uma linha ténue que devíamos ultrapassar sempre que regressávamos às nossas casas ou nos separávamos para seguir caminhos opostos rumo às aulas: eu para letras, tu para ciências.&lt;br /&gt;Surgiu, como seria de esperar, o primeiro desentendimento, que teve como rastilho algo que não queria dizer e que, na verdade, não deveria ter dito. Pela primeira vez as nossas diferenças pareceram afastar-nos mais do que aquilo que sempre nos uniram. Porque o meu mundo é feito de frases e o teu de contas. Porque aquilo que para ti é ganho, muitas vezes para mim era perda. Porque começavas a ler uma revista do fim para o princípio e eu do princípio para o fim. Porque amanhas o peixe todo antes de o comer e eu gosto de o ir comendo enquanto lhe separo a carne das espinhas. Porque arrumas os livros por temas e correntes e eu por ordem alfabética.&lt;br /&gt;Expostas as divergências, caímos em nós e voltámos a abraçar-nos como naquela primeira vez, no escuro do cinema, frente a um enorme ecrã onde passava um filme, do qual continuo a não me lembrar do nome, e recuperámos o nosso mundo único que reacendeu a vontade de querer ser partilhado.&lt;br /&gt;Nessa altura, ultrapassámos a ténue fronteira e ao invés de bichanar, ousámos falar em voz alta da felicidade que nos unia.&lt;br /&gt;Mas quando o fizemos tivemos de lhe chamar história e não relação.&lt;br /&gt;Não pudemos falar de amor mas de encontro e descoberta.&lt;br /&gt;Não somos namoradas mas sim companheiras.&lt;br /&gt;E não nos deixam casar porque casamento é palavra que nos é vedada do vocabulário e na qual não podemos tocar, nem em sonhos.&lt;br /&gt;Entretanto deixámos de apreciar as nossas diferenças porque não cessaram de nos mostrar o quão iguais somos. Impõem-nos que a nossa semelhança nos separe mais que as nossas diferenças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;Vanessa Pereira&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Jornal de Sesimbra, Fevereiro de 2009&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-1454644307303301712?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/1454644307303301712/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=1454644307303301712' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1454644307303301712'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1454644307303301712'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/03/uma-historia-normal.html' title='Uma história normal'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sbj6sk9tiUI/AAAAAAAAAF8/1BGws_gK71I/s72-c/1073073_them_two.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-2955359649770893832</id><published>2009-03-09T10:55:00.001-07:00</published><updated>2009-03-09T10:57:46.215-07:00</updated><title type='text'>Há dias que não deveriam existir</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SbVYdz1MsoI/AAAAAAAAAF0/aN86iOxjPX4/s1600-h/bill+2008.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5311248604706157186" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 300px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SbVYdz1MsoI/AAAAAAAAAF0/aN86iOxjPX4/s400/bill+2008.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Adeus&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-2955359649770893832?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/2955359649770893832/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=2955359649770893832' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/2955359649770893832'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/2955359649770893832'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/03/ha-dias-que-nao-deveriam-existir.html' title='Há dias que não deveriam existir'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SbVYdz1MsoI/AAAAAAAAAF0/aN86iOxjPX4/s72-c/bill+2008.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-2555646263036367654</id><published>2009-03-03T10:07:00.000-08:00</published><updated>2009-03-03T10:18:12.012-08:00</updated><title type='text'>O negro da capa verte para as páginas brancas do livro</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sa1yoNUKeaI/AAAAAAAAAFs/azx3ngMh1Yk/s1600-h/Jerusalem.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309025570834250146" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 207px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sa1yoNUKeaI/AAAAAAAAAFs/azx3ngMh1Yk/s320/Jerusalem.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-2555646263036367654?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/2555646263036367654/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=2555646263036367654' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/2555646263036367654'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/2555646263036367654'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/03/o-negro-da-capa-verte-para-as-paginas.html' title='O negro da capa verte para as páginas brancas do livro'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/Sa1yoNUKeaI/AAAAAAAAAFs/azx3ngMh1Yk/s72-c/Jerusalem.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-5083822767878758094</id><published>2009-03-01T12:19:00.000-08:00</published><updated>2009-03-01T12:39:03.828-08:00</updated><title type='text'>Não te esqueças que és um palhaço</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SaruvKxiALI/AAAAAAAAAFk/YyyoV-O8Bjg/s1600-h/MR+07+-+FEVEREIRO+2009+baixa1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 277px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SaruvKxiALI/AAAAAAAAAFk/YyyoV-O8Bjg/s320/MR+07+-+FEVEREIRO+2009+baixa1.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5308317604922917042" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="color: rgb(51, 51, 51);   font-family:'Trebuchet MS';font-size:13px;"&gt;&lt;p style="text-align: center;margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;Foto: Rui Miguel Cunh&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;a&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Todos os anos, eles saem à rua, com dia e hora marcada. São aos magotes. E nem a acusação de &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“ladrão de mulher”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, como diz a marcha carnavalesca, os dissuade. Pelo contrário. A cada ano que passa, multiplicam-se. E as ruas cinzentas de Sesimbra ganham um colorido nunca visto no resto do ano. Um único objectivo junta ali tanta gente: a palhaçada. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Não há ano em que as pessoas não se mascarem de palhaço. Pinta-se o rosto e isso transforma-nos. Toda a gente se diverte, mesmo que o mundo esteja a desmoronar à nossa volta”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, diz Maria de Jesus Aldeia, 55 anos. Para trás ficam as tristezas que não pagam dívidas. E como diz o tema do brasileiro Nelson Cavaquinho &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Não te esqueças que és um palhaço. Faça a plateia gargalhar. Um palhaço não deve chorar&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;”.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; min-height: 14px; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;O desfile de palhaços na vila de Sesimbra, iniciativa inédita no país, nasceu em 1999, pretendendo &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“congregar toda a família sesimbrense em torno de uma fantasia querida por todos; o palhaço”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, anunciava um folheto de divulgação. A surpresa foi total quando o evento organizado &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“a 15 dias do Carnaval, conseguiu reunir cerca de 350 fantasiados de todas as idades”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;. Afinal havia um palhaço a pulsar dentro de cada um e bastou criar a oportunidade para que o pudessem exteriorizar. Como conclui Ana Sofia Oliveira, 27 anos, &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“inconscientemente todos somos um bocadinho palhaços”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“E ainda bem que assim é. Significa que todos temos alguma alegria dentro de nós”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, conclui a jovem engenheira do ambiente. Talvez por isso, desde essa primeira experiência, o total de participantes tem aumentado e hoje já são aos milhares os palhaços que enchem as ruas da vila na segunda-feira de Carnaval.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Quando idealizámos a iniciativa, pretendíamos, precisamente, aproveitar esse dia morto. E pensámos na fantasia de palhaço por ser simples, fácil de arranjar e com poucos custos, ou seja, acessível a toda a gente”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, recorda Paulo Soromenho. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“E, além disso, o palhaço é uma figura simpática.”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; Desde o primeiro momento que a ideia motivou a cobertura televisiva. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“A ideia inicial era ter uma fantasia por ano”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, mas o sucesso dos palhaços desmotivou a intenção. Inspirados no bloco carnavalesco oriundo do Rio de Janeiro, Brasil, ‘Bloco Simpatia Quase Amor’, o grupo de amigos que conseguiu soltar o palhaço que existe em cada um, denominou o corso de ‘Bloco Simpatia - Os Palhaços’. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Porque a mensagem era precisamente essa: transmitir alegria e amor às pessoas.”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Apesar de já não integrar a organização do evento, Paulo Soromenho continua a participar no corso como mero palhaço de ocasião e é mais um no meio de tantos outros. Mas o divertimento, assegura, é garantido, e está muito relacionado com &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“a dinâmica do seu grupo de amigos”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; que nesse dia se juntam para participar no desfile. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Talvez não seja exemplo, mas quando o corso termina é já tradicional a corrida de descida da rampa de acesso à praia num carrinho de compras dum supermercado”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, confessa. Neste arriscado exercício, é acompanhado por Carlos Macedo, 31 anos, que se assume &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“mais parvo e desastrado”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; na versão palhaço. Esta fantasia, diz, permite a transformação de todos em seres &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“vagos e idiotas, sem receio do ridículo, indiferentes aos olhos reprovadores da sociedade”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;. Afinal de contas, uma boa parte da “sociedade” está também na rua de cabeleira colorida, sapatos vários números acima, cara borratada e, claro, o nariz redondo e vermelho.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Esta é uma oportunidade de todos poderem brincar ao Carnaval”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, acrescenta Paulo Soromenho. Muitas pessoas, sobretudo mais velhas e que consideravam já estar fora de prazo para estas tropelias, deixam-se agora levar pela animação contagiante. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Por um lado, muita gente passou a acreditar que ainda se podia divertir; por outro, cheguei a encontrar pessoas que vinham do norte só para se juntarem ao desfile”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, recorda. De todas as idades, de vários pontos do país, com os mais diferentes interesses e profissões, milhares de pessoas unem-se sob o disfarce do palhaço. E esta participação é já, para muitos, uma tradição que se cumpre religiosamente, sabendo de antemão que a gargalhada está garantida. Não se trata de optar. É assim porque é.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Mas afinal há alguém que nunca se tenha mascarado de palhaço?! Nem sei bem porquê, mas desde que me mascaro que a fantasia do palhaço não pode faltar. Curiosamente é com essa máscara que me divirto mais”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, diz Raquel Pereira, 22 anos. Também para Débora Alface, esta é a fantasia &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“favorita”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, mas nem sempre foi assim. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Em criança tinha um trauma com o fato de palhaço. A minha mãe obrigou-me, durante anos, a vestir a mesma fantasia. Eu cresci, mas o fato manteve-se, até as calças ficarem calções”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, recorda como piada. E hoje, é ela própria que se obriga a envergar a fantasia. E entre as inúmeras palhaçadas em que se mete, assume-se uma palhaça-maestrina &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“organizando uma orquestra de palhaças”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, capazes de desarmonizar a desafinação de tambores e cornetas. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Coisas de Carnaval...”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, remata.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Rui Macedo, 27 anos, também não dispensa os acessórios e quando mais barulhentos, melhor. Indispensável é também a cabeleira. Não é uma questão de cor ou de corte, mas sim de estilo. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Não dispenso a minha cabeleira calva. Sempre sonhei ser um palhaço careca”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, diz. São gostos. Já diz a marcha que &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“é dos carecas que elas gostam mais”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;. Na versão palhaço, este técnico de turismo sente-se igual ao resto dos dias mas &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“com nariz de batata vermelho”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;. O que não é coisa pouca. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Sinto-me um bocado parvo nessa versão, mas isso também faz parte do meu dia-a-dia. Para se ser palhaço há que saber, antes de mais, ser-se parvo”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;. Logo depois, claro, o pormenor de classe: &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“palhaço que se preze... tem mesmo de ter cabeleira careca”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Tamanha adesão despertou nos organizadores do desfile o desejo, nunca cumprido, de imprimir a iniciativa no livro &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;guiness&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; dos recordes. O processo afirmou-se, no entanto, demasiado complicado e pouco acessível e a vontade esmoreceu. Podem não conseguir afirmar-se como os mais numerosos, mas são os maiores, pois como afirma, peremptoriamente, Ana Raquel Lourenço &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“todos os palhaços são grandes palhaços”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;. E a edição de 2008 do desfile levou para a rua mais de dois mil palhaços. É uma enchente de &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“figuras que transmitem uma enorme alegria, sobretudo às crianças”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; como sublinha a estudante de enfermagem, Daniela Pisa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Em grupos, de amigos, de familiares, ou de conhecidos, os palhaços vão engrossando o corso. Mais do que a publicidade, a divulgação do evento passa em grande parte pelo boca-a-boca. Artur Zegre, 26 anos, mascara-se de palhaço para &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“acompanhar amigos”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; e apesar de reconhecer que o que define um bom palhaço é a sua capacidade de &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“fazer rir as pessoas”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; a figura representa &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“tristeza”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Muitas vezes os palhaços, sobretudo mais ligados ao circo e não tanto os que surgem no contexto do Carnaval, parecem personagens tristes”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, concorda Susana Zurga.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Mais do que caricatura, o palhaço é o enganador e o enganado, sempre sujeito às mais diversas peripécias, das quais se desenvencilha com graça. Para Maria de Jesus Aldeia, é importante conseguir recuperar a alegria de participar num enorme corso de palhaço. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“As pessoas deviam conseguir desinibir-se, porque o palhaço é isso”,&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; e não apenas deixar-se levar pela enxurrada de cores e narizes vermelhos que bamboleiam ao som duma aparelhagem. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Duma forma geral, cada vez menos o palhaço consegue fazer rir. Ele tem de sentir alegria para fazer rir”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, acrescenta. O problema não está nas crianças, hoje em dia talvez mais despertas para outro tipo de animação. &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“O problema está no palhaço, porque a criança ri das coisas mais simples.”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px; "&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Não te esqueças que és um palhaço &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;- acrescentaria Nelson Cavaquinho - &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“Faça a plateia gargalhar. Um palhaço não deve chorar&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;”&lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; text-align: justify; font: normal normal normal 12px/normal Arial; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: bold;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-5083822767878758094?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/5083822767878758094/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=5083822767878758094' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/5083822767878758094'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/5083822767878758094'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/03/nao-te-esquecas-que-es-um-palhaco.html' title='Não te esqueças que és um palhaço'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SaruvKxiALI/AAAAAAAAAFk/YyyoV-O8Bjg/s72-c/MR+07+-+FEVEREIRO+2009+baixa1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-7843393955669702649</id><published>2009-02-06T08:02:00.000-08:00</published><updated>2009-02-06T08:26:29.043-08:00</updated><title type='text'>De costas voltadas</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SYxknu0m28I/AAAAAAAAAFU/QE2u_6WVe24/s1600-h/1133789_texture_054.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5299721495254588354" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; CURSOR: hand; HEIGHT: 220px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SYxknu0m28I/AAAAAAAAAFU/QE2u_6WVe24/s320/1133789_texture_054.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim que se levantava da cama, afastava para o lado os cortinados, desajustados à janela, pesados para o espaço e despudoradamente coçados nas pontas, para deixar a vista espraiar-se pelo mar que se estendia diante da sua janela, ao mesmo tempo que esticava os braços e as pernas, espreguiçando para longe o torpor do sono. Atribuía a visão límpida e primorosa, que o passar dos anos deixara incólume, a este exercício diário e quase constante, de ter tanto mar para olhar diante de si. O mesmo mar de que sempre dependeu. E que com a mesma leviandade e quase displicência com que lhe trazia o alimento, um dia desenrolou na sua espuma a notícia dum naufrágio que a deixou viúva.&lt;br /&gt;Vestida de negro, amarra o cabelo sob um lenço que ata debaixo do queixo amolecido e rugoso. O peso da idade está-lhe cravado na face, vincado em cada dobra de pele flácida, seca pelo sol de muitos anos e pelo ar agreste que sopra do mar e carrega consigo a salmoura que abarca no caminho, e que deixa marcas distintas de erosão nos habitantes da pequena vila, sem excepção. A mulher sente na boca o gosto a maresia que é obrigada a inspirar e que por vezes lhe entra em golfadas pelas narinas e pela boca adentro, sem sequer conseguir mastigá-lo. É esse sabor salgado que tempera as palavras, escassas, e quase rudes, que homens e mulheres do mar trocam entre si, tanto em terra firme como em mar alto. O oceano tem essa influência; empurra as pessoas para o interior de si próprias, enxuga-lhes a vontade de exteriorizar dores e alegrias e seca-lhes as ambições, movendo-as apenas no sentido da próxima pescaria, que tem de ser melhor que a anterior. Sempre melhor que a anterior. E o mais proveitosa possível, porque ninguém sabe o que lhe reserva o dia seguinte. Os humores do mar nunca se compadeceram com as necessidades sentidas em terra. E apesar da fartura de peixe, que arrasta atrás dos barcos, no seu regresso, um conjunto alargado de gaivotas até ao porto de abrigo, muitas vezes, os vendavais não permitem que as embarcações se façam ao mar. Nessas alturas, que por vezes se demoram mais do que os estômagos acham que podem aguentar, os olhos fixam-se no horizonte, e expõe-se a face à brisa para perceber o sentido do vento e o grau de humidade, enquanto se acompanha o ciclo lunar.&lt;br /&gt;A neta costumava dizer-lhe que à medida que as pessoas envelhecem tornam-se parecidas com os peixes, fruto da proximidade e influência do mar. De olhos grandes e aguados, com as mãos escamosas do trabalho duro, a mulher sente-se a chegar ao fim dessa mutação que não lhe deu descanso a vida inteira. E a isso não pode fugir. Nem mesmo que quisesse. O mar cercava-lhe o olhar e aprisionava-lhe os movimentos e a vontade de evasão, que, na realidade, não sentia, devido ao efeito que a gravidade marítima exercia sobre si.&lt;br /&gt;Por isso, estranhou tanto quando naquela manhã, ao abrir, a custo, os olhos ainda colados do sono, viu sobre a mesinha de cabeceira, o copo de água, a três quartos, tapado com um pequeno guardanapo de pano, debruado a renda cor-de-rosa pálido, como o tinha deixado no dia anterior à noite. Ao lado, o pequeno candeeiro e uma fotografia da mãe, que lhe retornava, como ontem e anteontem, a mesma imagem sépia e desbotada da progenitora que não tinha conhecido. Pela primeira vez, desde que tinha consciência, acordava virada para o interior do quarto, onde estava a mesinha de cabeceira, e de costas para a janela e para o mar.&lt;br /&gt;Há uns tempos, tinha visto a tranquilidade do seu sono interrompida por um pesadelo semelhante, cujo final não conseguiu reconstituir no dia seguinte e do qual nunca mais se recordou. Quando despertou, no entanto, tudo estava dentro da normalidade, com o reflexo do sol no mar a entrar-lhe pelo quarto adentro. Mesmo assim, preocupada com a perspectiva de o mundo se ter virado ao contrário durante a noite, levantou-se de um repente e, nunca fiando, tratou logo de se certificar que o mar e tudo em seu redor estavam no mesmo sítio.&lt;br /&gt;Neste dia, no entanto, algo de diferente se passava. O pesadelo não tinha fim. Não se dava o caso de não se recordar do desfecho. Simplesmente, só havia continuação. Ao contrário do que acontece nos sonhos, a mulher sentia o tempo a passar, o corpo ressentia-se de permanecer deitado mais do que o habitual e uma luz ténue e difusa, que se diferenciava do luar nocturno, penetrava no quarto. Demorou a perceber mas estava, de facto, acordada. De costas para a janela.&lt;br /&gt;Levantou-se tão repentinamente quanto a avançada idade e a falta de agilidade lhe permitiam. Tacteou com os pés o chão frio, até perceber que os chinelos permaneciam, como sempre, no lado contrário da cama. Estavam do lado da janela e ela, virada para a mesinha de cabeceira, para o copo de água a três quartos, para a fotografia da mãe, para o interior do quarto. A medo, com passo comedido, a mulher deu a volta à cama, aproximou-se da janela e o seu olhar, tão habituado a deleitar-se com uma enorme extensão de mar, chocou contra uma parede branca. Tão branca que, por momentos, a deixou confundida e atordoada.&lt;br /&gt;O horizonte azul que se habituara a encontrar, vinha sendo reduzido à medida que a vila crescia e o casario se estendia baía acima. Mas nada lhe permitira, no entanto, adivinhar que um dia alguém plantaria, entre ela e o mar, uma parede de betão branca. Desde então, a mulher, bem como todos os restantes habitantes da vila, começaram a viver da mesma forma que acordavam: de costas voltadas para o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Vanessa Pereira&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;strong&gt;Publicado no Jornal de Sesimbra (Janeiro de 2009)&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-7843393955669702649?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/7843393955669702649/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=7843393955669702649' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7843393955669702649'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/7843393955669702649'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/02/de-costas-voltadas.html' title='De costas voltadas'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SYxknu0m28I/AAAAAAAAAFU/QE2u_6WVe24/s72-c/1133789_texture_054.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-1931718508819505365</id><published>2009-02-04T08:30:00.000-08:00</published><updated>2009-02-04T08:37:43.870-08:00</updated><title type='text'>O que se leu... até esta manhã (e agora o que faço na viagem de regresso no comboio?)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;«Agora entendia que Raul lhe tivesse medo. Agarrava-se às suas porcelanas azuis e passava horas a limpá-las e a mudá-las de lugar. Camila só queria que elas não se escacassem um dia, por qualquer motivo, porque houvesse um terramoto ou as estantes caíssem.&lt;br /&gt;- Porque é que se hão-de partir?&lt;br /&gt;- Porque são de partir. Devias ter coleccionado coisas mais duras. Soldadinhos de chumbo, era bonito.&lt;br /&gt;- Se a casa ardesse eles derretiam.&lt;br /&gt;Ela sentiu que não podia amar um homem tão condescendente com a vulnerabilidade de tudo. Não tinha fé verdadeira, nunca inventara um pseudónimo.»&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;strong&gt;Jóia de Família, Agustina Bessa-Luís&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-1931718508819505365?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/1931718508819505365/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=1931718508819505365' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1931718508819505365'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1931718508819505365'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/02/o-que-se-leu-ate-esta-manha-e-agora-o.html' title='O que se leu... até esta manhã (e agora o que faço na viagem de regresso no comboio?)'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-3813948852529089880</id><published>2009-01-30T08:45:00.000-08:00</published><updated>2009-01-30T08:53:08.571-08:00</updated><title type='text'>O que se lê</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SYMwajYgOXI/AAAAAAAAAFM/YnmeatR5LaQ/s1600-h/Agustina.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5297130819450583410" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 100px; CURSOR: hand; HEIGHT: 125px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SYMwajYgOXI/AAAAAAAAAFM/YnmeatR5LaQ/s200/Agustina.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;«Os grandes líderes não exprimem a sua vontade, como se pensa, mas adaptam-se à vontade profunda dos povos a quem dão argumentos que completam com decisões próprias.»&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Jóia de Família&lt;/em&gt;, Agustina Bessa-Luís, p. 246 &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-3813948852529089880?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/3813948852529089880/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=3813948852529089880' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3813948852529089880'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3813948852529089880'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/01/o-que-se-le.html' title='O que se lê'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SYMwajYgOXI/AAAAAAAAAFM/YnmeatR5LaQ/s72-c/Agustina.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-3128975066392966959</id><published>2009-01-28T09:44:00.000-08:00</published><updated>2009-01-30T06:43:45.337-08:00</updated><title type='text'>Sem Medo de Viver</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SYCagspleCI/AAAAAAAAAFE/ru2bvvEHPxg/s1600-h/MR+06+-+JANEIRO+2009.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5296403048319776802" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 277px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SYCagspleCI/AAAAAAAAAFE/ru2bvvEHPxg/s320/MR+06+-+JANEIRO+2009.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;strong&gt; Foto: Rui Miguel Cunha&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O que fui já pouco diz sobre mim e, além do mais, isso pouco importa. Agora sou reformado e essa condição é capaz de me reduzir a uma pálida imagem daquilo que alguma vez fui, independentemente do muito que ficou para trás.&lt;br /&gt;Há uns anos, quando avançava a idade, quase sempre ouvia de volta admirações sobre o meu bom estado de conservação. Hoje, enumerar os anos vividos apenas denuncia a minha inutilidade para os outros, agora que sinto que não contribuo com nada. Esta inutilidade também me pesa a mim próprio. O corpo já não responde como outrora. As ideias desordenam-se-me. As lembranças e as memórias baralham-se.&lt;br /&gt;Logo agora que tenho um dia inteiro pela frente todas as manhãs, sem compromissos agendados, sem nada por que esperar. E aquilo que ainda me espera, e que nos espera a todos, afinal, não pode impedir-me de continuar a seguir o meu caminho. Mesmo quando, segundo as leis da vida, o fim está próximo. Ou não. Não importa. Mais importante do que esse ponto de chegada, é a forma de lá chegar. É nesse ponto do trilho que me encontro. Mas encontrar-me neste mundo tão diferente e estranho não é tarefa simples.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Guilherme Simões, que já ultrapassou os 60 anos, barbeiro à antiga, como já se encontram poucos, concorda que, enquanto antigamente os &lt;strong&gt;“homens iam ao barbeiro para conversar”&lt;/strong&gt;, tal como as mulheres faziam quando se encontravam nos rios para lavar a roupa, agora &lt;strong&gt;“as conversas trocadas com os clientes vão escasseando”&lt;/strong&gt;. &lt;strong&gt;“As pessoas não se conhecem. Nem eu próprio as conheço.”&lt;/strong&gt; Há hoje demasiados anónimos onde antes havia muitos conhecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A aldeia, a terra, o mundo estão diferentes. Cada vez mais mudados e de forma mais rápida. As pernas já não lhes permitem correr atrás, mas ficar parado não é solução. No jardim, pela manhã, vejo passar pessoas atarefadas que correm. Para algum lado, atrás de alguém ou de alguma coisa. Correm atrás duma vida que se desembrulha depressa demais à sua frente. Como aquelas escadas e tapetes rolantes que agora se usam em todo o lado e que ajudam as pessoas a apanhar o tempo um pouco mais adiante. Noutros dias, sento-me a olhar o mar tão amplo que parece amparar tudo aquilo.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por ali anda também Francisco Brazinha, que já foi carpinteiro naval, mas que não consegue descolar-se do ofício. Porque a idade não pode determinar a altura de parar quando o corpo diz que se pode continuar. Porque a magra reforma não permite o descanso. O trabalho, outrora abundante, num país virado para o mar, resume-se agora a biscates de ocasião.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Estamos velhos”&lt;/strong&gt;, lamenta-se. Os barcos estão a mudar, a profissão não tem futuro. Mas sempre que a oportunidade aparece, Francisco mete mãos à obra. Talvez umas mãos menos seguras, menos possantes, mas sempre calejadas. &lt;strong&gt;“Quando termino cada trabalho, vou para casa, ou sentar-me no jardim.”&lt;/strong&gt; Mas só até ao próximo biscate.&lt;br /&gt;Já para o irmão, Justiniano Nunes, calafate de profissão, o jardim não é local de descanso ou de passagem. &lt;strong&gt;“Não vou porque não gosto. Venho para aqui, mesmo que não faça nada”&lt;/strong&gt;, assegura-me enquanto mete estopa nas juntas de madeira duma velha aiola. &lt;strong&gt;“A arte do calafate é isto”&lt;/strong&gt;, mostra. Como se fosse algo menor ou apenas a arte à qual dedicou toda a vida percorrendo estaleiros um pouco por todo o país. Agora vale-lhe pouco, é certo. Mas Justiniano já passou o testemunho.&lt;br /&gt;Ensinou o ofício a um jovem e, pelo menos enquanto ainda restarem barcos de madeira, a profissão será capaz de sobreviver neste estaleiro. Pelas mãos e herança deixada pelo Justiniano que se recusa a descansar no banco do jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O regresso a casa também não é um alento para mim. Quando abro a porta, tudo está como deixei. A casa tem menos vida, menos gente, guardando apenas os cheiros e as imagens antigas, de vidas passadas que têm uma ténue presença no presente como se não tivesse havido uma evolução até aqui, mas como se nesse percurso algo se tivesse, inevitavelmente, perdido.&lt;br /&gt;Quando olho para trás, não consigo perceber onde foi cortada a linha que dava continuidade àquilo tudo. Mas a vida não permite, nem está para recordações bafientas ou perfumadas de naftalina. Há tanto guardado, tantas experiências encerradas em mim e nos outros, tantos saberes, tantos ditos que não são ditos, tanta coisa interessante pela qual ninguém parece interessar-se. Porque ninguém está preparado para ouvir ou entender e muito menos para perpetuar coisas antigas ou... velhas.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armindo Marques, 73 anos, dedica-se ainda ao ofício de ferreiro, em vias de extinção, no qual se empenha, apesar do esquecimento e desconhecimento a que a arte está votada. &lt;strong&gt;“Isto é mais para estar entretido”&lt;/strong&gt;, justifica-se. Quando se reformou já não havia ferreiros, mas tinha ferramentas para afiar e arranjar e alguns amigos para &lt;strong&gt;“desenrascar”&lt;/strong&gt;. A arte ali permanecerá, enquanto Armindo quiser, e ao sabor da chama da forja ateada.&lt;br /&gt;Também as terras de Maria Emília Pinhal e Domingos Marçal Caiado, agricultores que já ultrapassaram a barreira dos 70 anos, continuarão a ser cultivadas enquanto eles tiverem forças. Se antes ainda vendiam alguns dos alimentos que produziam, agora as couves, batatas e afins restringem-se ao consumo próprio. &lt;strong&gt;“A vida já não dá. Estou velha e já não posso”&lt;/strong&gt;, diz Emília com uma franqueza desarmante. Igualmente evidente é a sua força, a sua vontade e a rijeza de mulher, habituada desde sempre a uma vida dura de trabalho, que só quebrará quando tiver mesmo que ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Recordo assim também a minha mulher, forte, dinâmica, sempre pronta a ajudar. Talvez até mais do que devia, ou do que efectivamente podia. Visito-a todas as semanas, às vezes mais do que uma vez por semana, num lar, e afundo-me numa profunda saudade quando olho em silêncio para aquela que é hoje uma fraca imagem do que foi, sem o cheiro, sem o encanto, sem o olhar, sem o jeito especial que conheci. Ela está ali, tenuemente ali, mas não está. Tal como eu. Mas eu incomodo-me com o ruído metálico que sai duma televisão mal sintonizada no meio da sala. E ela não.&lt;br /&gt;Antes de lá ir, não descanso com vontade de lá estar, junto a ela, como se chegasse a um porto de abrigo. E ali fico horas a falar, sobre tudo e sobre nada, essencialmente sobre coisas sem interesse. A quem interessa a conversa de um velho? Novidades dos que se foram, de outros que ainda permanecem. Das conversas que escuto no jardim e no café. E há tanto para ouvir dos outros como eu.&lt;br /&gt;Do curso de computadores que alguém, nesta idade, a “terceira”, como pomposamente lhe chamam, está a tirar. Dos problemas de saúde e dos queixumes que nos assomam aqui e ali. Do que tive de deixar de comer porque faz mal. E, a bem da verdade, nesta etapa da vida, nada faz bem, e o bem que sabe é proporcional ao mal que faz. Do que esse outro diz que aprende com os netos e do muito que nunca perceberá sobre tanta coisa que interessa a criançada. Do que faço nas aulas de ginástica e do que o meu corpo me surpreende com as coisas que já não consigo fazer, sentado num tapete de borracha. É verdade que há muito mais, além disso, que já não consigo fazer. Mas isso não me preocupa. As preocupações fazem-nos rugas e tornam-nos velhos.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-3128975066392966959?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/3128975066392966959/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=3128975066392966959' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3128975066392966959'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3128975066392966959'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/01/sem-medo-de-viver.html' title='Sem Medo de Viver'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SYCagspleCI/AAAAAAAAAFE/ru2bvvEHPxg/s72-c/MR+06+-+JANEIRO+2009.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-1847095980350514540</id><published>2009-01-05T09:25:00.000-08:00</published><updated>2009-01-05T09:39:51.316-08:00</updated><title type='text'>Com sorriso no rosto - O ciclo de Jorge Patrício</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt; &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SWJDjDZMJwI/AAAAAAAAAEs/8gxchgx6Kdk/s1600-h/MR1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5287863181971826434" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 277px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SWJDjDZMJwI/AAAAAAAAAEs/8gxchgx6Kdk/s320/MR1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;strong&gt; Fotos: Rui Miguel Cunha&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SWJDoxMWHeI/AAAAAAAAAE0/Juv9CWcvnU4/s1600-h/MR2.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5287863280165330402" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 132px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SWJDoxMWHeI/AAAAAAAAAE0/Juv9CWcvnU4/s200/MR2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O automóvel não passa despercebido. Tem apenas uma porta, um lugar, mas devido ao seu interior espaçoso dá para duas ou até três pessoas. É um prático a gasóleo, de pequenas dimensões e linhas direitas, versátil e fácil de conduzir e estacionar, ideal para movimentações entre a casa e o emprego. Jorge Patrício descobriu-o há uns anos e não descansou enquanto não conseguiu o automóvel que se adaptava que nem uma luva às suas necessidades. Tanto assim foi, que só tirou a licença de condução há dois anos, quando lhe foi concedido o apoio financeiro para o adquirir. &lt;strong&gt;“Descobri-o através dum programa de televisão onde o vi em exposição numa feira que estava a decorrer em Portalegre"&lt;/strong&gt;. Apenas depois de muitas voltas e contactos chegou o desejado carro, e seguiram-se dois meses de ensaios. &lt;strong&gt;“Comecei por aprender a arrancar, sem sair do mesmo sítio. Andava uns bocadinhos para a frente e para trás. E só depois experimentei ir para a estrada, sempre com a minha irmã mais velha, e treinava numas ruas sem trânsito.”&lt;/strong&gt; Ultrapassadas as provas teóricas e de condução e devidamente munido da licença para conduzir, Jorge começou a ir de automóvel para o trabalho. &lt;strong&gt;“Tratei de tudo a pensar sobretudo nessas deslocações”&lt;/strong&gt;, justificou-se. Mas este é também o meio que hoje utiliza para acompanhar a família nas compras de fim-de-semana ou para ir ao cinema ou ao café com os sobrinhos.&lt;br /&gt;Jorge, agora com 37 anos, trabalha na secretaria da Escola Secundária de Sampaio, Sesimbra, estabelecimento que frequentou do 7.º ao 12.º ano sem chumbar, depois de já ter abandonado os estudos para fazer o que gostava; trabalhar numa oficina como mecânico. A escola nunca o atraiu. Completada a primária, demorou dois anos a cumprir o 5.º ano, e outros tantos para fechar o 6.º. &lt;strong&gt;“Os professores diziam que era um bocadinho preguiçoso, mas a verdade é que nunca gostei muito de estudar. O que apanhava nas aulas era suficiente para tirar positiva e nunca tive como perspectiva ir para a Universidade”&lt;/strong&gt;, diz.&lt;br /&gt;Mas a escola acabou por nunca sair do seu caminho. Concluídos os estudos, Jorge cumpriu um estágio profissional de 4 anos no mesmo estabelecimento de ensino, através do Centro de Formação da Cercizimbra, recebendo uma bolsa do Instituto de Emprego e Formação Profissional. Concluído esse período, surgiu a oportunidade dum concurso e acabou por formalizar um vínculo profissional. E está na secretaria até hoje. &lt;strong&gt;“Não faço o que gosto, mas gosto do que faço”&lt;/strong&gt;, conclui com o mesmo sorriso rasgado e sincero com que fala sobre tudo. O computador é um instrumento importante no trabalho, mas também em casa como ocupação dos tempos livres, assim como a televisão onde assiste a tudo, &lt;strong&gt;“sobretudo filmes”&lt;/strong&gt;, e acompanha religiosamente e com especial interesse as prestações do seu Sporting. Na sala e no quarto de sua casa, para onde quer que se olhe, só se vê riscas verdes e brancas e há sempre um leão a espreitar em qualquer recanto. Nunca assistiu a um jogo ao vivo, mas não deixa de sublinhar que esteve já por duas vezes no estádio de Alvalade. &lt;strong&gt;“Primeiro fui com a família, e depois com o Centro de Formação da Cercizimbra”&lt;/strong&gt;. Uns meses depois o mesmo centro organizou uma visita ao Estádio da Luz, do rival Benfica. &lt;strong&gt;“Por acaso não fui. Mas foi mesmo por acaso. Não pude mesmo”&lt;/strong&gt;, justifica-se.&lt;br /&gt;A casa é um refúgio onde tudo parece feito à sua medida. Mas nem sempre foi assim. Há 5 anos, quando as condições financeiras permitiram, a casa cresceu, o seu antigo quarto de reduzidas dimensões foi transformado numa casa de banho e passou para outro mais espaçoso. Antes, quando a largura das portas não ultrapassava os 60cm, longe dos actuais 90cm, Jorge Patrício não conseguia passar da sala. Entrava pela porta da rua e ali ficava. Mas no exterior, o mundo continua a apresentar-se-lhe como uma enorme uma prova de obstáculos. O grande problema são, precisamente, os acessos; &lt;strong&gt;“as escadas, as portas estreitas, os móveis e mesas no meio da passagem”&lt;/strong&gt;. Depara-se, frequentemente, com casas de banho não funcionais ou mal equipadas em estabelecimentos públicos, com barreiras arquitectónicas como escadas ou portas estreitas, e com a entrada para o carro barrada, por estacionarem demasiado próximo da traseira.&lt;br /&gt;Há 22 anos que o Jorge se adaptou a esta nova vida, em que teve de deixar de fazer algumas coisas de que gostava e descobrir outras. Foi também um redescobrir-se. &lt;strong&gt;“Quando há obstáculos, quando não dá para passar, tenho de os contornar, passar por cima, se der, ou dar uma volta maior para chegar onde quero.”&lt;/strong&gt; Já tem mais anos de vida em cima da cadeira de rodas do que de outra forma. Foi aos 15 anos, que a sua vida deu uma reviravolta. Jorge Patrício trabalhava numa oficina, como sempre quis, e jogava futebol no Grupo Desportivo de Sesimbra, treinando 3 vezes por semana. Habitualmente, deslocava-se de casa para o trabalho de bicicleta, ao final do dia seguia por esse mesmo meio até perto da paragem do autocarro, deixava o velocípede e a mala do almoço já vazia em casa duma conhecida na aldeia de Santana e apanhava o autocarro até ao campo de futebol, em Sesimbra. Foi assim durante muito tempo, até ao dia 19 de Dezembro de 86. &lt;strong&gt;“Na véspera tinha feito um furo na bicicleta e o meu pai deu-me boleia até ao trabalho. Como era dia de treino, contava fazer a pé o percurso até à paragem do autocarro. Na oficina, no entanto, ouvi um colega dizer que tinha de ir às bombas de gasolina a Sesimbra e pedi-lhe boleia.”&lt;/strong&gt; As bombas são separadas do campo de futebol por uma pequena mata que corta caminho e Jorge atalhou mesmo por ali. &lt;strong&gt;“Ainda me lembro de, em criança, fazermos aquela descida sentados nas caixas do peixe”&lt;/strong&gt;. E essas memórias junta agora outras bem diferentes daquele percurso. &lt;strong&gt;“Mais ou menos a meio do caminho, devo ter tropeçado ou escorregado e caí. Como estava muito perto duma árvore, bati com a cabeça e fiz fractura na cervical.”&lt;/strong&gt; Jorge ficou tetraplágico. &lt;strong&gt;“Fiquei lá caído, sem saber o que tinha acontecido porque nunca tinha ouvido falar do que me acontecera. Eram cerca das 6 da tarde, estava a ficar escuro e começava a chover. A minha sorte foi ter avistado um senhor que também ali passava a cortar caminho e chamei-o.”&lt;/strong&gt; Encaminhado para o Hospital de S. José, Jorge foi operado, ficou internado 4 meses e depois passou mais 3 no Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão. Só voltou a casa em Julho do ano seguinte.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Para além do que não podia fazer, o que me custou mais foi a falta de apoio de alguns amigos”&lt;/strong&gt;, admite agora com ar sério. Uns foram-se, outros permaneceram, e outros ainda viriam a surgir quando regressou à escola e aos estudos que já havia abandonado. Integrado numa turma, onde os rapazes eram uma minoria, foi fácil criar laços. &lt;strong&gt;“Às vezes eu até queria ficar no pavilhão, mas eles pegavam-me na cadeira e levavam-me para o intervalo. Fui bem aceite por todos, inclusive pelos professores. Não estava à espera de ter essa aceitação.”&lt;/strong&gt; Mas foi muito importante.&lt;br /&gt;Do início da sua nova vida recorda o questionamento – &lt;strong&gt;“porquê eu?”&lt;/strong&gt; - mas &lt;strong&gt;“na altura era tão novo que apenas tive de crescer de forma diferente”&lt;/strong&gt;. Não há, sublinha, uma revolta, mas antes uma não conformação. Mas quando olha para trás, conclui que há coisas que têm mesmo de ser. &lt;strong&gt;“Se for rever tudo ao pormenor, houve um encadeamento de acontecimentos naquele dia que normalmente não aconteciam”&lt;/strong&gt;, e que o conduziram, com alguma inevitabilidade, àquele desfecho.&lt;br /&gt;Em Alcoitão, além da fisioterapia teve ainda terapia ocupacional e ‘actividades da vida diária’ onde reaprendeu &lt;strong&gt;“a lavar os dentes, a comer ou a escrever”&lt;/strong&gt;. De lá trouxe alguns instrumentos que o ajudam a segurar nos talheres ou numa caneta e a escrever ao computador. Mas como a necessidade aguça o engenho, Jorge usa outros instrumentos de sua autoria, que idealiza e a mãe concretiza, como umas luvas que o ajudam a fixar os alteres as mãos durante as sessões de fisioterapia. &lt;strong&gt;“A fisioterapia tem ajudado bastante na parte muscular e das articulações. Treino o equilíbrio e ganho mais força, sobretudo ao nível dos braços."&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Neste momento, Jorge Patrício aguarda a aprovação do pedido de apoio financeiro para adquirir uma nova cadeira cuja perspectiva tem feito as suas delícias, porque permitir-lhe-á uma maior mobilidade; levanta-o, mantém-no de pé e deita-o. &lt;strong&gt;“Até porque o facto de passar horas na cadeira já me criou alguns problemas e fui operado três vezes”&lt;/strong&gt; devido às dificuldades de circulação, conta. Entretanto, já experimentou a cadeira e a primeira vez que ficou em pé achou &lt;strong&gt;“esquisito”&lt;/strong&gt;. &lt;strong&gt;“Comecei a ficar branco, tonto e vi umas estrelinhas. Foi engraçado porque os meus sobrinhos, que estão habituados a ficar à minha altura, viram-me depois lá em cima.”&lt;/strong&gt; Jorge está agora a um passo de ganhar mais alguma autonomia. &lt;strong&gt;“Se, por exemplo, eu quiser aqueles livros que estão ali em cima, já não tenho de os pedir.”&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;E a sua vida tem sido assim feita de pequenas grandes conquistas. Da cadeira manual passou para a eléctrica, adquirida através dum peditório desenvolvido pela escola secundária junto de empresários e instituições, que o ajudava a ir até onde a bateria permitia, depois o carro, e agora é esta nova cadeira que lhe ocupa os sonhos. Mas quando fala no futuro, o Jorge deposita as suas esperanças no desenvolvimento da medicina, pelo que acompanha e segue de bem perto, as experiências mais inovadoras e os resultados que vão surgindo.&lt;br /&gt;O dia de amanhã é uma preocupação que assume. &lt;strong&gt;“Ainda tenho a mãe que vai fazendo muita coisa mas está a ficar velhota. Agora tenho também muita ajuda das irmãs, mas daqui para a frente ninguém sabe… Penso nisso muitas vezes, mas também me convenço de que mais vale não pensar muito e deixar a vida ir acontecendo.”&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-1847095980350514540?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/1847095980350514540/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=1847095980350514540' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1847095980350514540'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1847095980350514540'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2009/01/com-sorriso-no-rosto-o-ciclo-de-jorge.html' title='Com sorriso no rosto - O ciclo de Jorge Patrício'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SWJDjDZMJwI/AAAAAAAAAEs/8gxchgx6Kdk/s72-c/MR1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-1491868866649156236</id><published>2008-12-26T06:40:00.000-08:00</published><updated>2008-12-26T06:46:15.388-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51); font-family: 'Trebuchet MS'; font-size: 13px; "&gt;&lt;div&gt;Já lá vão quase três anos de aulas e não passo sem recorrer à cábula.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Viva a persistência!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ainda assim, já vou sabendo umas coisinhas que me enchem de orgulho. Cá vai: 圣诞快乐！新年快乐!&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-1491868866649156236?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/1491868866649156236/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=1491868866649156236' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1491868866649156236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1491868866649156236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/12/j-l-vo-quase-trs-anos-de-aulas-e-no.html' title=''/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-4618384904553946317</id><published>2008-12-18T02:06:00.000-08:00</published><updated>2008-12-18T02:13:33.894-08:00</updated><title type='text'>Espelho redondo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SUoiIk0mHKI/AAAAAAAAAEk/TwUFSJQ3LR4/s1600-h/mirror.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5281071043763903650" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 144px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SUoiIk0mHKI/AAAAAAAAAEk/TwUFSJQ3LR4/s200/mirror.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Fechando os olhos, ainda consegue reconstituir na memória o homem que ontem encontrava pela manhã quando se olhava no espelho redondo pendurado na casa-de-banho do quarto de hotel. Detesta espelhos redondos. E aquele era de particular mau gosto. Agora que pensa nisso, nos últimos tempos, de hotel em hotel, só se tem confrontado com espelhos redondos. É uma praga perante a qual se encarava com os mesmos olhos baços e raiados de sempre, a saírem de dois espaços ocos e escurecidos que denunciavam um enorme cansaço, o mesmo nariz altivo e pontiagudo, os lábios carnudos, as maçãs do rosto bem demarcadas herdadas de família, como todos irritantemente reparavam, e o cabelo escuro que enquadrava a barba desleixada de dois dias que despontava na face mais descolorada que o habitual.&lt;br /&gt;É de manhã, após o sono, antes de compor a imagem daquilo que supõe que é, que António se acha mais autêntico. Mas basta-lhe que ele próprio saiba disso. E mesmo assim, o hábito quase que o engana, havendo dias em que, de tanto conviver consigo para lá da imagem que o espelho redondo lhe devolve, ele acha que realmente é aquilo em que é capaz de se transformar todas as manhãs. Porque fora daquele retrato tão cruelmente fidedigno enquadrado no círculo piroso, António é, de facto, um homem que vive para cumprir objectivos, estrategicamente definidos e delineados no tempo. Comprovam-no o fato escuro, o ar seguro, a passada larga, e a voz firme e modulada, que a vida lhe afinou à medida que as coisas lhe foram acontecendo. E nos últimos dias têm-lhe acontecido muitas coisas. Tantas que o verdadeiro António, o tal que só se descobre pela manhã, assiste a ligeiras modificações em si, com evidentes repercussões no resto do dia e no resto do seu corpo que o espelho não consegue abarcar, por muito que o homem se afaste para aumentar o reflexo de si que a moldura lhe devolve.&lt;br /&gt;Algo tem vindo a mudar e isso não é necessariamente mau. Porque, como conclui sobre si próprio, António cresceu, não envelheceu; convenceu, não venceu apenas; e, sobretudo, endureceu, preparando-se para qualquer embate. A vida corre-lhe tão bem que o homem sente-se a ultrapassar-se. E isso evidencia-se no espelho: as feições enrudecem de dia para dia. Os olhos baços e raiados de sempre embaciam-se, sobressaindo ainda mais de dois espaços ocos e enegrecidos que denunciam um monumental cansaço, de tanto querer abarcar e estar a par de tudo, em todos os momentos; as abas do nariz altivo abrem-se para inspirar tudo e insuflá-lo de toda a confiança; os lábios carnudos estão mais suculentos; as maçãs do rosto afiguram-se ainda melhor demarcadas, assemelhando-o mais do que nunca à família; o cabelo cresce a uma velocidade que as idas ao barbeiro não controlam; e a barba de dois dias é hoje maior que a barba de dois dias de há uns tempos atrás. Ao olhar-se no espelho, António tem agora a estranha impressão de que a sua cara é mais cara: tudo está melhor demarcado e mais pronunciado, com os contornos salientes e bem definidos. E os espelhos redondos de mau gosto dos hotéis nunca o enganaram. São até bastante honestos. Talvez demais.&lt;br /&gt;Também fora do espelho, António sente-se a superar-se, como se estivesse a sair de si próprio. Como se, por já não caber mais dentro de si, tivesse de ocupar mais espaço no mundo.&lt;br /&gt;Sem sequer pensar, as palavras adequadas saem-lhe. Sem se esforçar, os objectivos que se impõe são cumpridos. Sem querer, absorve toda a informação possível. O homem fica tão cheio de si que se obriga a viajar por diversos locais para estar onde não está. Até ao dia em que algo muda.&lt;br /&gt;O espelho redondo volta a mostrar-lhe a imagem inicial de um António que julgou ter perdido no passado, e que há muito só conseguia reconstituir quando fechava os olhos, tão longe já estava ela de si. Mas este retrocesso físico não pode ser bom augúrio. E o médico confirma o vaticínio. O homem padece de um estranho síndrome: está a engolir-se a si próprio. Os olhos mirram, desaparecendo sob umas pequenas fendas. Toda a sua face se transforma num único buraco oco e escurecido onde não se vislumbra cansaço, nem se diferenciam as maçãs do rosto, nem coisa nenhuma, mas onde pontua um minúsculo nariz que parece querer fugir para o interior de si. Os lábios são agora duas finas linhas, que parecem trincados pelos dentes enterrados nas gengivas e mastigados nas comissuras. O cabelo deixa de crescer e a barba de dois dias é de dois dias há vários meses, pelo que o homem nem se atreve a meter-lhe a gilete com receio de nunca mais voltar a vê-la. A voz sai-lhe num fio esforçado. O corpo consome-se, e mal deixa perceber as suas formas, sob a roupa vários números acima, que balouça com uma passada curta e amedrontada. António sente-se a engolir-se, como se todo o seu corpo estivesse a ser apoderado por uma enorme vontade de desaparecer e não fazer mais parte daquilo que tinha sido até aqui.Agora, perante tão intrigante cenário, o homem julga que já é capaz de conseguir enquadrar todo o seu corpo no espelho redondo do hotel. Quando ganha coragem para se confrontar com a imagem que se engole a si própria, António olha-se no espelho mas já não encontra ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Publicado no &lt;strong&gt;Jornal de Sesimbra&lt;/strong&gt; de &lt;strong&gt;Novembro de 2008&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-4618384904553946317?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/4618384904553946317/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=4618384904553946317' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4618384904553946317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4618384904553946317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/12/espelho-redondo.html' title='Espelho redondo'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SUoiIk0mHKI/AAAAAAAAAEk/TwUFSJQ3LR4/s72-c/mirror.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-1906718298606299868</id><published>2008-12-16T15:23:00.000-08:00</published><updated>2008-12-16T15:26:38.539-08:00</updated><title type='text'>O que se ouve</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51); font-family: Verdana; font-size: 11px; line-height: 16px; "&gt;&lt;div&gt;Agora sim, damos a volta a isto!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Agora sim, há pernas para andar!&lt;br /&gt;Agora sim, eu sinto o optimismo!&lt;br /&gt;Vamos em frente, ninguém nos vai parar! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora não, que é hora do almoço...&lt;br /&gt;Agora não, que é hora do jantar...&lt;br /&gt;Agora não, que eu acho que não posso...&lt;br /&gt;Amanhã vou trabalhar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora sim, temos a força toda!&lt;br /&gt;Agora sim, há fé neste querer!&lt;br /&gt;Agora sim, só vejo gente boa!&lt;br /&gt;Vamos em frente e havemos vencer! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora não, que me dói a barriga...&lt;br /&gt;Agora não, dizem que vai chover...&lt;br /&gt;Agora não, que joga o Benfica...&lt;br /&gt;e eu tenho mais que fazer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora sim, cantamos com vontade!&lt;br /&gt;Agora sim, eu sinto a união!&lt;br /&gt;Agora sim, já ouço a liberdade!&lt;br /&gt;Vamos em frente, é esta a direcção! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora não, que falta um impresso...&lt;br /&gt;Agora não, que o meu pai não quer...&lt;br /&gt;Agora não, que há engarrafamentos...&lt;br /&gt;Vão sem mim, que eu vou lá ter...&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51); font-family: Verdana; font-size: 11px; line-height: 16px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51); font-family: Verdana; font-size: 11px; line-height: 16px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: bold;"&gt;Movimento Perpétuo Associativo, by &lt;a href="http://www.deolinda.com.pt/"&gt;Deolinda&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-1906718298606299868?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/1906718298606299868/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=1906718298606299868' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1906718298606299868'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1906718298606299868'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/12/o-que-se-ouve.html' title='O que se ouve'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-3154478779354850483</id><published>2008-12-10T13:38:00.000-08:00</published><updated>2008-12-10T13:45:04.753-08:00</updated><title type='text'>Is there anybody out there?</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SUA3G5egbyI/AAAAAAAAAEM/1HDwEPRpaxc/s1600-h/DSC02456.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SUA3G5egbyI/AAAAAAAAAEM/1HDwEPRpaxc/s400/DSC02456.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5278279354925739810" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Poucas serão as vezes em que encontro uma praia só para mim. Mas que as há, há.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Porto Covo, Setembro 2008&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-3154478779354850483?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/3154478779354850483/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=3154478779354850483' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3154478779354850483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/3154478779354850483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/12/is-there-anybody-out-there.html' title='Is there anybody out there?'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SUA3G5egbyI/AAAAAAAAAEM/1HDwEPRpaxc/s72-c/DSC02456.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-1754187134312001551</id><published>2008-12-08T13:59:00.000-08:00</published><updated>2008-12-08T15:21:06.662-08:00</updated><title type='text'>O que ficou para trás?</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/ST2Y4cH1CeI/AAAAAAAAAEE/Y09v4K7dOH0/s1600-h/DSC02379.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/ST2Y4cH1CeI/AAAAAAAAAEE/Y09v4K7dOH0/s400/DSC02379.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5277542433737214434" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;There is nothing left here&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: normal;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: bold;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Foto: Carlos Macedo (Museu de Arte Moderna, Santiago de Compostela, Março 2008&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-1754187134312001551?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/1754187134312001551/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=1754187134312001551' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1754187134312001551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/1754187134312001551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/12/there-is-nothing-left-here.html' title='O que ficou para trás?'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/ST2Y4cH1CeI/AAAAAAAAAEE/Y09v4K7dOH0/s72-c/DSC02379.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-6590895402789109445</id><published>2008-11-25T05:10:00.001-08:00</published><updated>2008-11-25T06:09:13.306-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SSwGlcVST0I/AAAAAAAAAD8/cE_hM3Y3ECE/s1600-h/Armindo+Marques.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5272596504074407746" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 211px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SSwGlcVST0I/AAAAAAAAAD8/cE_hM3Y3ECE/s320/Armindo+Marques.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; Foto: Rui Cunha&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;“Isto é mais para estar entretido”&lt;/strong&gt;, diz Armindo Marques, 73 anos, que se dedica, ainda hoje, ao ofício de ferreiro que aprendeu em criança. O seu percurso profissional, no entanto, levou-o por outros caminhos. Foi canteiro ainda jovem e motorista de veículos pesados de passageiros durante 25 anos, &lt;strong&gt;“sem nunca ter tido um acidente”&lt;/strong&gt;. A reforma levou-o a redescobrir uma arte que nunca esqueceu.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Quando me reformei já não havia ferreiros”&lt;/strong&gt;, afirma. Começou porque precisava de afiar as suas próprias ferramentas. Continuou para &lt;strong&gt;“desenrascar”&lt;/strong&gt; alguns amigos, conhecidos e quem o procurava. E hoje mantém vivo o ofício sobretudo para passar o tempo.&lt;strong&gt; “Até porque tem meses que não dá 20 contos e há alturas em que não me aparece aqui ninguém”&lt;/strong&gt;, conclui.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Dou um jeito a quase tudo”&lt;/strong&gt;, assegura o ferreiro enquanto mostra uma ferramenta bem afiada. No anexo onde desenvolve o ofício, as ferramentas fabricadas, arranjadas e afiadas alinham-se meticulosamente nas paredes, dentro e sobre os móveis que construiu. Num canto estão pendurados utensílios de canteiro, peças antigas prometidas a um adiado museu as actividades tradicionais do concelho de Sesimbra. No centro, sobre um tronco de árvore cortado, frente à forja, está a bigorna que também tem história. &lt;strong&gt;“Numa loja de ferragens em Setúbal pediram-me 55 contos por uma peça destas. Era muito cara. Procurei depois em vários ferros-velhos e fui até Alhos-Vedros, com 30 contos no bolso. Quando lá cheguei, disseram-me que tinham uma bigorna mas que era demasiado cara para mim. Pediam 10 contos por ela”&lt;/strong&gt;, recorda com um sorriso a espreitar sob os óculos.&lt;strong&gt; “Isto dura uma vida”&lt;/strong&gt;, conclui ainda radiante com o negócio.&lt;br /&gt;A forja ateada aquece o espaço e o ferreiro transforma um ferro encaracolado em forma de mola em vários ponteiros para pedreiro. &lt;strong&gt;“À força de porrada tem de endireitar”&lt;/strong&gt;, diz enquanto dá umas marteladas valentes e certeiras no ferro. Até parece simples. Mas a arte do ferreiro está, sobretudo, como faz questão de salientar, na têmpera, ou seja, no banho em que tempera os metais.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“A ciência está no tempero. Há metais que temperam na água, outros no carvão, ao ar ou em óleo queimado.” &lt;/strong&gt;Depois de fazer um ponteiro recto e pontiagudo do aço retorcido, Armindo Marques mergulha-o num balde de água. &lt;strong&gt;“Primeiro o aço fica branco, está a ver? Depois azul e, por fim… cá está, cor de trigo. Agora sim, está pronto.”&lt;/strong&gt; Se assim não fosse, &lt;strong&gt;“logo que se usasse, isto partia”&lt;/strong&gt;. O homem olha para a rua, pela porta aberta, e torce o nariz: &lt;strong&gt;“hoje nem está um bom dia para temperar, está névoa”&lt;/strong&gt;. O sol tem muita influência nisto tudo.&lt;br /&gt;Enquanto conversa, Armindo Marques vai controlando a forja. &lt;strong&gt;“Se me descuido, o aço derrete e vai à vida”&lt;/strong&gt;, explica-se e liga uma engenhoca que inventou para atear o fogo.É com orgulho que sublinha o facto de ser o único ferreiro. O último que ainda resiste, &lt;strong&gt;“por enquanto”&lt;/strong&gt;, como faz questão de acrescentar.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-6590895402789109445?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/6590895402789109445/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=6590895402789109445' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6590895402789109445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6590895402789109445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/11/isto-mais-para-estar-entretido-diz.html' title=''/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SSwGlcVST0I/AAAAAAAAAD8/cE_hM3Y3ECE/s72-c/Armindo+Marques.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-8645207265218809120</id><published>2008-11-18T06:06:00.000-08:00</published><updated>2008-11-18T06:46:11.673-08:00</updated><title type='text'>COM SABOR A SAL - Na rota do peixe-espada preto</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SSLMUIt9PMI/AAAAAAAAAD0/VrOfxPVHlIY/s1600-h/MR+04+-+NOVEMBRO+2008+baixa1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5269999160286592194" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 277px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SSLMUIt9PMI/AAAAAAAAAD0/VrOfxPVHlIY/s320/MR+04+-+NOVEMBRO+2008+baixa1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; &lt;strong&gt;Foto: Rui Cunha&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;“Meter os tortos nos mortos para apanhar os vivos...”&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;No porto de abrigo não há momentos de silêncio. As conversas entre homens do mar são entrecortadas pelo grasnar das gaivotas e pelo ruído dos motores das embarcações que aportam e partem, e dos carros e carrinhas que se atravessam no caminho, transportando pescadores e apetrechos nas caixas abertas. Frente a um dos armazéns de pesca, de portas altas e largas, os ‘camaradas’ atarefam-se na preparação da faina avisada para o final dessa tarde. À esquina do armazém, um homem ‘safa machucha’, ou seja, desemaranha o ‘aparelho’ (fios de nylon que compõem a arte de pesca), que após uma pescaria ganha nós e engulhos.&lt;br /&gt;À entrada, sentado frente a uma selha, outro coloca ´a isca´ ao longo do aparelho, enleando sardinhas nos anzóis, ou como dizem os mais velhos, metendo &lt;strong&gt;“os tortos nos mortos para apanhar os vivos”&lt;/strong&gt;. O peso da vida do mar está-lhes espelhado na pele encortiçada pelo sol e pelo vento agreste e nas mãos grossas e calejadas que manejam habilmente os fios, os anzóis, o isco e tudo o mais o que deve ser &lt;strong&gt;“aviado em terra”&lt;/strong&gt; para enfrentar, uma vez mais, os humores do oceano.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Há 21 anos que ando ao peixe-espada preto”&lt;/strong&gt;, afirma o mestre Carlos Fernando Macedo da embarcação ´Carlos e Rui´, que na vida dedicada ao mar experimentou já outras artes. &lt;strong&gt;“Andei às redes de emalhar e tresmalho, à pescada, ao tamboril e ao linguado, mas também andei ao anzol, às xaputas."&lt;/strong&gt; O peixe-espada preto surgiu por se afirmar &lt;strong&gt;"mais rentável"&lt;/strong&gt; e também por ser uma &lt;strong&gt;"experiência nova"&lt;/strong&gt;, explica. &lt;strong&gt;"Havia mais peixe deste e começou também a ser valorizado no mercado. Antes não se apanhava o espada-preto. Deitava-se ao mar porque, ao contrário do espada-branco, não se comia. Ninguém pegava"&lt;/strong&gt;, afirma. A ‘companha’, ou tripulação do seu barco, é composta por 14 homens, entre os 34 e os 58 anos, sendo que &lt;strong&gt;"6 são de terra"&lt;/strong&gt;, isto é, trabalham apenas no armazém e &lt;strong&gt;"8 de mar"&lt;/strong&gt;, que, durante a faina, dentro do barco, ocupam diferentes posições já determinadas. Esta embarcação está apetrechada com máquinas para recolher o aparelho, mas antes tudo era feito a força de braços, e nalguns casos, este tipo de pesca ainda é desenvolvida de forma completamente manual. Apesar de aligeirada, a vida do mar continua a ser dura e instável e vinca-se-lhes na pele e nos olhares.&lt;br /&gt;A noite cai e, no céu, o azul forte é invadido por um vermelho crepuscular, enquanto o casco rasga o &lt;strong&gt;"mar espelho"&lt;/strong&gt; e os homens aproveitam a calmaria para comer uma bucha e conversar. Pela frente estende-se 1.50h de caminho - &lt;strong&gt;"porque está bom tempo"&lt;/strong&gt; - até ao pesqueiro, que fica a &lt;strong&gt;"10 milhas, a sudoeste do Cabo Espichel"&lt;/strong&gt;. Aí chegados, os homens recolhem o aparelho, &lt;strong&gt;"largado"&lt;/strong&gt; duas noites antes e agora já pesado do peixe. Terminada essa tarefa, lançam um novo já preparado que transportaram de terra e que apenas será recolhido dois dias depois. É esta a cadência da pesca. No mar caem 540kg de sardinha, presas por 6000 anzóis, numa ´caçada´ que se estende por 7 milhas e que desce a 600/700 braças (1020 a 1200 metros). De acordo com o Instituto das Pescas, da Investigação e do Mar (IPIMAR), existem várias pescarias desta espécie (Aphanopus carbo, denominação científica de peixe-espada preto), uma na costa continental portuguesa, ao largo de Sesimbra e de Peniche, outra na Madeira e uma terceira a oeste das Ilhas Britânicas. As duas primeiras operam com a arte de palangre, enquanto a última utiliza o arrasto pelo fundo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;"O pescador de Sesimbra é o que melhor trata o peixe."&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O peixe-espada preto encontra-se a uma profundidade tal que quando é puxado, a descompressão faz com que regurgite. &lt;strong&gt;"É normal o peixe trazer pedaços de camarão na boca."&lt;/strong&gt; Já a sardinha, que lhe serve de isco, anda à superfície, sendo capturada ao cerco, pelas traineiras. Não deixa por isso de ser curioso que o espada-preto seja atraído por um petisco que nunca provou, e que acaba por lhe custar a vida.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há dias em que a pescaria corre melhor, outros nem tanto. &lt;strong&gt;"O maior problema são os roazes"&lt;/strong&gt;, explica Carlos Macedo. Essa espécie, da família dos cetáceos, abocanha o peixe e é capaz de deitar por terra o esforço que tantos homens ali despendem durante inúmeras horas. Felizmente, hoje não houve visitas inesperadas, e no regresso ao porto de abrigo, todo o peixe capturado pelo ‘Carlos e Rui’ passa pela lota mas é entregue na ArtesanalPesca (AP), cooperativa de produtores de pesca, sedeada em Sesimbra, que reúne 22 associados, 14 dos quais dedicados ao espada preto.&lt;br /&gt;Um contrato celebrado em Setembro de 2006, entre esta organização e os seus membros, determinou que todo o peixe capturado por estes é entregue na AP. &lt;strong&gt;"O nosso interesse é o desenvolvimento da pesca cooperativa"&lt;/strong&gt;, sublinha o presidente, Manuel José Pinto Alves. Nesse sentido, a organização empenhou-se, nos últimos anos, na construção duma unidade fabril de 1600 m2, capaz de absorver o pescado dos associados, reintroduzindo no mercado produtos &lt;strong&gt;"de elevada qualidade"&lt;/strong&gt;. &lt;strong&gt;"Trata-se, acima de tudo, de garantir a sustentabilidade da actividade piscatória num mercado cada vez mais global e prosseguir a nossa máxima de que são necessárias estruturas em terra para assegurar os produtos do mar."&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim, se antes os barcos vendiam o peixe através de leilão em lota, agora, os pescadores vendem o peixe através da sua organização de produtores (AP) a um preço fixo pré-acordado. Segundo Pinto Alves, a maior dificuldade tem sido, precisamente, conduzir armadores e pescadores a uma forma diferente de colocar o produto no mercado. &lt;strong&gt;"O pescador vive intensamente o dia a dia. De facto, ganhe o que ganhar, mesmo que seja muito, ele não sabe se regressa. Quando vêm peixe no mar, querem trazer tudo. Há a euforia de trazer o barco carregado e quando relembram boas pescarias, orgulham-se de especificar as toneladas que capturaram. Não pensam que, apanhando menos peixe, este acaba por ser mais valorizado no mercado"&lt;/strong&gt;, diz o responsável. Nem a propósito, entre Setembro e Janeiro é a altura do ano em que se pesca mais espada-preto. Em pleno momento de abundância, a AP teve, recentemente, de implementar formas de limitar as capturas por parte dos associados, mas essas medidas não foram, &lt;strong&gt;"como nunca o foram até aqui"&lt;/strong&gt;, pacificamente aceites. &lt;strong&gt;"Não tem sido nada fácil"&lt;/strong&gt;, conclui.&lt;br /&gt;A implementação da estratégia pela organização de produtores, no entanto, já apresenta resultados. Se em 2004 e 2005, antes da assinatura do acordo, o espada-preto foi transaccionado em média a 2,52€/kg e 2,50€/kg, respectivamente, em 2007 esse valor já rondou os 3€/kg, sendo que as quantidades capturadas se têm mantido estáveis, com um ligeiro aumento nos últimos dois anos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Actualmente, segundo Pinto Alves, o palangre de profundidade ocupa entre 50 a 60 por cento dos pescadores sesimbrenses. Mas, destes, mais de metade dedicava-se, até 1998, ao peixe-espada branco, o que ficou inviabilizado com o fim do acordo de pescas entre a União Europeia e Marrocos, e tiveram de optar pela reconversão ou pelo abate das embarcações. Desde então, a ArtesanalPesca - que começou por ter como principal função o fabrico e a venda de gelo, fundamental na altura para a laboração destes barcos, que pela distância que percorriam necessitavam de conservar a frescura do peixe - começou a concentrar esforços na pesca do espada-preto e sua colocação no mercado. Além do peixe inteiro, em posta ou em filetes, fresco e congelado, comercializa ainda outras espécies, embora com menor expressão, como o peixe-espada branco, a lixa, o carocho, o polvo, a sardinha e a cavala. Na fábrica trabalham, actualmente, 40 pessoas, envolvidas nas actividades de controlo de qualidade, de reacondicionamento, de filetagem e de embalamento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;"A nossa maior preocupação é a qualidade do peixe. O pescador de Sesimbra é o que melhor trata o peixe. Quanto a isso ninguém tenha dúvidas. Assim que o peixe entra no barco, dão-lhe um pequeno golpe, sacam-lhe as tripas e acabam-se as barrigas ensardinhadas. Mais ninguém faz isso"&lt;/strong&gt;, defende Pinto Alves.&lt;br /&gt;O chefe de cozinha e director dos restaurantes ‘O Canhão I e II’, em Sesimbra adquire o espada preto directamente à AP porque, diz, &lt;strong&gt;"apresenta, de facto, uma qualidade superior"&lt;/strong&gt;. &lt;strong&gt;"Sei que ali o peixe vem bem preparado. E a qualidade é determinante para a boa finalização do prato"&lt;/strong&gt;, justifica. Na última quinzena gastronómica dedicada ao espada-preto que a Câmara Municipal de Sesimbra, em conjunto com a ArtesanalPesca, tem vindo a promover, desde 2006, Daniel Piedade apresentou &lt;strong&gt;"um filete estufado enrolado em banana com um molho à base de pimento morrone triturado"&lt;/strong&gt; que fez as delícias de muitos dos seus clientes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Segundo a chefe de cozinha Albertina Piedade &lt;strong&gt;"é fácil trabalhar"&lt;/strong&gt; com o espada-preto, que permite mil e uma combinações. Basta ver que na quinzena gastronómica deste ano participaram 50 restaurantes do concelho, o que resultou num cardápio de 92 pratos diferentes. &lt;strong&gt;"É um peixe que permite variar muito; tem boa consistência, trabalha-se bem, é mais suculento e gordo para cozinhar"&lt;/strong&gt;, explica. E dá para todos os gostos. Albertina prefere o espada preto grelhado e Daniel Piedade confessa a predilecção pelo guisado com ervilhas. Não é por acaso que &lt;strong&gt;"todos os dias temos peixe-espada preto na ementa"&lt;/strong&gt;, conclui o chefe de cozinha.&lt;br /&gt;Aproveitando a boa aceitação deste peixe no mercado nacional, a ArtesanalPesca pretende agora divulgar o produto internacionalmente. &lt;strong&gt;"Vamos tentar entrar, de forma mais afirmativa, no mercado francês, que prefere o peixe filetado, e no venezuelano. A ver vamos, porque o futuro de tudo isto está muito dependente daquilo que o pescador quiser."&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-8645207265218809120?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/8645207265218809120/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=8645207265218809120' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/8645207265218809120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/8645207265218809120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/11/com-sabor-sal-na-rota-do-peixe-espada.html' title='COM SABOR A SAL - Na rota do peixe-espada preto'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SSLMUIt9PMI/AAAAAAAAAD0/VrOfxPVHlIY/s72-c/MR+04+-+NOVEMBRO+2008+baixa1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-6657595479976086262</id><published>2008-11-11T02:58:00.000-08:00</published><updated>2008-11-11T03:00:21.832-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SRllpF99QcI/AAAAAAAAADs/qNlMguLtlrw/s1600-h/04.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5267352995837592002" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 132px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SRllpF99QcI/AAAAAAAAADs/qNlMguLtlrw/s200/04.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; Foto de Rui Cunha&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;“Antes dizia-se que os barbeiros eram como os rios. Isto porque era nos rios, onde lavavam a roupa, que as mulheres se encontravam para conversar. Os homens vinham ao barbeiro”, conta José Guilherme Simões. Os 59 anos deixaram incólumes a sua graça e bom humor. A cadeira onde o cliente se senta, sujeitando-se à tesoura e lâmina do barbeiro, funciona também como confessionário. Fala-se de tudo um pouco. Sobretudo de “futebol e de caça”, como não podia deixar de ser, num local frequentado maioritariamente por homens e onde o dono é caçador. “Mas também tenho cortado o cabelo a muitas senhoras. Pedem-mo curtinho, tipo-homem”, apressa-se a acrescentar. Homem ou mulher, de qualquer condição social, não há, nas redondezas quem não conheça o ‘Zé Barbeiro’. “Já cá tive desde o empreiteiro, ao general, almirante, mineiro ou trabalhador nas pedreiras”, enumera. Aqui, felizmente, diz José Simões, “não têm faltado fregueses”. Mas a cada dia que passa, as conversas trocadas com os clientes vão escasseando. “As pessoas não se conhecem. Nem eu próprio as conheço. Quando vim para aqui era bem diferente”, recorda-se. E já lá vão uns anos valentes.&lt;br /&gt;“Comecei neste ofício com apenas 10 anos. Isto era do meu pai que já era barbeiro. Quando ele morreu, eu continuei”, diz com sentido prático, como se essa fosse a ordem natural das coisas. Até, porque concluído o exame da quarta classe, “a 17 de Julho de 1945”, atalha, os meios financeiros não permitiram mais estudos. Sem grandes opções de escolha, o trabalho foi o caminho mais seguro.&lt;br /&gt;Hoje em dia, as coisas já não se processam assim. Os filhos seguiram caminhos diferentes. O caminho que eles próprios construíram. “Foi uma decisão deles. Não fiz força para virem para cá ou sequer para irem para qualquer outro lado. Depois da escola seguiram as suas vidas e estou satisfeito por isso”, conclui José Simões.&lt;br /&gt;Até porque, “o barbeiro tradicional é uma profissão em vias de extinção”. É difícil combater a concorrência dos cabeleireiros, cada vez mais sofisticados.&lt;br /&gt;Na barbearia vence a simplicidade e a resposta à provocação não se faz esperar: “Quem aqui vem, sabe que entra num barbeiro tradicional e não vai pôr-se com exigências. Se o fizerem, mando-os para o cabeleireiro. Não tenho paciência”, responde de rajada, em jeito de graça. E mesmo para quem tem apetência para a tesoura e pente, compensa mais ser cabeleireiro. “Lá os cortes são mais caros, ganha-se mais, por isso o cabeleireiro é uma profissão mais atractiva”, conclui.&lt;br /&gt;José Simões também não entrega o cabelo nas mãos de qualquer um. Mas de um barbeiro é de certeza. Nem que tenha de fazer alguns quilómetros. “Primeiro cortava em Aldeia de Irmãos, no senhor Augusto, que já faleceu. Agora, quando vou a Lisboa, aproveito e corto ali em Cacilhas”, revela. Há outros barbeiros mais perto. Mas nesta, como noutras profissões, é preferível recorrer a um desconhecido. “Prefiro passar incógnito”, confessa com um sorriso malandro a escapar-lhe sob o farto bigode. “Se for a um colega aqui nas redondezas, é provável que não me cobre o serviço porque me conhece. Quero ser um freguês como qualquer outro.”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Publicada na revista Magazine Reportagem de Setembro de 2008&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-6657595479976086262?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/6657595479976086262/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=6657595479976086262' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6657595479976086262'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/6657595479976086262'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/11/foto-de-rui-cunha-antes-dizia-se-que-os.html' title=''/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SRllpF99QcI/AAAAAAAAADs/qNlMguLtlrw/s72-c/04.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-8244672223626676753</id><published>2008-11-10T03:02:00.000-08:00</published><updated>2008-11-10T03:04:50.599-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SRgVMd6Cg6I/AAAAAAAAADk/RLxD-O85zNA/s1600-h/MR+03+-+Outubro+2008+BAIXA1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5266983068140471202" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 173px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SRgVMd6Cg6I/AAAAAAAAADk/RLxD-O85zNA/s200/MR+03+-+Outubro+2008+BAIXA1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Foto: Rui Cunha&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;“Isto foi árvore que já deu fruta”, queixa-se o carpinteiro naval, Francisco Brazinha Nunes, enquanto retira os pregos ferrugentos que mantêm de pé uma velha aiola. É sorte encontrá-lo no estaleiro por estes dias porque o trabalho já escasseia e os biscates apenas surgem de tempos a tempos. “A comunidade europeia acabou com isto”, critica.&lt;br /&gt;Desde 1999 que a vila de Sesimbra se debate com os problemas económicos e sociais causados pela não renovação do acordo de pescas com Marrocos. Treze embarcações foram afectadas directamente, deixando um total de 500 pescadores desempregados. A solução foi criar um apoio financeiro para o abate ou reconversão dos barcos e formação ou reforma antecipada dos pescadores.&lt;br /&gt;“De Marrocos os barcos vinham carregadinhos de peixe. Quando terminou o acordo de pescas, a maior parte dessas embarcações foram abatidas. E essas eram as que nos davam mais trabalho”, recorda o carpinteiro naval. O progresso fez o resto: “com a fibra e o ferro, a construção em madeira entrou em vias de extinção”. Em causa está não só a continuidade de um ofício, mas também uma tradição. “Esta aiola que estou a arranjar é típica de Sesimbra. Isto não há em mais lado nenhum”, alerta.&lt;br /&gt;Mas Francisco Nunes não se perde em nostalgias, convencido de que pouco ou nada pode fazer para alterar o rumo das coisas. O ofício que aprendeu do avô “mestre carpinteiro”, como faz questão de salientar com visível orgulho, é também uma herança de família que deverá morrer por aqui. “Já ninguém põe os filhos a trabalhar nisto. Antigamente, faziam-no porque era uma arte que dava sempre trabalho. Agora não”, conclui. Filhos e netos já rumam por caminhos profissionais diferentes. E, se por um lado, raros são os que vêem nesta profissão o seu futuro, os poucos que ainda a exercem poderão não conseguir assegurá-la por muito mais: “Estamos velhos”, lamenta-se o carpinteiro naval.&lt;br /&gt;Depois de três meses parado, Francisco Nunes trabalha agora numa aiola velha que precisa de reparação. Sem nunca interromper o que está a fazer, admite que mais valia o dono da embarcação optar por uma nova tal é o estado em que esta se encontra. “Um homem sozinho a fazer isto tudo de raiz leva perto de um mês e meio”, conclui sem fazer contas de cabeça. Antes, admite, “era mais complicado porque tudo tinha de ser feito à mão; serrado, amainado e furado”, agora não. Há máquinas que poupam força de braços ao carpinteiro. Mas isso parece importar pouco. É preciso é que haja trabalho. E sempre que surge, o patrão chama-o. E o carpinteiro retorna aos barcos. Foi o que aconteceu desta vez. Mas toda a sua vida foi assim. Sempre que a oportunidade surge, a profissão herdada é um refúgio a que a vida sempre o conduziu. “Ainda estive fora uns meses, a trabalhar na Lisnave, mas depois dum acidente ceguei duma vista e voltei mais uma vez ao ofício que aprendi aos 11 anos e já exerço aos 56 anos”, conta. Terminada a reparação pouco mais haverá para fazer. “Depois vou para casa. Ou sentar-me no jardim”, conclui sem esconder alguma mágoa. Pelo menos até ao próximo biscate.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Publicado na revista Magazine Reportagem de Outubro de 2008&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-8244672223626676753?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/8244672223626676753/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=8244672223626676753' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/8244672223626676753'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/8244672223626676753'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/11/foto-rui-cunha-isto-foi-rvore-que-j-deu.html' title=''/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SRgVMd6Cg6I/AAAAAAAAADk/RLxD-O85zNA/s72-c/MR+03+-+Outubro+2008+BAIXA1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-2918367127744640888</id><published>2008-11-07T02:26:00.000-08:00</published><updated>2008-11-07T02:29:41.144-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SRQYV75f3QI/AAAAAAAAADc/V0ZPSE2n3sQ/s1600-h/01.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5265860629438127362" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 173px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SRQYV75f3QI/AAAAAAAAADc/V0ZPSE2n3sQ/s200/01.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt; &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Foto: Rui Cunha&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Os pais e os sogros já eram agricultores. Hoje, Maria Emília Pinhal e Domingos Marçal Caiado, que já ultrapassaram a barreira dos 70 anos, dão continuidade ao ofício dos antepassados, em Caixas, localidade onde ainda residem.&lt;br /&gt;“Não sei ler nem escrever mas aos 10 anos já fazia isto”, diz Maria Emília enquanto esboça um sorriso sincero. Na época em que iniciou a arte de cultivar a terra, o trabalho que se seguia nem sempre era resultado de uma escolha. Era o que tinha de ser. “Não era eu quem mandava”, justifica. “Semeávamos de tudo, batatas, feijão, repolho… tudo”. E agora também.&lt;br /&gt;O tempo parece não ter passado pela forma como estes agricultores ainda hoje trabalham. Há coisas que nunca mudam. Outras nem tanto. “Uma saca da material”, - de adubo entenda-se, sai mais caro do que comprar legumes e fruta directamente numa mercearia ou num supermercado. Maria Emília chegou a ter um espaço num mercado de rua semanal que se realiza na vila de Sesimbra, mas também isso teve um fim. “A vida já não dá. Estou velha e já não posso”, esclarece com uma franqueza desarmante.&lt;br /&gt;O marido também se tem vergado ao peso da idade e, a pouco e pouco, têm cada vez maior dificuldade em ajudar-se um ao outro. “Além disso, também já não tenho quem me leve”, acrescenta. Até há bem pouco tempo os filhos, que seguiram trajectos profissionais diferentes dos dos pais e dos avós, eram uma ajuda preciosa, transportando a mãe e os bens para venda até à praça. “Mas agora cada um tem a sua vida, e além disso, as pernas também já não me permitem esses afazeres”. Maria Emília admite que sente falta do seu lugar no mercado mas também há sempre muito que fazer na terra e em casa.&lt;br /&gt;“Hoje, por exemplo, tenho vários almoços para preparar.” E isso não é coisa pouca quando se quer agradar a todos. “Um não quer peixe; outro prefere os refogados da avó”, enumera orgulhosa, olhando de soslaio um dos seus seis netos, que lhe faz companhia em época de férias da escola.&lt;br /&gt;Os cozinhados preparados com aquilo que se semeia, cuida e colhe, têm um sabor especial. “Uso algumas das coisas que planto e outras compro, claro”. Mas nota-se bem a diferença. “Nota-se no sabor e a comida dura mais, não azeda com tanta facilidade”, diz com ar de quem sabe do que fala.&lt;br /&gt;É no concelho de Sesimbra, território de contrastes, fruto da sua geografia, da sua história e das suas gentes, que se integra a localidade de Caixas, onde estes agricultores ainda laboram. Com o atlântico de um lado e a serra da Arrábida do outro, a população sesimbrense cedo se virou para o mar, fazendo da actividade piscatória não só uma forma de subsistência, mas também de ser e de estar. Por outro lado, há muito que as gentes se centraram também na terra, a sua, que souberam cultivar e de onde ainda tiram proventos. São vidas salgadas e doces, agarradas assim pelo mar e pela terra. “Eu já vim para aqui, para as Caixas, em pequenina e ainda aqui estou”, diz Maria Emília. Veio da Aldeia do Meco, que naquele tempo devia ficar longe mas hoje está quase ao virar da esquina, a cinco minutos de carro. Mar e terra, estão hoje cada vez mais próximos.&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Publicado na revista Magazine Reportagem (Setembro 2008)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-2918367127744640888?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/2918367127744640888/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=2918367127744640888' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/2918367127744640888'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/2918367127744640888'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/11/foto-rui-cunha-os-pais-e-os-sogros-j.html' title=''/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SRQYV75f3QI/AAAAAAAAADc/V0ZPSE2n3sQ/s72-c/01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-8489173767719200759</id><published>2008-11-06T02:53:00.000-08:00</published><updated>2008-11-06T02:59:51.165-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>“Mais ninguém faz aqui certas coisas que ele fazia”, assevera Rita Carvalho. Era um trabalho lento e minucioso, aquele ao qual Abílio Carvalho dedicava horas de esmero e cuidado e que hoje já “ninguém faz”. Na relojoaria e ourivesaria a que emprestou o seu nome, Abílio passava tempos infindáveis à mesa de trabalho. Uma mesa que ele próprio construiu, sobre a qual se dedicava a um trabalho demorado e minucioso que, segundo recorda a mulher, “dava pouco”.&lt;br /&gt;E ele “fartou-se de trabalhar”, acrescenta. Mas mais importante que isso, é que “tinha gosto pelo que fazia”. Era “muito habilidoso”. &lt;strong&gt;“Tinha umas mãos lindas, não desfazendo”&lt;/strong&gt;, conclui.&lt;br /&gt;Gravava chapas e alianças, mas aquilo de que gostava mesmo era dos relógios. Consertou milhares. Fazia as minúsculas peças num torno com uma perseverança tranquila. “Por vezes perguntava-lhe como é que tinha paciência. Respondia que era o seu ofício, o seu trabalho.” Fazia de tudo. &lt;strong&gt;“Tinha umas mãos lindas, não desfazendo.”&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Natural de Benavente, foi, no entanto, em Lisboa, na Rua dos Anjos, que aprendeu o ofício. Chegou a Sesimbra, mais tarde, mas para trabalhar numa loja, num ramo diferente. Acabou por adoptar a vila de pescadores, gostando dela como se fosse a sua terra, e foi aí que abriu uma relojoaria e ourivesaria à qual dedicou a vida, junto à igreja matriz de Santiago.&lt;br /&gt;Dizia que a poliomielite (paralisia infantil), que lhe agarrou uma perna aos 8 meses, contribuiu para a sua dedicação e sucesso num ofício que lhe exigia rigor, paciência, dedicação e calma. E &lt;strong&gt;“tinha umas mãos lindas, não desfazendo”&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;Apesar da minúcia e vagareza do trabalho, houve épocas em que o negócio rendia. “No Natal lembro-me de fecharmos a porta já depois das 22.30h. Vendiam-se bem as medalhinhas, chapas e pulseiras que ele gravava”, recorda Rita Carvalho. “Tinha umas mãos lindas, não desfazendo. Era um bom artista.” Depois o negócio começou a fraquejar, acompanhando o declínio lento que atinge o comércio local duma forma geral.&lt;br /&gt;Se fosse vivo, Abílio Carvalho completaria, em Setembro, 74 anos. Trabalhou sempre, mesmo quando a doença parecia ser mais forte que a vontade. Mas “nada lhe esmorecia a boa disposição e o gosto pelo trabalho”.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Tinha umas mãos lindas, não desfazendo.”&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5265496968019802834" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 134px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SRLNmDi3etI/AAAAAAAAADM/DECRFni1pGs/s200/05.jpg" border="0" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Foto: Rui Cunha&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Publicado na revista &lt;strong&gt;Magazine Reportagem (Setembro 2008)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sr. Abílio faleceu durante a realização deste trabalho.&lt;br /&gt;A Magazine Reportagem expressa o mais sentido pesar e agradece a colaboração dos familiares, que consentiram a publicação das imagens e texto como forma de recordar o ourives e relojoeiro.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-8489173767719200759?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/8489173767719200759/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=8489173767719200759' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/8489173767719200759'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/8489173767719200759'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/11/mais-ningum-faz-aqui-certas-coisas-que.html' title=''/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_48--genAOos/SRLNmDi3etI/AAAAAAAAADM/DECRFni1pGs/s72-c/05.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3853042871017458877.post-4409646547812929895</id><published>2008-11-05T06:56:00.001-08:00</published><updated>2008-11-05T07:09:36.749-08:00</updated><title type='text'>Nada importa</title><content type='html'>Intriga-o a vida dos outros pela manhã. A vida daqueles que correm apressadamente para aquela estação do comboio quando ainda faltam cinco minutos para a composição arrancar. A azáfama da entrada para as carruagens vazias em busca de um lugar sentado quando se está na estação de partida. Pessoas de caras vazias, com remelas acabadas de arrancar, a almofada marcada na cabeça, os vincos dos lençóis na cara, o corpo ainda quente da cama enfiado em roupas mais ou menos bonitas.&lt;br /&gt;Manuel entra no meio da confusão, conduzido por esta amálgama de gente, e senta-se junto da janela, guardando no bolso, zeloso, o bilhete da viagem que obliterou numa máquina estranha plantada no átrio da estação. Sem saber muito bem por onde ir, o homem limitou-se a seguir os outros até ali. Pôs-se de parte a ver de que forma esses outros, que são tantos, procediam junto da máquina, para não fazer figura de pacóvio e não ter de incomodar ninguém - porque ninguém gosta de ser incomodado àquela hora da manhã com perguntas de um velho tonto que nunca sai de casa.&lt;br /&gt;No comboio, tosses secas matinais cortam ocasionalmente o silêncio impossível num espaço cheio de gente, onde as poucas conversas cheiram ainda ao hálito da noite, e os olhos fugidios ocupam-se a olhar ora para a paisagem que passa nas janelas, ora para o relógio, ou para o telemóvel ou para o jornal gratuito. Manuel olha em redor, em busca duma face conhecida ou de um olhar que o acompanhe, mas nada. Outra coisa não seria de esperar.&lt;br /&gt;Ainda se lembra do tempo em que comprava o bilhete ao cobrador, que percorria o corredor do autocarro - sim, porque nesse tempo a ligação a Lisboa era feita de autocarro e cacilheiro - com uma bolsa de trocos de couro a tiracolo e uma máquina onde inseria uns números de acordo com o destino que lhe era indicado pelo passageiro. Nessa época, os fiscais, que com um instrumento cinzento faziam uma estrelinha no bilhete quadrado minúsculo, eram senhores mais velhos, que inspiravam respeito pela postura. Hoje, os fiscais são homens novos, de aparência forte e musculada, com ar de poucos amigos. Tudo lhe é hoje tão estranho, como se, de cada vez que tem de sair da vila, tivesse se embarcar num mundo anónimo, estranho, desinteressado de tudo e onde ninguém olha para ninguém.&lt;br /&gt;O telefonema surgiu ontem. A dor já lhe apertava o peito há muito. Mas naquela altura nada disso tinha importância. A mulher, companheira de muitos anos, tinha sido atirada à cama por uma dor de barriga, que se estendeu depois às pernas, aos braços, às mãos e à cabeça. O que importa um aperto no peito no meio disso tudo? O que lhe importava ele quando Fernanda deixou de se conseguir levantar para urinar, quando ela deixou de comer e tinha de lhe triturar a comida que lhe enfiava na boca através duma seringa, quando ela deixou de conseguir articular palavras e de lhe dizer que precisava dele e o quanto toda a vida tinha precisado, quando deixou de o olhar fixamente com aqueles olhinhos descaídos, desanimados e desistentes de tudo o que tinha sido até aí? O que lhe importava ele, quando ela já não o reconhecia? O que lhe importava ele quando um dia aquela cama, sobre a qual tinha adormecido debruçado durante tantas noites, ficou vazia? Um vazio que primeiro lhe atacou a barriga tirando-lhe o apetite, e depois se estendeu às pernas impedindo-o de sair de casa, aos braços e às mãos deixando de ter alento para o que quer que fosse, e por fim à cabeça. Qualquer sinal de que poderia continuar a vida sozinho era uma derrota em relação a tudo o que tinha sido até aí. Porque, há muito que ele tinha deixado de importar e de se importar. Não fazia sentido reencontrar-se um sentido.&lt;br /&gt;Perdido nesse vazio que se tinha apoderado dele foi, um dia, abanado pela tal dor no peito que afinal tinha estado sempre ali à espreita e que subitamente o acordou do torpor em que se tinha afundado. A filha deu com ele assim adormecido para tudo e entregue a si próprio, e levou-o ao médico. O longo receituário acabou por ser substituído pela prescrição da intervenção cirúrgica, pela qual teria de esperar, porque uma infinidade de gente padecia do mesmo mal. Nunca pela cabeça lhe passou que tanta gente sofresse de apertos no peito. Quando chegasse a sua vez, contactá-lo-iam. Sem mais com que se ocupar, passou dias infindos junto ao telefone à espera da chamada. Desta forma se mantinha ocupado. De resto, não havia mais nada além da mesa vazia, da cama vazia, da casa vazia, da vida vazia. Só havia a expectativa do telefonema.&lt;br /&gt;Ontem, o telefone tocou. A malinha já estava feita, dentro do armário. Um pijama novo, dos muitos que ainda tem para estrear, umas pantufas bem quentes, cuecas e pouco mais. A trouxa parece agora ser um fardo. Sai do comboio de mala na mão e empurrado. Está sempre a estorvar, ou no caminho de alguém. Ele e a mala. Segue o resto do caminho a pé, afastando-se a pouco e pouco da confusão. O cansaço já lhe pesa no andar pouco seguro da idade avançada. Ele e a mala, que parece ganhar peso à medida que o hospital se aproxima do seu caminho.&lt;br /&gt;“ - Manuel Vaz. Ligaram-me ontem minha senhora. Por causa do aperto no peito...”, anuncia-se debruçado sobre o guichet, depois de alguns minutos de espera.&lt;br /&gt;“ - Sim, mas houve um engano. Tentámos ligar-lhe esta manhã a avisá-lo do erro... Não tem telemóvel? Tinha sido mais fácil de o contactar e escusava de cá vir. Houve uma troca de listas de espera. Vai ter de esperar mais algum tempo... É lamentável mas estas coisas acontecem.”&lt;br /&gt;Manuel emudece, sem saber o que fazer. As respostas, os pensamentos já não se ordenam tão facilmente na sua cabeça.&lt;br /&gt;“ - Vão então ligar-me outra vez?”&lt;br /&gt;“ - Com certeza. Julgo que dentro de alguns meses.”&lt;br /&gt;O homem respira fundo, aliviado, e volta a sair a passo torto. Ele e a mala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Publicado em Jornal de Sesimbra (Novembro de 2008)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3853042871017458877-4409646547812929895?l=um-dia-chego-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/feeds/4409646547812929895/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3853042871017458877&amp;postID=4409646547812929895' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4409646547812929895'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3853042871017458877/posts/default/4409646547812929895'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://um-dia-chego-la.blogspot.com/2008/11/nada-importa.html' title='Nada importa'/><author><name>Turtle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04520205197285528692</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
